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Igrejas católicas orientais: o que são, quais são e como estão no Brasil

Nave e iconóstase da catedral melquita de São Paulo, sede de uma Igreja católica oriental no Brasil

Quem entra numa catedral ucraniana em Curitiba ou melquita em São Paulo encontra ícones, liturgia toda cantada e padres de barba. Mas ali também se reza pelo Papa. As igrejas católicas orientais são parte da mesma Igreja Católica, com a mesma fé e os mesmos sacramentos.

Veja o que são, quantas são, de que tradições vêm, o que muda em relação à Igreja latina e onde estão no Brasil.

Resposta rápida

O que são as Igrejas orientais católicas?

São Igrejas sui iuris (de direito próprio) em plena comunhão com o Bispo de Roma, que conservam as liturgias e tradições do Oriente cristão. Segundo o Vatican News (2025), são 23. Têm a mesma fé e os mesmos sacramentos da Igreja latina, mas rito, espiritualidade e disciplina próprios.

Uma Igreja feita de Igrejas

A Igreja Católica não é só a Igreja latina, a do rito romano que a maioria dos brasileiros conhece. É uma comunhão de Igrejas: a latina e as orientais, todas unidas ao sucessor de Pedro, como explica a página sobre a única Igreja de Cristo.

Estátua de São Maron, pai da Igreja maronita, na Basílica de São Pedro, sinal da comunhão com Roma
São Maron, estátua de mármore na Basílica de São Pedro, Vaticano (foto de 2011). Imagem: Marco Augusto Dueñas Cepas, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

O Código dos Cânones das Igrejas Orientais define a Igreja sui iuris como um grupo de fiéis unido pela hierarquia e reconhecido como tal pela autoridade suprema da Igreja (cân. 27). Já o rito é o patrimônio litúrgico, teológico, espiritual e disciplinar de cada Igreja, marcado pela cultura e pela história dos povos (cân. 28 §1).

Por isso se diz “Igreja maronita”: o rito é a herança, a Igreja é a comunidade que a vive. Algumas são governadas por um patriarca ou arcebispo-maior; as dioceses orientais chamam-se eparquias. Todas reconhecem o primado do Papa, bispo de Roma, e rezam por ele na liturgia. O Papa eleito no conclave, como explica a página sobre como é eleito o papa, é pastor supremo também delas.

Quantas são e de onde vêm

O Vatican News, ao noticiar o Jubileu das Igrejas Orientais em maio de 2025, contava 23 Igrejas católicas orientais. Somada a Igreja latina, a Igreja Católica reúne 24 Igrejas sui iuris. O cân. 28 §2 agrupa os ritos em cinco grandes tradições.

Ícone de São João Crisóstomo, cuja Divina Liturgia é a mais usada na tradição bizantina
São João Crisóstomo, ícone russo da segunda metade do século XV, Museu de Belas Artes de Arkhangelsk. Imagem: CC0, via Wikimedia Commons
TradiçãoIgrejas católicasOnde estão
AlexandrinaCopta, etíope e eritreiaEgito, Etiópia, Eritreia
Antioquena (siríaca ocidental)Maronita, siro-católica e siro-malancarLíbano, Síria, Iraque, Índia
ArmêniaArmênia católicaLíbano, Armênia e diáspora
Caldeia (siríaca oriental)Caldeia e siro-malabarIraque, Irã, Índia
Constantinopolitana (bizantina)Ucraniana, melquita, romena, rutena, eslovaca, húngara, grega, ítalo-albanesa, búlgara, bielorrussa, russa, macedônia, albanesa e de KriževciLeste europeu, Oriente Médio, Itália e diáspora
As tradições orientais e suas Igrejas católicas

A Divina Liturgia bizantina mais usada leva o nome de São João Crisóstomo, arcebispo de Constantinopla e doutor da Igreja.

Uniões, Vaticano II e o Código oriental

Muitas dessas Igrejas nasceram de comunidades orientais que restabeleceram a comunhão com Roma. O Concílio de Florença proclamou em 1439 a união com os gregos, que não durou; outras uniões vieram depois, como a de Brest (1596), que deu origem à Igreja greco-católica ucraniana. O bispo São Josafá Kuncewycz morreu mártir por essa unidade.

Bula de união do Concílio de Florença, com assinatura grega do imperador bizantino e selos
Bula de união do Concílio de Florença, do papa Eugênio IV, em latim e grego (1439). Imagem: Papa Eugênio IV, domínio público, via Wikimedia Commons

O Concílio Vaticano II dedicou a elas o decreto Orientalium Ecclesiarum, de 21 de novembro de 1964. Ali se lê que as Igrejas do Oriente e do Ocidente “gozam de dignidade igual, de modo que nenhuma delas precede as outras em razão do rito” (n. 3).

O mesmo decreto pede que os orientais conservem os seus ritos legítimos e, se os abandonaram, voltem às tradições dos antepassados (n. 6). Em 1990, São João Paulo II promulgou o Código dos Cânones das Igrejas Orientais, que vale para todas elas, ao lado do Código de Direito Canônico latino.

O que muda e o que não muda

A fé, os sete sacramentos e a obediência ao Papa são os mesmos. Muda a forma de celebrar e de viver essa fé.

