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Fertilização in vitro: o que a Igreja Católica ensina

O anjo anuncia a Zacarias, casado com Isabel estéril, o nascimento de João Batista

Quem digita “fertilização in vitro Igreja Católica” num buscador quase sempre carrega uma história: anos de espera, exames, um quarto preparado para um filho que não chega. Antes de qualquer norma, a Igreja olha para essa dor, e o Catecismo fala dela abertamente.

Veja o que a Igreja ensina sobre a FIV, por quê, o que ela aprova e o que diz das crianças nascidas por essa técnica.

Resposta rápida

A Igreja Católica aceita a fertilização in vitro?

Não. O Catecismo (§2376 e §2377) e as instruções Donum vitae (1987) e Dignitas personae (2008) ensinam que a FIV é moralmente inaceitável, mesmo entre esposos: separa a procriação do ato conjugal e, na prática, implica a perda e o congelamento de embriões humanos. A Igreja apoia os tratamentos que ajudam o ato conjugal e a adoção, e acolhe toda criança nascida por FIV.

O que a Igreja ensina sobre a fertilização in vitro

O ensinamento está no Catecismo, na parte sobre o sexto mandamento, que o site traz completa em o sexto mandamento no Catecismo (§2331 a 2400). O ponto de partida é a compaixão: “É grande o sofrimento dos casais que descobrem que são estéreis” (CIC §2374).

Ana chora e reza no templo de Silo pedindo um filho, observada pelo sacerdote Eli
Ana rezando no templo diante de Eli (1Sm 1,12-13), segundo James Tissot, reprodução impressa de 1904. Imagem: James Tissot (desenho); reprodução fotografada por Phillip Medhurst, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

O Catecismo encoraja as pesquisas contra a esterilidade a serviço da pessoa (CIC §2375) e distingue dois casos, ambos rejeitados.

  • Heteróloga: usa esperma ou óvulo de doador, ou o “empréstimo de útero”. O Catecismo chama essas técnicas de “gravemente desonestas”, porque lesam o direito do filho a nascer de pai e mãe unidos pelo casamento (CIC §2376).
  • Homóloga: usa os gametas do próprio casal. É “talvez menos prejudicial”, mas continua “moralmente inaceitável”, porque dissocia o ato sexual do ato procriador (CIC §2377).

A Congregação para a Doutrina da Fé desenvolveu esse juízo em Donum vitae (22 de fevereiro de 1987) e o atualizou em Dignitas personae (8 de setembro de 2008).

Por que a Igreja é contra a FIV: as duas razões

O filho como fruto do ato conjugal

O ato conjugal tem dois significados inseparáveis, o unitivo e o procriativo, como ensinou Paulo VI na encíclica Humanae vitae. A contracepção busca a união excluindo a vida; a FIV busca a vida fora da união.

Na FIV, a origem do filho deixa de ser um gesto de amor dos esposos e vira procedimento técnico. Ora, “o filho não é uma dívida, é uma dádiva” (CIC §2378): ninguém tem “direito ao filho”; é o filho que tem direito de nascer do amor conjugal. Sobre o sentido do corpo e da doação, veja a Teologia do Corpo de São João Paulo II.

Joaquim e Ana se abraçam na Porta Dourada: o filho esperado recebido como dom de Deus
Encontro de Joaquim e Ana na Porta Dourada, afresco de Giotto na Capela Scrovegni, Pádua (1303 a 1305). Imagem: Giotto di Bondone, domínio público, via Wikimedia Commons

Embriões perdidos, selecionados e congelados

A segunda razão é a vida do embrião, que é um ser humano desde a concepção. Dignitas personae (n. 14 a 16) observa que, somando os embriões produzidos e os que de fato nascem, o número de embriões sacrificados é muito alto. Os que apresentam defeitos são eliminados, e os “excedentes” costumam ser congelados.

O congelamento, diz o documento, é “incompatível com o respeito devido aos embriões humanos” (n. 18), e a sorte de milhares de embriões abandonados é “uma situação de injustiça de facto irreparável” (n. 19). Veja também o que a Igreja ensina sobre o aborto e a encíclica Evangelium vitae.

O que a Igreja aprova para quem não consegue ter filhos

O “não” à FIV não é um “não” à medicina. Dignitas personae (n. 13) chama de “certamente lícitas” as intervenções que removem os obstáculos à fertilidade natural, como o tratamento hormonal ou a cirurgia da endometriose. É o campo da medicina reprodutiva restaurativa, como a naprotecnologia.

TécnicaAvaliação da IgrejaFonte
Tratamento das causas da infertilidadeLícito e encorajadoCIC §2375; Dignitas personae 13
Ajuda técnica que facilita o ato conjugalAdmissível, se não o substituirDonum vitae II, B, 6
FIV e inseminação homólogasMoralmente inaceitáveisCIC §2377
FIV e inseminação heterólogas, barriga de aluguelGravemente desonestasCIC §2376
Congelamento de embriões e de óvulosInaceitávelDignitas personae 18 e 20
Adoção de criançasRecomendadaCIC §2379
O que a Igreja aprova e o que não aprova na reprodução humana
São José conduz o Menino Jesus pela mão, modelo da paternidade adotiva
São José com o Menino Jesus, pintura de autor desconhecido do século XVIII, Museu Nacional de Cracóvia. Imagem: domínio público, via Wikimedia Commons

Quando os recursos legítimos se esgotam, o Catecismo propõe outro caminho de fecundidade: os esposos podem mostrar a sua generosidade “adoptando crianças abandonadas ou realizando serviços significativos em favor do próximo” (CIC §2379). São José, pai adotivo de Jesus, é o grande modelo dessa paternidade; veja a oração a São José.

