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Diferença entre Santa Sé e Vaticano: Igreja, Estado e soberania

Vista aérea da Cidade do Vaticano, com a Basílica de São Pedro, a praça, os palácios e os jardins

Os jornais dizem “o Vaticano decidiu”, como se Vaticano e Igreja fossem a mesma coisa. Mas os documentos oficiais falam em “Santa Sé”. Qual é, afinal, a diferença entre Santa Sé e Vaticano?

São duas realidades distintas, unidas na pessoa do Papa. Entenda o que é cada uma e como nasceu o pequeno Estado.

Resposta rápida

Qual a diferença entre Santa Sé e Vaticano?

A Santa Sé é o Papa, com a Cúria Romana, no governo da Igreja Católica no mundo inteiro: é ela que mantém relações diplomáticas. O Vaticano, ou Estado da Cidade do Vaticano, é o pequeno território de 44 hectares criado pelo Tratado de Latrão, em 1929, para garantir a independência da Santa Sé. O Papa é soberano dos dois.

O que é a Santa Sé

“Sé” vem do latim sedes, cadeira: a cátedra do bispo, que dá nome à catedral (veja a diferença entre basílica e catedral). A Santa Sé, ou Sé Apostólica, é a cátedra do Papa, bispo de Roma e sucessor de Pedro. A Igreja celebra a festa da Cátedra de São Pedro em 22 de fevereiro.

Cátedra de São Pedro de Bernini na Basílica de São Pedro, símbolo da Sé Apostólica do bispo de Roma
Cátedra de São Pedro, de Gian Lorenzo Bernini, Basílica de São Pedro (2006). Imagem: Dnalor 01, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

Pelo cân. 361 do Código de Direito Canônico, “Sé Apostólica” ou “Santa Sé” designa não só o Romano Pontífice, mas também a Secretaria de Estado e os demais organismos da Cúria Romana. É, portanto, o governo central da Igreja universal, que existia muitos séculos antes do Estado do Vaticano.

A Santa Sé é sujeito de direito internacional por si mesma, não por ter território. O próprio Tratado de Latrão, no art. 2, reconhece a sua soberania internacional como atributo inerente à sua natureza.

O que é o Estado da Cidade do Vaticano

O Estado da Cidade do Vaticano é o menor Estado do mundo: 0,44 km², ou 44 hectares, segundo o seu Governatorato. É cercado em parte pelas muralhas e inclui a Praça de São Pedro, cuja borda é marcada por uma faixa de travertino, embora a praça seja normalmente policiada pela Itália.

Ali estão a Basílica de São Pedro, palco de canonizações como a de Madre Teresa de Calcutá e o Palácio Apostólico. O Estado existe para servir à Santa Sé, e não o contrário.

AspectoSanta SéCidade do Vaticano
O que éO Papa e a Cúria Romana, governo da Igreja universalUm Estado soberano com território próprio
OrigemA missão de Pedro e de seus sucessores em RomaTratado de Latrão, 11 de fevereiro de 1929
AlcanceTodos os católicos do mundo44 hectares em Roma
ChefeO PapaO Papa, como soberano do Estado
Órgão principalSecretaria de EstadoPontifícia Comissão e Governatorato
DiplomaciaRecebe embaixadores e envia núnciosRepresentado pela Santa Sé
Na ONUEstado observador permanente desde 1964Atua por meio da Santa Sé
Santa Sé x Estado da Cidade do Vaticano: o que é cada um

Da Roma dos papas ao Tratado de Latrão

Por mais de mil anos, desde o século VIII, os Papas governaram os Estados Pontifícios, uma faixa do centro da Itália com Roma como capital. Com a unificação italiana, esse território foi sendo tomado.

Mapa de 1855 dos Estados Pontifícios no centro da Itália, governados pelos Papas até 1870
Os Estados Pontifícios em mapa de J. H. Colton (1855). Imagem: J. H. Colton, domínio público, via Wikimedia Commons

Em 20 de setembro de 1870, as tropas do Reino da Itália abriram uma brecha na muralha junto à Porta Pia e tomaram Roma. O Concílio Vaticano I, que pouco antes definira a infalibilidade papal, foi interrompido.

Tropas italianas atacam a brecha da Porta Pia em 20 de setembro de 1870, quando Roma foi tomada
A Brecha de Porta Pia, de Carlo Ademollo (1880). Imagem: Carlo Ademollo, domínio público, via Wikimedia Commons

Os Papas não aceitaram a anexação e passaram a viver no Vaticano sem reconhecer o novo Estado. Esse impasse ficou conhecido como a “questão romana” e durou quase sessenta anos.

A solução veio em 11 de fevereiro de 1929, no Palácio de Latrão. O Cardeal Pietro Gasparri, Secretário de Estado de Pio XI, e Benito Mussolini, chefe do governo italiano, assinaram um Tratado, uma Concordata e uma convenção financeira: os Pactos Lateranenses.

