Ir para o conteúdo

Diferença entre católico e anglicano: história e doutrina

Catedral de Cantuária, sé do arcebispo de Cantuária e centro histórico da Comunhão Anglicana

Igrejas antigas, bispos de mitra, liturgia solene, Credo de Niceia: à primeira vista, um culto anglicano lembra muito uma Missa. Por isso tanta gente pergunta qual é, afinal, a diferença entre católico e anglicano, e se não seriam quase a mesma coisa.

Veja como nasceu a Igreja da Inglaterra, o que conserva e o que rejeitou, por que Roma não reconhece as suas ordenações e como muitos anglicanos voltaram à plena comunhão católica.

Resposta rápida

Qual é a diferença entre católico e anglicano?

O católico vive em comunhão com o Papa, sucessor de Pedro. O anglicano pertence à Igreja da Inglaterra, separada de Roma em 1534 pelo Ato de Supremacia de Henrique VIII, ou às igrejas nascidas dela. Os anglicanos conservam bispos e liturgia, mas rejeitam o primado do Papa e não aceitam a transubstanciação; e a Igreja Católica não reconhece a validade das suas ordenações.

Como nasceu a Igreja Anglicana

Durante quase mil anos a Inglaterra foi católica. A fé chegou aos anglo-saxões com Santo Agostinho de Cantuária, enviado por São Gregório Magno, e Cantuária deu à Igreja doutores como Santo Anselmo, bispo e doutor da Igreja.

Henrique VIII, o rei que separou a Igreja da Inglaterra de Roma com o Ato de Supremacia de 1534
Retrato de Henrique VIII da Inglaterra, de Hans Holbein, o Jovem (1540). Imagem: Hans Holbein, o Jovem, domínio público, via Wikimedia Commons

A ruptura veio com Henrique VIII. Ele pediu ao Papa Clemente VII que declarasse nulo o seu casamento com Catarina de Aragão, e o Papa não atendeu. O rei fez o arcebispo Thomas Cranmer pronunciar a nulidade, casou com Ana Bolena e, em 1534, o Parlamento aprovou o Ato de Supremacia, que o proclamava chefe supremo da Igreja da Inglaterra no lugar do Papa.

No fundo estava a indissolubilidade do matrimônio (veja o que é a nulidade matrimonial). Quem recusou o juramento morreu, como São João Fisher e São Tomás Morus, mártires de 1535.

Elizabeth I, os Trinta e Nove Artigos e a via media

Henrique manteve boa parte da doutrina católica. Sob Eduardo VI, Cranmer publicou o Livro de Oração Comum (1549), mais protestante na revisão de 1552. Maria I restaurou a comunhão com Roma por pouco tempo.

Elizabeth I com as vestes da coroação, rainha do acordo elisabetano de 1559
Elizabeth I com as vestes da coroação, cópia de c. 1600 a 1610 de um original de c. 1559. Imagem: domínio público, via Wikimedia Commons

Com Elizabeth I veio o acordo elisabetano (1559): a rainha tornou-se governadora suprema da Igreja e o Livro de Oração Comum, liturgia obrigatória. Os Trinta e Nove Artigos, fixados em 1571, deram a moldura doutrinal.

Daí a ideia anglicana de uma via media entre Roma e a Reforma continental, com alas muito diferentes: anglo-católicos, evangélicos e liberais. Veja as consequências da Reforma Protestante.

O que nos une e o que nos separa

Católicos e anglicanos partilham o Batismo, as Escrituras e os Credos antigos. Mas os Trinta e Nove Artigos negam a jurisdição do bispo de Roma, rejeitam a transubstanciação e o purgatório e só contam dois sacramentos do Evangelho, Batismo e Ceia.

Thomas Cranmer, arcebispo que moldou a liturgia e a doutrina eucarística anglicana
Thomas Cranmer, arcebispo de Cantuária, retrato de Gerlach Flicke (1545). Imagem: Gerlach Flicke, domínio público, via Wikimedia Commons
TemaIgreja CatólicaComunhão Anglicana
AutoridadePapa, sucessor de Pedro, com primado de jurisdiçãoIgrejas autônomas; Cantuária tem só primazia de honra
EucaristiaPresença real por transubstanciação, sacrifício da MissaLeituras variadas; o Artigo 28 rejeita a transubstanciação
SacramentosSeteDois “do Evangelho”; os outros cinco não contados como tais
OrdensSucessão apostólica válidaOrdenações declaradas nulas por Leão XIII (1896)
MariaQuatro dogmas, incluindo Imaculada Conceição e AssunçãoMãe de Deus e Virgem; os dogmas de 1854 e 1950 não são obrigatórios
Ordenação de mulheresImpossível (Ordinatio sacerdotalis, 1994)Admitida em muitas províncias, recusada em outras
Católicos e anglicanos: as principais diferenças de doutrina e disciplina

Sobre a Eucaristia, o Catecismo ensina que as comunidades saídas da Reforma “não [conservaram] a genuína e íntegra substância do mistério eucarístico, sobretudo por causa da falta do sacramento da Ordem” (CIC §1400). Veja também por que a Eucaristia é Jesus e não apenas o representa e os quatro dogmas marianos.

A Igreja Anglicana é católica?

Cadeira de Santo Agostinho na Catedral de Cantuária, sinal das raízes católicas da Igreja inglesa
Cadeira de Santo Agostinho, trono de pedra medieval da Catedral de Cantuária (foto de 2013). Imagem: John H Darch, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons

Muitos anglicanos dizem que sim: professam crer na Igreja “una, santa, católica e apostólica” e se veem como herdeiros da antiga Igreja inglesa. Do ponto de vista católico, porém, a Igreja Anglicana nasceu da Reforma, rompeu com o sucessor de Pedro e não está em comunhão com Roma.

