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Diferença entre bispo, padre e diácono: os três graus da Ordem

O Papa Sisto II ordena São Lourenço diácono, entregando-lhe o cálice, num afresco do Vaticano

Na Missa de domingo, o padre preside, o diácono proclama o Evangelho e, na Crisma, quem vem é o bispo. Muita gente se pergunta qual é, afinal, a diferença entre bispo, padre e diácono, e se são três sacramentos ou um só.

A resposta é antiga: um só sacramento da Ordem, em três graus. Veja o que cada um pode fazer, a base bíblica e as vestes.

Resposta rápida

Qual a diferença entre bispo, padre e diácono?

Os três recebem o mesmo sacramento da Ordem, em graus diferentes. O bispo tem a plenitude do sacramento: governa a diocese, ordena e crisma. O padre, colaborador do bispo, celebra a Missa, absolve e unge os enfermos. O diácono é ordenado para o serviço: batiza, prega, assiste a casamentos e distribui a Comunhão, mas não consagra nem confessa (CIC §1554).

Um só sacramento, três graus

O Catecismo define a Ordem como o sacramento pelo qual a missão confiada por Cristo aos apóstolos continua a ser exercida na Igreja até o fim dos tempos (CIC §1536). Ele compreende três graus: episcopado, presbiterado e diaconado.

Os dois primeiros são uma participação ministerial no sacerdócio de Cristo; o diaconado é destinado a ajudá-los e servi-los (CIC §1554). Por isso a palavra “sacerdote” designa o bispo e o padre, mas não o diácono. O texto completo está na seção do Catecismo sobre o sacramento da Ordem (§1533-1600).

Cristo entrega as chaves a Pedro diante dos apóstolos, imagem do sacramento da Ordem
O sacramento da Ordem (Cristo entrega as chaves a São Pedro), da série Os Sete Sacramentos de Nicolas Poussin (c. 1636-1640). Imagem: Nicolas Poussin, domínio público, via Wikimedia Commons

O bispo: a plenitude da Ordem

O bispo recebe a plenitude do sacramento da Ordem (CIC §1557) e é sucessor dos apóstolos, como explica o guia sobre o que é a sucessão apostólica e onde ela está na Bíblia. Em comunhão com o Papa, ele governa uma diocese.

Só o bispo ordena padres e diáconos (cân. 1012). Ele é também o ministro ordinário da Confirmação (cân. 882), sacramento explicado em o que é a Crisma. O padre crisma quando tem essa faculdade, como na Vigília Pascal.

Santo Agostinho como bispo, com mitra, báculo, anel e capa pluvial bordada
Santo Agostinho, bispo de Hipona, painel de Piero della Francesca (c. 1460-1470), Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa. Imagem: Sailko, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons

Na ordenação episcopal, feita por mandato do Papa, o bispo ordenante principal associa a si ao menos dois outros bispos (cân. 1014). No Brasil, o bispo é chamado de “Dom”, seguido do primeiro nome.

O padre: colaborador do bispo

O padre, ou presbítero, é consagrado para pregar o Evangelho, apascentar os fiéis e celebrar o culto divino, como verdadeiro sacerdote do Novo Testamento (CIC §1564). Ele depende do bispo no exercício do ministério e, na ordenação, promete-lhe obediência (CIC §1567).

Só o sacerdote, isto é, bispo ou padre, consagra a Eucaristia, absolve os pecados e administra a Unção dos Enfermos (cân. 900, 965 e 1003). Para o penitente, há o guia como se confessar bem.

Um bispo entrega o cálice e a patena ao jovem que está sendo ordenado padre
O sacramento da Ordem (ordenação sacerdotal), de Giuseppe Maria Crespi (c. 1712), Gemäldegalerie Alte Meister, Dresden. Imagem: Dguendel, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons

Na Igreja latina, os padres são escolhidos entre homens que vivem o celibato (CIC §1579; cân. 277). É uma disciplina, não um dogma: nas Igrejas orientais católicas, homens casados podem ser ordenados padres, mas os bispos são escolhidos entre os celibatários (CIC §1580). A objeção histórica é tratada em quando começou o celibato dos padres.

O diácono: ordenado para o serviço

O diácono recebe a imposição das mãos “não para o sacerdócio, mas para o ministério”, fórmula antiga recolhida pelo Concílio Vaticano II (CIC §1569). Na ordenação, só o bispo impõe as mãos sobre ele.

Cabe ao diácono assistir o bispo e os padres na celebração, sobretudo da Eucaristia, distribuir a Comunhão, assistir ao Matrimônio e abençoá-lo, proclamar o Evangelho e pregar, presidir aos funerais e dedicar-se à caridade (CIC §1570). Ele é também ministro ordinário do Batismo (cân. 861) e pode dar diversas bênçãos, que estão entre os sacramentais da Igreja.

GrauO que pode fazerO que não pode fazerEstado de vidaComo chamar
BispoTudo o que o padre faz, e ainda ordenar e crismar como ministro ordinárioAgir fora da comunhão com o PapaCelibatárioDom (no Brasil), Excelência
PadreCelebrar a Missa, absolver, ungir os enfermos, batizar, assistir a casamentosOrdenar; crismar sem faculdadeCelibatário na Igreja latinaPadre, Reverendo
DiáconoProclamar o Evangelho, pregar, batizar, assistir a casamentos, distribuir a Comunhão, presidir funeraisConsagrar a Eucaristia, confessar, ungir os enfermosCelibatário ou casado (permanente)Diácono, Reverendo
Bispo, padre e diácono: funções, limites e estado de vida de cada grau da Ordem

Diácono transitório e diácono permanente

O seminarista é ordenado diácono antes de ser padre (diácono transitório); o diácono permanente fica nesse grau por toda a vida.

