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Concílio Vaticano II: o que foi, documentos e o que mudou

A nave da Basílica de São Pedro transformada em aula conciliar, com os padres do Vaticano II reunidos

Poucos acontecimentos da história recente da Igreja são tão citados, e tão mal conhecidos, quanto o Concílio Vaticano II. Entre 1962 e 1965, mais de dois mil bispos do mundo inteiro reuniram-se na Basílica de São Pedro, em comunhão com o Papa, e aprovaram dezesseis documentos.

Veja como foi convocado, o que produziu, o que ensinou, o que não fez e como a Igreja pede que seja lido.

Resposta rápida

O que foi o Concílio Vaticano II?

Foi o 21º concílio ecumênico da Igreja Católica, anunciado por São João XXIII em 1959, aberto por ele em 11 de outubro de 1962 e encerrado por São Paulo VI em 8 de dezembro de 1965. Em quatro sessões, aprovou 16 documentos: 4 constituições, 9 decretos e 3 declarações, sobre a Igreja, a Revelação, a liturgia e a relação da Igreja com o mundo atual.

Do anúncio à abertura

Em 25 de janeiro de 1959, festa da Conversão de São Paulo, João XXIII anunciou na sala capitular do mosteiro de São Paulo Fora dos Muros três projetos: um sínodo diocesano para Roma, um concílio ecumênico para a Igreja universal e a atualização do Código de Direito Canônico.

Em 25 de dezembro de 1961, a constituição apostólica Humanae salutis convocou o concílio para 1962, na Basílica Vaticana. Era o segundo concílio celebrado no Vaticano: o primeiro, de 1869 e 1870, definira a infalibilidade do Papa.

São João XXIII, que anunciou e convocou o Concílio, na celebração de abertura em São Pedro
São João XXIII na abertura do Concílio Vaticano II, 11 de outubro de 1962, fotografia de Lothar Wolleh. Imagem: Lothar Wolleh, domínio público, via Wikimedia Commons

Na abertura, em 11 de outubro de 1962, o Papa disse que o Concílio “quer transmitir a doutrina pura e íntegra sem atenuações nem desvios”. Distinguiu o depósito da fé, que não muda, do modo de anunciá-lo. É o sentido do aggiornamento, a atualização.

As quatro sessões

João XXIII morreu em 3 de junho de 1963, depois da primeira sessão. Paulo VI, eleito no mesmo mês, decidiu continuar os trabalhos; para entender a eleição, veja como é eleito o papa no conclave.

Bispos de rito latino e oriental na Praça de São Pedro no dia da abertura da primeira sessão
Padres conciliares na Praça de São Pedro no dia da abertura do Concílio, 11 de outubro de 1962, foto de Peter Geymayer. Imagem: Peter Geymayer, domínio público, via Wikimedia Commons
SessãoPeríodoMarcos
Primeira11 out. a 8 dez. 1962Abertura por João XXIII; debates sem nenhum documento aprovado
Segunda29 set. a 4 dez. 1963Primeira sob Paulo VI; promulgação de Sacrosanctum Concilium e Inter mirifica
Terceira14 set. a 21 nov. 1964Lumen gentium, Unitatis redintegratio e Orientalium Ecclesiarum
Quarta14 set. a 8 dez. 1965Onze documentos, entre eles Dei Verbum e Gaudium et spes; encerramento
As quatro sessões do Vaticano II, com as datas dos documentos publicados pela Santa Sé

Durante a última sessão, em 15 de setembro de 1965, Paulo VI instituiu o Sínodo dos Bispos; veja o que é sínodo e como funciona o Sínodo dos Bispos.

Os 16 documentos do Concílio

As constituições têm o maior peso; decretos e declarações aplicam a doutrina a setores precisos. Todos foram promulgados por Paulo VI.

Paulo VI no trono diante do altar papal, durante o Concílio que conduziu e encerrou
São Paulo VI no Concílio Vaticano II, fotografia de Lothar Wolleh (entre 1963 e 1965). Imagem: Lothar Wolleh, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons
TipoDocumentoTemaAno
ConstituiçãoSacrosanctum ConciliumSagrada liturgia1963
Constituição dogmáticaLumen gentiumA Igreja1964
Constituição dogmáticaDei VerbumRevelação divina1965
Constituição pastoralGaudium et spesA Igreja no mundo atual1965
DecretosInter mirificaMeios de comunicação social1963
DecretosUnitatis redintegratio; Orientalium EcclesiarumEcumenismo; Igrejas orientais católicas1964
DecretosChristus Dominus; Perfectae caritatis; Optatam totiusBispos; vida religiosa; formação sacerdotal1965
DecretosApostolicam actuositatem; Ad gentes; Presbyterorum ordinisApostolado dos leigos; missões; vida dos padres1965
DeclaraçõesGravissimum educationis; Nostra aetate; Dignitatis humanaeEducação cristã; religiões não cristãs; liberdade religiosa1965
Os 16 documentos do Concílio Vaticano II: 4 constituições, 9 decretos e 3 declarações

O site traz a íntegra da constituição Lumen Gentium sobre a Igreja e da constituição Dei Verbum sobre a Revelação. Sobre Orientalium Ecclesiarum, veja as Igrejas católicas orientais.

