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Dízimo na Igreja Católica: é obrigatório? O que a Bíblia ensina

A pobre viúva deposita suas duas moedas no cofre do Templo diante de Jesus e dos apóstolos

Muitos católicos ouvem falar de dízimo apenas em igrejas evangélicas e se perguntam se a própria paróquia pode pedir a mesma coisa. Existe, sim, dízimo na Igreja Católica, mas ele não funciona como taxa fixa nem como troca com Deus.

Veja o que a Bíblia diz, o que a lei da Igreja pede, quanto contribuir e por que dízimo não é comprar bênção.

Resposta rápida

O dízimo é obrigatório na Igreja Católica?

O dever de ajudar a Igreja é real: é o quinto mandamento da Igreja, que manda prover às suas necessidades materiais segundo as possibilidades de cada um (CIC §2043; cân. 222). O valor, porém, não é fixo. Nenhuma lei da Igreja impõe 10% sob pena de pecado: o dízimo é um compromisso livre, regular e proporcional à renda.

O dízimo no Antigo Testamento

Dízimo quer dizer “a décima parte”. O primeiro a entregá-la é Abraão, que recebe a bênção de Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo, e “deu-lhe o dízimo de tudo” (Gn 14,20). Jacó, em Betel, promete a Deus “o dízimo de tudo o que me derdes” (Gn 28,22).

Abraão encontra Melquisedeque, a quem deu o dízimo de tudo segundo Gn 14,20
O encontro de Abraão e Melquisedeque, de Dieric Bouts (1464 a 1467). Imagem: Dieric Bouts, domínio público, via Wikimedia Commons

A Lei de Moisés transforma o costume em norma. Os dízimos dos frutos da terra são “coisa consagrada ao Senhor” (Lv 27,30) e sustentam os levitas, que não receberam terra e cuidavam do culto (Nm 18,21-26). O dízimo do terceiro ano ficava na cidade para o levita, o estrangeiro, o órfão e a viúva (Dt 14,28-29).

Malaquias acusa o povo de enganar a Deus “no pagamento dos dízimos e nas ofertas” e convida: “Pagai integralmente os dízimos ao tesouro do templo, para que haja alimento em minha casa” (Ml 3,8-10, Bíblia Ave-Maria).

O profeta Malaquias, que censurou quem retinha os dízimos do Templo (Ml 3,8-10)
O profeta Malaquias, desenho de James Tissot (c. 1902). Imagem: James Tissot, domínio público, via Wikimedia Commons
TextoO que dizPara quem
Gn 14,20Abraão dá o dízimo de tudoMelquisedeque, sacerdote do Altíssimo
Lv 27,30; Nm 18,21Os dízimos pertencem ao SenhorOs levitas, pelo serviço do culto
Dt 14,28-29Dízimo do terceiro ano guardado na cidadeLevita, estrangeiro, órfão e viúva
Ml 3,8-10Censura a quem retém os dízimosO tesouro do Templo
2Cor 9,7Cada um dá conforme decidiu no coraçãoA coleta para os cristãos pobres
O dízimo na Bíblia: os textos principais e seus destinatários

O que muda no Novo Testamento

Jesus não aboliu o dízimo, mas o pôs em seu lugar: “Pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia, a fidelidade” (Mt 23,23). Na parábola do fariseu e do publicano, quem se gaba do dízimo volta para casa sem ser justificado (Lc 18,9-14).

O fariseu que se gabava de pagar o dízimo e o publicano humilde no Templo (Lc 18,9-14)
A parábola do fariseu e do publicano, ateliê de Rembrandt (1645 a 1655). Imagem: Ateliê de Rembrandt, CC0, via Wikimedia Commons

Nenhum texto do Novo Testamento impõe aos cristãos uma taxa de 10%. O critério passa a ser a generosidade proporcional: a viúva pobre deu duas pequenas moedas e, segundo Jesus, deu mais do que todos (Mc 12,41-44). São Paulo ensina o mesmo:

  • 2Cor 9,7: “Dê cada um conforme o impulso do seu coração, sem tristeza nem constrangimento. Deus ama o que dá com alegria”.
  • 1Cor 9,13-14: os que anunciam o Evangelho vivam do Evangelho.
  • 1Cor 16,1-2: no primeiro dia da semana, cada um separa o que puder para a coleta.

Os Atos mostram a comunidade de Jerusalém pondo os bens em comum e repartindo-os segundo a necessidade de cada um (At 2,44-45; 4,32-35). É o modelo da Igreja: partilha, não tarifa, como mostra também o estudo sobre os pobres na Bíblia.

São Pedro distribui os bens da comunidade aos pobres, como narram os Atos dos Apóstolos
Distribuição das esmolas e morte de Ananias, de Masaccio, Capela Brancacci (c. 1425). Imagem: Masaccio, domínio público, via Wikimedia Commons

O que a Igreja pede hoje

O quinto dos mandamentos da Igreja aponta a obrigação de “prover às necessidades materiais da Igreja consoante as possibilidades de cada um” (CIC §2043, no texto oficial do Catecismo no site do Vaticano). O Código de Direito Canônico obriga os fiéis a socorrer as necessidades da Igreja para o culto, o apostolado, a caridade e o honesto sustento dos ministros (cân. 222 §1).

