Quando a Sé de Pedro fica vacante, o mundo olha para os homens de vermelho em Roma. Mas, afinal, o que é um cardeal? Um quarto grau do sacerdócio, um “superbispo”?
Veja o que diz o Direito Canônico, de onde vem o nome e por que eles vestem púrpura.
Resposta rápida
O que é um cardeal na Igreja Católica?
Cardeal é um clérigo, normalmente bispo, escolhido livremente pelo Papa para ser seu conselheiro mais próximo. Não é um grau do sacramento da Ordem, mas uma dignidade. Os cardeais formam o Colégio dos Cardeais, ajudam o Papa no governo da Igreja universal e, quando a Sé de Pedro fica vacante, os que têm menos de 80 anos elegem o novo Papa.
Cardeal não é um grau da Ordem, é uma dignidade
A Ordem tem só três graus: diaconato, presbiterato e episcopado (veja a diferença entre bispo, padre e diácono e o Catecismo sobre o sacramento da Ordem). Ninguém é “ordenado cardeal”: o cardinalato é um cargo e uma honra que o Papa confere a quem já é sacerdote.

Segundo o Código de Direito Canônico, os cardeais formam um colégio especial, ao qual cabe eleger o Romano Pontífice, e ajudam o Papa colegialmente, nas questões mais graves, ou individualmente, pelos cargos que exercem (cân. 349).
O Papa escolhe livremente homens ordenados pelo menos presbíteros, que se destaquem em doutrina, costumes, piedade e prudência; quem ainda não é bispo deve receber a consagração episcopal (cân. 351 §1).
De onde vem a palavra cardeal e como nasceu o Colégio
A palavra vem do latim cardinalis, ligado a cardo, “dobradiça”. De início, cardeal era o padre ligado de modo permanente a uma igreja principal. Em Roma, desde o fim do século V, o nome passou a designar o clero mais próximo do Papa:
- Os presbíteros das igrejas titulares, as antigas paróquias de Roma.
- Os diáconos das sete regiões da cidade, encarregados dos pobres.
- Os bispos das dioceses vizinhas, chamadas suburbicárias, como Óstia e Albano.

O grande passo veio em 1059: o decreto In nomine Domini, de Nicolau II, reservou aos cardeais, a começar pelos cardeais-bispos, o papel principal na eleição do Papa (veja a lista completa dos Papas).
| Ano | Fato |
|---|---|
| 1059 | Nicolau II, com o decreto In nomine Domini, reserva aos cardeais a eleição do Papa |
| 1245 | Inocêncio IV concede o chapéu vermelho aos cardeais, no Concílio de Lyon |
| 1586 | Sisto V, com a constituição Postquam verus, fixa o Colégio em 70 membros, como os setenta anciãos de Moisés |
| 1962 | João XXIII, com o motu proprio Cum gravissima, determina que todos os cardeais sejam bispos |
| 1970 | Paulo VI, com o motu proprio Ingravescentem aetatem, tira o voto no conclave a quem completou 80 anos |
| 1996 | João Paulo II, na Universi Dominici Gregis, confirma o máximo de 120 cardeais eleitores |
As três ordens de cardeais e a igreja titular
| Ordem | Quem é | Exemplo de título |
|---|---|---|
| Cardeais-bispos | Os que têm título de uma diocese suburbicária e os patriarcas das Igrejas católicas orientais feitos cardeais | Uma diocese vizinha de Roma, como Albano, Frascati ou Palestrina |
| Cardeais-presbíteros | A maioria, em geral arcebispos de grandes dioceses | Uma igreja titular de Roma, como Santa Sabina |
| Cardeais-diáconos | Em geral os que servem na Cúria Romana | Uma diaconia de Roma, como Santa Maria in Cosmedin |

Cada cardeal recebe uma igreja de Roma como “título” ou “diaconia” (cân. 350 §2): assim, quem vive em São Paulo ou em Manila passa a fazer parte, simbolicamente, do clero da diocese do Papa. Ele promove o bem dessa igreja com conselho e patrocínio, mas não a governa (cân. 357 §1).
- Cardeal decano: preside o Colégio como primeiro entre iguais, sem poder de governo sobre os outros; é eleito pelos cardeais-bispos, aprovado pelo Papa e recebe o título de Óstia (cân. 350 §4 e 352).
- Protodiácono: o primeiro dos cardeais-diáconos anuncia ao povo o nome do novo Papa (cân. 355 §2).
- Camerlengo: constata a morte do Papa e administra os bens temporais da Santa Sé durante a Sé vacante (Universi Dominici Gregis, n. 17).
Como se cria um cardeal e por que ele usa vermelho
O Papa cria os cardeais por decreto, publicado diante do Colégio num consistório (cân. 351 §2). Ali impõe a cada um o barrete vermelho, entrega o anel cardinalício e atribui o título. Pode também criar um cardeal in pectore, guardando o nome em segredo (cân. 351 §3).