A criança nascida por FIV: amada e batizada como qualquer outra

A Igreja julga a técnica, nunca a criança. Diz Donum vitae (II, B, 5): “toda criança que vem ao mundo deverá, em qualquer caso, ser acolhida como um dom vivo da Bondade divina e deverá ser educada com amor”.

Família leva um recém-nascido ao batismo, como se faz com toda criança, também a nascida por FIV
O Batismo, de Albert Anker (1864). Imagem: Albert Anker, domínio público, via Wikimedia Commons

A criança concebida por FIV tem a mesma dignidade, a mesma alma imortal e o mesmo chamado à santidade de qualquer outra, e é batizada sem exigência especial. Veja o sacramento do Batismo no Catecismo.

Casais inférteis na Bíblia

Maria visita Isabel, que concebeu na velhice depois de anos de esterilidade
A Visitação, de Alonso Cano (século XVII), Museu Goya, Castres. Imagem: Alonso Cano, domínio público, via Wikimedia Commons

A Escritura conhece de perto essa dor. Abraão pergunta: “Que me dareis, Senhor Deus? Vou-me sem filhos” (Gn 15,2), e Raquel grita a Jacó: “Dá-me filhos ou então morro!” (Gn 30,1), palavras citadas pelo próprio Catecismo (§2374).

Ana apresenta a Eli o menino Samuel, o filho recebido de Deus depois de longa espera
Ana leva o menino Samuel ao sacerdote Eli, de Gerbrand van den Eeckhout (c. 1665). Imagem: Gerbrand van den Eeckhout, domínio público, via Wikimedia Commons
  • Ana chorava e rezava no templo de Silo, e o sacerdote Eli julgou que estivesse embriagada; Deus lhe deu Samuel (1Sm 1).
  • Zacarias e Isabel, já idosos, receberam o anúncio de João Batista (Lc 1,5-25). Veja São Zacarias e Santa Isabel.
  • Joaquim e Ana, segundo uma antiga tradição (não a Bíblia), receberam Maria depois de longa espera. Veja São Joaquim e Santa Ana.

Essas histórias não prometem um milagre a todo casal. Mostram que Deus escuta, e que a esterilidade “não é um mal absoluto” (CIC §2379). Muitos encontram paz oferecendo o sofrimento a cada dia, como propõe o Apostolado da Oração.

Fertilização in vitro é pecado?

Objetivamente, sim: a Igreja a considera moralmente ilícita, e as formas heterólogas, “gravemente desonestas”. Mas a culpa pessoal depende do conhecimento e da liberdade. O Catecismo lembra que a imputabilidade e a responsabilidade de um ato “podem ser diminuídas, e até anuladas, pela ignorância”, pelo medo e por outros fatores (CIC §1735).

Quem recorreu à FIV sem conhecer o ensinamento, ou agora se arrepende, não está excluído da misericórdia. O caminho é o mesmo de todo cristão: a confissão sacramental bem feita e o diálogo com um sacerdote da pastoral familiar da sua paróquia e diocese. O texto integral da instrução está no Vaticano: Dignitas personae, sobre algumas questões de bioética.

DocumentoAnoO que diz
Humanae vitae1968Unidade entre os significados unitivo e procriativo do ato conjugal
Donum vitae1987Rejeita a FIV homóloga e heteróloga; acolhe toda criança nascida
Catecismo da Igreja Católica1992§2373 a 2379: dor dos estéreis, técnicas ilícitas, adoção
Dignitas personae2008Atualiza Donum vitae: ICSI, congelamento, embriões abandonados
Os documentos da Igreja sobre a fertilização in vitro

A Igreja Católica aceita a fertilização in vitro?

Não. O Catecismo (§2376 e §2377), Donum vitae e Dignitas personae ensinam que a FIV é moralmente inaceitável, mesmo com os gametas do casal, porque separa a procriação do ato conjugal e costuma implicar a perda e o congelamento de embriões.

Fertilização in vitro é pecado?

Objetivamente, sim: a Igreja ensina que é um ato moralmente ilícito. A culpa pessoal, porém, pode ser diminuída ou anulada pela ignorância e por outros fatores (CIC §1735). Quem recorreu à FIV e se arrepende encontra perdão na confissão e acompanhamento com um sacerdote.

O que a Igreja permite para quem não consegue ter filhos?

Os tratamentos que curam as causas da infertilidade e ajudam o ato conjugal sem substituí-lo, como terapias hormonais e cirurgias. A Igreja também recomenda a adoção e outras formas de fecundidade espiritual (CIC §2379).

A criança nascida de FIV pode ser batizada?

Sim, como qualquer criança. Ela tem a mesma dignidade de toda pessoa humana e, segundo Donum vitae, deve ser acolhida como dom vivo da bondade divina e educada com amor.

O que fazer com embriões congelados?

Dignitas personae (n. 19) reconhece que não se vê saída moralmente lícita para os embriões congelados: rejeita usá-los em pesquisa e vê problemas na adoção pré-natal. Por isso pede que se pare de produzi-los. Casais nessa situação devem buscar um sacerdote.

Esse ensinamento não nasce de dureza, mas do respeito por dois amores: o dos esposos e o da criança. A quem sofre, a Igreja oferece verdade, companhia e esperança.