Não é uma Igreja católica de outro rito, como as Igrejas católicas orientais em comunhão com o Papa, e a comunhão com Pedro não é detalhe (veja as provas do primado de Pedro). Também difere das igrejas evangélicas, tema de o que separa católicos e evangélicos. No Brasil, existe a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, província autônoma desde 1965.

As ordenações anglicanas e a Apostolicae curae

Em 1896 o Papa Leão XIII examinou a questão na carta apostólica Apostolicae curae e declarou nulas as ordenações feitas pelo rito anglicano. O motivo foi um defeito de forma e de intenção no ordinal de Eduardo VI, que eliminara a referência ao sacerdócio sacrificial; com isso a sucessão apostólica se interrompeu.

Papa Leão XIII, autor da carta Apostolicae curae de 1896 sobre as ordenações anglicanas
Retrato do Papa Leão XIII, de Franz von Lenbach (1885). Imagem: Franz von Lenbach, domínio público, via Wikimedia Commons

Em 1998 a Congregação para a Doutrina da Fé citou essa declaração entre as verdades a ter de modo definitivo. Por isso o clérigo anglicano que se torna padre católico é ordenado. Entenda o que é a sucessão apostólica e os três graus do sacramento da Ordem.

Desde 1994 a Igreja da Inglaterra ordena mulheres como presbíteras e, mais tarde, também como bispas, o que afastou ainda mais as duas comunhões. A posição católica está em a carta apostólica Ordinatio sacerdotalis e no artigo irmão sobre se uma mulher pode ser padre.

Diálogo, ordinariatos e convertidos

São John Henry Newman, ex-pastor anglicano que entrou na Igreja Católica em 1845
São John Henry Newman, já cardeal, fotografado por Herbert Rose Barraud (1887). Imagem: Herbert Rose Barraud, domínio público, via Wikimedia Commons

Depois do Concílio Vaticano II, Paulo VI e o arcebispo Michael Ramsey firmaram uma declaração comum em 1966, e em 1969 nasceu a comissão de diálogo ARCIC. João Paulo II retomou o tema na encíclica Ut unum sint, sobre o empenho ecumênico.

Em 4 de novembro de 2009 Bento XVI publicou a constituição apostólica Anglicanorum coetibus, sobre os ordinariatos pessoais. Ela permite que grupos de anglicanos entrem na plena comunhão católica conservando elementos do seu patrimônio litúrgico e espiritual.

Surgiram três ordinariatos pessoais, estruturas semelhantes a uma diocese (veja a diferença entre diocese e paróquia): Nossa Senhora de Walsingham, na Grã-Bretanha (2011), Cátedra de São Pedro, na América do Norte (2012), e Nossa Senhora da Cruz do Sul, na Austrália (2012).

O convertido mais famoso é São John Henry Newman, pastor anglicano que, estudando os Padres da Igreja, reconheceu em Roma a Igreja dos primeiros séculos. Entrou na Igreja Católica em 1845, foi feito cardeal em 1879 e canonizado em 13 de outubro de 2019.

AnoFatoConsequência
1534Ato de Supremacia de Henrique VIIIO rei passa a chefe da Igreja da Inglaterra
1559Acordo elisabetanoSeparação definitiva de Roma
1571Trinta e Nove Artigos fixadosBase doutrinal do anglicanismo
1896Apostolicae curae, de Leão XIIIOrdenações anglicanas declaradas nulas
2009Anglicanorum coetibus, de Bento XVIOrdinariatos pessoais para ex-anglicanos
Marcos da separação entre a Igreja da Inglaterra e Roma, e do caminho de volta

Qual a diferença entre católico e anglicano?

O católico está em comunhão com o Papa e crê nos sete sacramentos e na transubstanciação. O anglicano pertence à Igreja da Inglaterra, separada de Roma em 1534, ou às igrejas ligadas a ela: tem bispos e liturgia, mas não reconhece o primado do Papa.

A igreja anglicana é católica?

Os anglicanos professam a Igreja católica do Credo, e os anglo-católicos conservam muitas práticas antigas. Mas a Igreja Anglicana nasceu da Reforma, rompeu com o sucessor de Pedro e não está em comunhão com Roma. Por isso a Igreja Católica não a considera uma Igreja católica.

Anglicano acredita em Maria?

Em grande parte, sim. Professam que Maria é Mãe de Deus e concebeu Jesus virgem, como dizem os concílios antigos, mas não aceitam como obrigatórios os dogmas da Imaculada Conceição e da Assunção. A devoção é forte entre os anglo-católicos, como em Walsingham, e fraca entre os evangélicos.

Um anglicano pode comungar na missa católica?

Em regra, não, porque a comunhão eucarística supõe a mesma fé e a plena comunhão eclesial. O cânon 844 e o Catecismo (CIC §1401) preveem exceções em caso de grave necessidade, segundo o juízo do bispo, se a pessoa pedir espontaneamente, manifestar a fé católica nesse sacramento e estiver bem disposta.

Os padres anglicanos são válidos para a Igreja Católica?

Não. Em 1896 Leão XIII, na carta Apostolicae curae, declarou nulas as ordenações feitas pelo rito anglicano, por defeito de forma e de intenção. Por isso o clérigo anglicano que se torna padre católico é ordenado na Igreja Católica.

Conhecer a diferença entre católico e anglicano não é motivo de desprezo, e sim de oração pela unidade que Cristo pediu. O caminho de Newman mostra que a porta de Pedro continua aberta.