O diaconado permanente foi restaurado pela constituição Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II (n. 29, 1964), e regulamentado por São Paulo VI no motu proprio Sacrum Diaconatus Ordinem (1967). Homens casados podem ser ordenados diáconos permanentes, com pelo menos 35 anos e o consentimento da esposa (cân. 1031 §2).

Santo Estêvão vestido com a dalmática, a veste própria do diácono, com o livro e a palma
Santo Estêvão, diácono e protomártir, de Carlo Crivelli (1476), National Gallery, Londres. Imagem: Carlo Crivelli, domínio público, via Wikimedia Commons

O que a Bíblia e os primeiros cristãos dizem

Em At 6,1-6, os apóstolos impõem as mãos sobre sete homens escolhidos para o serviço, entre eles Santo Estêvão. Paulo saúda “os bispos e diáconos” de Filipos (Fl 1,1) e descreve as qualidades de ambos em 1Tm 3,1-13.

São Pedro ordena Santo Estêvão diácono, como em At 6, e Estêvão distribui esmolas aos pobres
São Pedro ordena Santo Estêvão diácono e Estêvão dá esmolas, reprodução de 1883 do afresco de Fra Angelico na Capela Nicolina. Imagem: Fra Angelico (reprodução de 1883), domínio público, via Wikimedia Commons

Paulo e Barnabé designam presbíteros em cada Igreja (At 14,23), e Tito recebe a missão de constituí-los em cada cidade (Tt 1,5). A objeção de que na Bíblia não existem padres cai diante desses textos.

Santo Inácio de Antioquia em vestes de bispo, testemunha dos três graus no século II
Santo Inácio de Antioquia, placa cerâmica bizantina do século X, Walters Art Museum. Imagem: domínio público, via Wikimedia Commons

Por volta do ano 107, Santo Inácio de Antioquia já pede aos cristãos que sigam o bispo, honrem o presbitério como o colégio dos apóstolos e respeitem os diáconos. No século III, o diácono São Lourenço, mártir em Roma no ano 258, servia ao Papa Sisto II.

Vestes e insígnias: como reconhecer cada um

O detalhe mais seguro é a estola: o diácono a usa atravessada, do ombro esquerdo ao lado direito; o padre e o bispo, em volta do pescoço. A cor segue o tempo litúrgico, explicado no guia das cores litúrgicas e seu significado.

GrauEstolaVeste exterior na MissaInsígnias próprias
DiáconoAtravessada, do ombro esquerdo ao lado direitoDalmáticaNenhuma além da estola diaconal
PadreEm volta do pescoço, caindo à frenteCasulaNenhuma além da estola sacerdotal
BispoEm volta do pescoço, caindo à frenteCasulaMitra, báculo, anel, cruz peitoral e solidéu
Vestes e insígnias litúrgicas do diácono, do padre e do bispo

Títulos que não são graus da Ordem

Cardeal, arcebispo, monsenhor e cônego não são graus do sacramento. O cardeal colabora com o Papa e o elege no conclave; normalmente é bispo (cân. 351). O arcebispo é bispo de uma arquidiocese.

Monsenhor é um título honorífico concedido a padres, e cônego é o padre membro de um cabido de catedral. Até o Papa é, quanto à Ordem, um bispo: o Bispo de Roma, sucessor de Pedro.

Qual a diferença entre bispo, padre e diácono?

São três graus do mesmo sacramento da Ordem (CIC §1554). O bispo tem a plenitude e ordena; o padre celebra a Missa e absolve; o diácono serve: prega, batiza e assiste a casamentos.

Diácono pode celebrar missa?

Não. Só o sacerdote, bispo ou padre, pode consagrar a Eucaristia (cân. 900). O diácono serve no altar, proclama o Evangelho, pode fazer a homilia e distribui a Comunhão. Na falta de padre, pode presidir uma celebração da Palavra, que não é Missa.

Diácono pode casar?

Um homem já casado pode ser ordenado diácono permanente, com pelo menos 35 anos e o consentimento da esposa (cân. 1031 §2). Mas quem já é diácono não pode se casar depois da ordenação, pois a Ordem sagrada é impedimento para o Matrimônio (cân. 1087).

Diácono pode confessar?

Não. A absolvição dos pecados exige o sacerdócio: só o bispo e o padre são ministros válidos do sacramento da Penitência (cân. 965). O diácono pode aconselhar, mas não absolver. O mesmo vale para a Unção dos Enfermos (cân. 1003).

Diácono pode batizar?

Sim. O diácono é ministro ordinário do Batismo, junto com o bispo e o padre (cân. 861 §1). Ele também pode assistir a casamentos com delegação e presidir exéquias.

Por que diácono pode casar e padre não?

Na Igreja latina, um homem casado pode ser ordenado diácono permanente, mas o presbiterado é conferido a quem assume o celibato (CIC §1579). É disciplina, não dogma: as Igrejas orientais católicas têm padres casados. Ninguém se casa depois de ordenado.

Em resumo, a diferença entre bispo, padre e diácono não é de “categorias” humanas, mas de graus de um mesmo dom de Cristo à sua Igreja. Para comparar com outras comunidades cristãs, veja a diferença entre católico e evangélico. E o texto oficial do Catecismo pode ser conferido no site da Santa Sé (CIC §1533-1666).