Cardeal Pietro Gasparri, Secretário de Estado que assinou o Tratado de Latrão em nome da Santa Sé
Cardeal Pietro Gasparri, fotografia da Bain News Service (c. 1910). Imagem: Bain News Service, domínio público, via Wikimedia Commons

Pelo art. 3 do Tratado, a Itália reconheceu à Santa Sé a propriedade e a jurisdição soberana sobre o Vaticano, criando assim a Cidade do Vaticano. Pelo art. 26, a Santa Sé declarou resolvida a questão romana e reconheceu Roma como capital da Itália.

AnoFato
Século VIIIComeçam os Estados Pontifícios
1870Tomada de Roma pela Porta Pia (20 de setembro) e início da questão romana
1929Pactos Lateranenses (11 de fevereiro) e ratificação (7 de junho): nasce o Estado da Cidade do Vaticano
1964A Santa Sé torna-se observadora permanente na ONU (6 de abril)
1984Acordo de 18 de fevereiro modifica a Concordata de 1929
2023Nova Lei Fundamental do Estado da Cidade do Vaticano (13 de maio)
Da Roma dos papas ao Tratado de Latrão e depois

Quem governa o Vaticano

Segundo o Governatorato, o Estado é uma monarquia absoluta: o Papa tem a plenitude dos poderes legislativo, executivo e judiciário. Na Sé vacante, esses poderes passam ao Colégio dos Cardeais (veja o que é um cardeal e como é eleito o Papa).

Palácio do Governatorato, sede do governo civil do Estado da Cidade do Vaticano, entre os jardins
Palácio do Governatorato, Cidade do Vaticano (2011). Imagem: Jean-Pol Grandmont, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons
  • Legislativo: a Pontifícia Comissão para o Estado da Cidade do Vaticano, formada por cardeais e outros membros nomeados pelo Papa por cinco anos.
  • Executivo: o cardeal presidente da Comissão, que nesse papel se chama Presidente do Governatorato.
  • Segurança: a Gendarmaria do Estado e a Guarda Suíça Pontifícia, que protege o Papa.

Diplomacia: embaixadas junto à Santa Sé

Nunciatura Apostólica em Brasília, sede do representante diplomático da Santa Sé no Brasil
Nunciatura Apostólica em Brasília (2007). Imagem: Luis Dantas, domínio público, via Wikimedia Commons

Os embaixadores não são acreditados junto ao Vaticano, mas junto à Santa Sé. Até as relações do próprio Estado com outros países são reservadas ao Papa, que as exerce pela Secretaria de Estado.

O Papa tem o direito nato de enviar legados a Igrejas e a Estados (cân. 362). O núncio apostólico representa o Papa junto à Igreja e ao governo de um país: fortalece a unidade com os bispos, ajuda na escolha de novos bispos e cuida das relações entre Igreja e Estado (cân. 364 e 365). Desde 6 de abril de 1964 a Santa Sé é observadora permanente nas Nações Unidas: tem voz, mas não voto.

Por que a Igreja precisa de um Estado

A autoridade do Papa não vem do território. Vem de Cristo, que disse a Pedro: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” e lhe deu as chaves do Reino (Mt 16,18-19; veja as provas do primado de Pedro e a resposta sobre Pedro em Roma). O Catecismo ensina que o Papa é “o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade” (CIC §882; veja o texto do Catecismo sobre a hierarquia).

Essa autoridade existiu nos três séculos de perseguição, quando a Igreja não tinha nada (veja a origem da Igreja e do papado). O Estado é só uma garantia: com território próprio, o Papa não é súdito de nenhum governo.

Quanto à acusação de que “o Vaticano é só riqueza”, ela confunde patrimônio artístico com dinheiro: veja a resposta sobre a riqueza do Vaticano.

Qual a diferença entre Santa Sé e Vaticano?

A Santa Sé é o Papa com a Cúria Romana, o governo da Igreja Católica no mundo inteiro. O Vaticano é o Estado de 44 hectares criado em 1929 pelo Tratado de Latrão para garantir a independência da Santa Sé. O Papa é soberano de ambos.

A Santa Sé é um país?

Não. A Santa Sé é o governo central da Igreja, sujeito de direito internacional por sua própria natureza, como reconhece o Tratado de Latrão. O país é o Estado da Cidade do Vaticano. Mas é a Santa Sé que mantém embaixadas e assina tratados.

O que foi o Tratado de Latrão?

Foi o acordo assinado em 11 de fevereiro de 1929 entre a Santa Sé e o Reino da Itália, pelo Cardeal Pietro Gasparri e por Benito Mussolini. Criou o Estado da Cidade do Vaticano e encerrou a questão romana, aberta em 1870 com a tomada de Roma.

Por que o Vaticano é um país?

Para que o Papa não dependa de nenhum governo. Depois de perder os Estados Pontifícios em 1870, a Santa Sé precisava de uma independência visível. O Tratado de Latrão a garantiu com um pequeno território soberano.

Quem governa o Vaticano?

O Papa, que tem os poderes legislativo, executivo e judiciário. Ele os exerce por meio da Pontifícia Comissão para o Estado da Cidade do Vaticano e de seu presidente, chamado Presidente do Governatorato. As relações diplomáticas ficam com a Secretaria de Estado.

Em resumo, a Santa Sé é a Igreja que governa; o Vaticano é a casa que protege a sua liberdade. Mais informações estão no site oficial do Estado da Cidade do Vaticano.