O que o Concílio ensinou

  • Sobre a Igreja (Lumen gentium): a única Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos bispos em comunhão com ele (LG 8). Os bispos formam um colégio que tem autoridade sobre toda a Igreja junto com o Papa, sua cabeça, e nunca sem ele (LG 22). O capítulo VIII é dedicado a Nossa Senhora, verdadeira Mãe de Deus (LG 53).
  • Sobre a Revelação (Dei Verbum): a Tradição e a Escritura formam um só depósito sagrado da Palavra de Deus, que o Magistério interpreta com autoridade, sem estar acima dela, mas servindo-a (DV 9 e 10).
  • Sobre a liturgia (Sacrosanctum Concilium): a liturgia é o cume para o qual tende a ação da Igreja e a fonte de onde promana a sua força (SC 10), e os fiéis devem participar dela de modo pleno, consciente e ativo (SC 14).
  • Sobre o homem (Gaudium et spes): o mistério do homem só se esclarece no mistério do Verbo encarnado (GS 22); o matrimônio é uma íntima comunidade de vida e de amor fundada pelo Criador (GS 48).
Padres conciliares latinos e orientais nas tribunas da aula conciliar durante os debates
Padres conciliares nas tribunas da Basílica de São Pedro, fotografia de Lothar Wolleh (1962 a 1965). Imagem: Lothar Wolleh, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

O que o Concílio não fez

O Vaticano II não definiu nenhum dogma novo. Em 12 de janeiro de 1966, Paulo VI explicou que, por seu caráter pastoral, o Concílio evitou proclamar de modo extraordinário dogmas com a nota de infalibilidade. Acrescentou, porém, que deu aos seus ensinamentos a autoridade do supremo magistério ordinário, que deve ser acolhido com docilidade.

Na mesma audiência, o Papa disse que não estaria na verdade quem visse no Concílio uma ruptura com o ensinamento tradicional da Igreja. Os dogmas definidos antes continuam de pé, como os dogmas marianos.

Concelebração em torno do altar de São Pedro na abertura da terceira sessão do Concílio
Missa concelebrada por Paulo VI na abertura da terceira sessão do Concílio, 14 de setembro de 1964. Imagem: domínio público, via Wikimedia Commons

Também não aboliu o latim. A Sacrosanctum Concilium manda conservar o uso do latim nos ritos latinos (SC 36 §1) e permite dar lugar à língua vernácula, sobretudo nas leituras e em algumas orações (SC 36 §2 e 54). Pede ainda que os fiéis saibam rezar ou cantar em latim as partes do Ordinário da Missa (SC 54) e dá ao canto gregoriano o primeiro lugar (SC 116).

Como interpretar o Concílio

Bento XVI, que propôs ler o Concílio pela hermenêutica da reforma na continuidade
Bento XVI em São Paulo, 10 de maio de 2007, foto de Fabio Pozzebom (Agência Brasil). Imagem: Fabio Pozzebom/ABr, CC BY 3.0 br, via Wikimedia Commons

Em 22 de dezembro de 2005, no discurso à Cúria Romana, Bento XVI observou que a recepção do Concílio foi difícil em vastas partes da Igreja, porque se enfrentaram duas leituras opostas. Uma é a “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura”, que opõe uma Igreja pré-conciliar a uma pós-conciliar.

A outra é a “hermenêutica da reforma”, da “renovação na continuidade do único sujeito-Igreja”. Para o Papa, onde essa leitura guiou a recepção, nasceram vida nova e frutos novos. O discurso inteiro está no site: a hermenêutica do Concílio segundo Bento XVI.

A chave é ler os textos à luz da Tradição e do Magistério, não de um suposto “espírito” separado da letra. A lista dos 21 concílios ecumênicos e o que decidiram mostra que cada concílio se apoia nos anteriores.

A reforma litúrgica e a Missa tradicional

A Sacrosanctum Concilium pediu uma revisão dos livros litúrgicos, realizada depois do Concílio, sob Paulo VI, com o novo Missal; as diferenças estão em diferença entre a Missa tridentina e a Missa nova. A história do rito antigo está em o que é a Missa tridentina.

Outras normas vieram nos anos seguintes, como a que regulou o ministro extraordinário da comunhão, em 1973. Os textos conciliares estão no arquivo oficial da Santa Sé.

Quando foi o Concílio Vaticano II?

De 11 de outubro de 1962 a 8 de dezembro de 1965, em quatro sessões na Basílica de São Pedro. João XXIII anunciou o concílio em 25 de janeiro de 1959 e o convocou com a constituição Humanae salutis, de 25 de dezembro de 1961. Paulo VI o concluiu.

Quantos documentos tem o Vaticano II?

São 16 documentos: 4 constituições (Sacrosanctum Concilium, Lumen gentium, Dei Verbum e Gaudium et spes), 9 decretos e 3 declarações. O primeiro saiu em 4 de dezembro de 1963; os últimos, em 7 de dezembro de 1965.

O que mudou com o Concílio Vaticano II?

A doutrina da fé não mudou: o Concílio não definiu dogmas novos. Mudaram aspectos pastorais e disciplinares, com a revisão dos livros litúrgicos e maior lugar para a língua vernácula, a criação do Sínodo dos Bispos, novas normas sobre o ecumenismo e sobre o apostolado dos leigos.

Quais são os documentos do Concílio?

As constituições são Sacrosanctum Concilium, Lumen gentium, Dei Verbum e Gaudium et spes. Os decretos e as declarações tratam de ecumenismo, Igrejas orientais, bispos, padres, religiosos, leigos, missões, educação e liberdade religiosa.

O Concílio Vaticano II pertence à Igreja inteira e só se entende dentro dela. Lido com fidelidade, com os Papas que o guiaram e aplicaram, ele é, nas palavras de Bento XVI, uma grande força para a sempre necessária renovação da Igreja. Para entender a estrutura que ele descreveu, veja a hierarquia da Igreja Católica.