E por que vermelho? No consistório de 21 de outubro de 2003, São João Paulo II explicou: “O vermelho púrpura do hábito cardinalício evoca a cor do sangue e o heroísmo dos mártires”. É sinal de um amor a Cristo disposto a ir usque ad sanguinis effusionem, até o derramamento do sangue.
Na Missa o cardeal usa os mesmos paramentos litúrgicos de qualquer bispo; é no hábito coral que ele veste vermelho onde o bispo veste violeta.
Cardeais santos e o primeiro cardeal do Brasil
A Igreja venera muitos cardeais santos: São Pedro Damião, cardeal-bispo de Óstia, São Carlos Borromeu, cardeal arcebispo de Milão, o jesuíta São Roberto Belarmino e São Boaventura, glória dos frades franciscanos.

No Brasil, Dom Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, arcebispo do Rio de Janeiro desde 1897, foi criado cardeal por São Pio X em 11 de dezembro de 1905. Foi o primeiro cardeal nascido na América Latina e governou a arquidiocese até morrer, em 1930.

O que faz um cardeal
- Aconselha o Papa nos consistórios ordinários e extraordinários (cân. 353).
- Dirige dicastérios da Cúria Romana, morando em Roma, e apresenta a renúncia aos 75 anos (cân. 354 e 356).
- Governa uma grande diocese, como cardeal arcebispo, e vai a Roma quando o Papa o chama (cân. 356).
- Representa o Papa como legado a latere ou enviado especial (cân. 358).
- Elege o Papa, se tiver menos de 80 anos quando a Sé fica vacante.
O conclave está explicado em como é eleito o Papa. Na Sé vacante, o Colégio só tem o poder que a lei especial lhe dá (cân. 359): não governa a Igreja como se fosse Papa. Nesse período, a Guarda Suíça Pontifícia jura proteger os cardeais.
Cardeal e bispo: qual a diferença
No sacramento, o cardeal é bispo como qualquer bispo. A diferença está no ofício: o bispo diocesano governa a sua Igreja particular; o cardeal é chamado a colaborar diretamente com o Papa, sucessor de Pedro, no governo da Igreja inteira.
O cardinalato é uma forma de servir ao primado que Cristo deu a Pedro (veja as provas do primado de Pedro e por que a Igreja tem Papa, bispos e padres). Os cardeais servem à Santa Sé, que não se confunde com o Estado: veja a diferença entre Santa Sé e Vaticano.
O que é um cardeal na Igreja Católica?
É um clérigo, hoje sempre bispo, escolhido livremente pelo Papa para ser seu colaborador mais próximo. Os cardeais formam o Colégio dos Cardeais, aconselham o Papa e, se têm menos de 80 anos, elegem o novo Papa.
O que é um cardeal arcebispo?
É o arcebispo de uma arquidiocese que também foi criado cardeal. Continua governando a arquidiocese, mas pertence ao Colégio dos Cardeais e, se tiver menos de 80 anos, vota no conclave.
O que é um cardeal decano?
É o cardeal que preside o Colégio dos Cardeais. Ele é eleito pelos cardeais-bispos de título suburbicário, com aprovação do Papa, e recebe como título a diocese de Óstia. É o primeiro entre iguais, sem poder de governo sobre os outros (cân. 350 §4 e 352).
Qual a diferença entre cardeal e bispo?
No sacramento da Ordem não há diferença: o cardeal é bispo, e o episcopado é o grau mais alto. A diferença é de ofício: o bispo governa uma diocese, o cardeal integra o Colégio que aconselha o Papa e elege o seu sucessor.
Por que os cardeais usam vermelho?
O vermelho lembra o sangue dos mártires. Como explicou São João Paulo II no consistório de 2003, a púrpura é sinal de um amor a Cristo e à Igreja disposto a ir até o derramamento do sangue.
O cardeal é, enfim, um servidor do sucessor de Pedro, pronto a dar a vida pela fé. Os cânones citados estão no texto oficial do Código de Direito Canônico no site da Santa Sé.