  • Liturgia: a Missa se chama Divina Liturgia ou Santa Qurbana, conforme a tradição, com cantos e paramentos próprios. Muitas usam pão fermentado.
  • Igreja: nas bizantinas, a iconóstase, parede de ícones, separa o santuário da nave.
  • Iniciação cristã: o bebê recebe no mesmo dia o batismo, a crismação e a Comunhão. O Catecismo descreve essa prática oriental (CIC §1290-1292), ao contrário da latina, que adia a Crisma.
  • Clero: em muitas Igrejas orientais homens casados podem ser ordenados padres; os bispos são escolhidos entre os celibatários. A disciplina latina é outra, como mostra a resposta sobre quando começou o celibato dos padres.
  • Calendário e jejuns: festas, quaresmas e jejuns próprios, em geral mais longos. Sobre o jejum antes da Comunhão, veja o que é jejum eucarístico.
Santuário com cortina vermelha na igreja caldeia de São Jorge em Alqosh, de tradição siríaca oriental
Igreja católica caldeia de São Jorge, Alqosh, Iraque (foto de 2018). Imagem: Levi Clancy, CC0, via Wikimedia Commons

O incenso, que no rito romano é opcional, acompanha quase toda celebração oriental; o sentido desse gesto está explicado em incenso na Missa.

As Igrejas orientais católicas no Brasil

Catedral ucraniana de São João Batista em Curitiba, sede da arquieparquia greco-católica ucraniana
Catedral Ucraniana São João Batista, Curitiba, Paraná (foto de 2025). Imagem: GLandovsky, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons

A imigração ucraniana no Paraná e a sírio-libanesa e armênia em São Paulo trouxeram essas Igrejas ao Brasil. Segundo o GCatholic, as jurisdições são estas:

Fachada da catedral armênia católica São Gregório Iluminador em São Paulo
Catedral armênia católica São Gregório Iluminador, São Paulo (foto de 2013). Imagem: Leon petrosyan, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
IgrejaSedeObservação
UcranianaArquieparquia de São João Batista, Curitiba (PR)Eparquia em 1971, arquieparquia metropolitana em 2014
UcranianaEparquia da Imaculada Conceição, Prudentópolis (PR)Criada em 2014
MaronitaEparquia Nossa Senhora do Líbano, São Paulo (SP)Criada em 1971
MelquitaEparquia Nossa Senhora do Paraíso, São Paulo (SP)Criada em 1971
Armênia católicaExarcado apostólico da América Latina e MéxicoCriado em 1981; catedral São Gregório Iluminador, em São Paulo
Outras Igrejas orientaisOrdinariado para os fiéis de ritos orientais no BrasilCriado em 1951 e confiado a um arcebispo latino
Jurisdições orientais católicas no Brasil e suas sedes

O ordinariado atende os fiéis orientais que não têm bispo da própria Igreja no país.

Católico latino pode comungar numa liturgia oriental?

Pode. O Código de Direito Canônico diz que os fiéis podem participar do sacrifício eucarístico e receber a Comunhão em qualquer rito católico (cân. 923). As condições são as de sempre, explicadas na página sobre quem pode comungar.

Também cumpre o preceito dominical: quem assiste à Missa celebrada em rito católico, em qualquer lugar, no próprio dia ou na tarde da véspera, satisfaz a obrigação (cân. 1248 §1). Isso vale também para os dias santos de guarda.

Católicos orientais não são ortodoxos

Um ucraniano greco-católico e um ucraniano ortodoxo podem ter a mesma liturgia, os mesmos ícones e os mesmos santos. A diferença está na comunhão: o primeiro está unido ao Papa; o segundo pertence a uma Igreja que não está em plena comunhão com Roma. As causas dessa separação estão em Igreja Católica e Ortodoxa: o que as separa e o que as une.

O próprio Orientalium Ecclesiarum confia às Igrejas orientais católicas a missão especial de favorecer a unidade de todos os cristãos, sobretudo dos orientais, pela oração e pela fidelidade às antigas tradições (n. 24).

O que são igrejas católicas orientais?

São Igrejas de direito próprio (sui iuris), em plena comunhão com o Papa, que conservam as liturgias, a espiritualidade e a disciplina das tradições do Oriente cristão. Professam a mesma fé católica e celebram os mesmos sete sacramentos da Igreja latina, com ritos próprios.

Quantas Igrejas católicas orientais existem?

O Vatican News, em maio de 2025, contava 23 Igrejas católicas orientais. Somadas à Igreja latina, são 24 Igrejas sui iuris na Igreja Católica. Elas vêm de cinco grandes tradições.

Há Igrejas orientais católicas no Brasil?

Sim. Há a Arquieparquia ucraniana de São João Batista em Curitiba, a Eparquia ucraniana de Prudentópolis, as eparquias maronita e melquita em São Paulo, o exarcado armênio católico com catedral em São Paulo e um ordinariado para os fiéis orientais sem bispo próprio.

Qual a diferença entre igreja católica oriental e ortodoxa?

As duas podem ter a mesma liturgia e a mesma tradição. A Igreja católica oriental está em plena comunhão com o Bispo de Roma e reconhece o seu primado; a Igreja ortodoxa não está em plena comunhão com ele. A fé católica oriental é a mesma da Igreja latina.

Católico pode comungar numa igreja oriental?

Pode, se a igreja for católica. O cânon 923 permite comungar em qualquer rito católico, e o cânon 1248 diz que a Missa em rito católico cumpre o preceito dominical. Valem as condições de sempre, como o estado de graça.

As Igrejas orientais mostram que a unidade católica não é uniformidade. Conhecê-las ajuda o católico latino a amar a Igreja inteira, que respira, como dizia São João Paulo II, com os seus dois pulmões, o do Oriente e o do Ocidente.