O mesmo cânon pede, no §2, que se ajudem os pobres com os próprios recursos. A relação entre bens e justiça está no sétimo mandamento no Catecismo.

Na Idade Média, em vários reinos cristãos, o dízimo chegou a ser cobrado pela lei civil, em produtos da terra. No Brasil colonial, pelo padroado, a Coroa portuguesa arrecadava os dízimos e sustentava o culto. Hoje a Igreja depende só da generosidade dos fiéis.

Celeiro medieval de Great Coxwell, conhecido como celeiro do dízimo, onde se guardavam colheitas
Celeiro medieval de Great Coxwell, Inglaterra, século XIII, conhecido como tithe barn. Imagem: Mik Peach, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

O documento da CNBB

Em 2016 a CNBB aprovou o documento 106, O Dízimo na Comunidade de Fé: orientações e propostas. Ele descreve quatro dimensões do dízimo: religiosa (a relação com Deus), eclesial (a corresponsabilidade de quem é membro da Igreja), missionária (a partilha entre comunidades) e caritativa (o cuidado com os pobres). Pede ainda que o dízimo se distinga das outras contribuições e que haja prestação de contas transparente.

ContribuiçãoO que éQuandoDestino
DízimoCompromisso regular com a comunidadeEm geral, todo mêsCulto, clero, pastorais, caridade e missões
OfertaDoação livre, sem valor fixoQuando o fiel quiserNecessidades gerais da paróquia
ColetaRecolhimento na apresentação dos donsDomingos e festasA paróquia ou uma intenção anunciada
EspórtulaOferta ligada a uma intenção de MissaAo pedir a intençãoA celebração e o sustento do padre
Dízimo, oferta e coleta: as formas de contribuir com a paróquia

A coleta acontece numa das partes da Missa, a preparação das oferendas. A espórtula é comum quando a família pede uma Missa de sétimo dia por um falecido.

Para onde vai o dinheiro

São Lourenço distribui aos pobres os bens da Igreja, destino de parte do dízimo
São Lourenço distribui esmolas aos pobres, de Lorenzo di Niccolò (c. 1412). Imagem: Lorenzo di Niccolò, domínio público, via Wikimedia Commons

O dízimo mantém a vida da comunidade: luz, hóstias, vinho, velas, a conservação da igreja e do sacrário onde se guarda a Eucaristia. Garante o sustento digno dos ministros, explicado na diferença entre bispo, padre e diácono. Uma parte vai para a caridade, a diocese e as missões.

A tradição conta que o diácono São Lourenço, mártir de Roma, apresentou os pobres como os verdadeiros tesouros da Igreja.

Dúvidas e objeções comuns

Posso doar para a caridade em vez do dízimo? A caridade também é dever, como lembram as obras de misericórdia corporais e espirituais. Mas a paróquia tem necessidades que só os seus membros sustentam: o caminho católico é fazer as duas coisas.

Dízimo é comprar bênção? Não. A Simão, o mago, que ofereceu dinheiro aos apóstolos, Pedro respondeu: “Maldito seja o teu dinheiro e tu também, se julgas poder comprar o dom de Deus com dinheiro!” (At 8,20). Negociar graças tem nome, e a Igreja sempre o condenou: veja o que é simonia.

Por isso a Igreja rejeita a lógica da chamada teologia da prosperidade, que promete retorno financeiro proporcional à oferta. Jesus manda fazer o bem e emprestar sem esperar nada em troca (Lc 6,35).

PontoIgreja CatólicaMuitas igrejas evangélicas
BaseQuinto mandamento da Igreja e cân. 222Ml 3,10 lido como lei ainda em vigor
ValorProporcional, sem taxa fixaEm geral, 10% da renda
Quem não pode darNão pode ser privado dos sacramentos (cân. 848)Varia conforme a denominação
Dízimo católico e evangélico: uma comparação geral (as práticas evangélicas variam)

As diferenças mais profundas estão no que realmente separa católicos e evangélicos.

Tem dízimo na Igreja Católica?

Sim. A maioria das paróquias do Brasil tem a pastoral do dízimo, orientada pelo documento 106 da CNBB (2016). O dízimo é a forma habitual de cumprir o quinto mandamento da Igreja: ajudar nas necessidades materiais da comunidade, segundo as possibilidades de cada um.

O dízimo na Igreja Católica é obrigatório?

O dever de ajudar a Igreja é obrigatório (CIC §2043; cân. 222). O valor e a forma ficam a critério de cada fiel. Ninguém peca por não dar exatamente 10%, e os pobres não podem ser privados dos sacramentos por não contribuir (cân. 848).

Quanto é o dízimo na Igreja Católica?

Não há valor fixo. A Igreja pede uma contribuição proporcional à renda, assumida com liberdade e regularidade. Os 10% bíblicos servem de referência, mas cada um dá conforme decidiu no coração (2Cor 9,7).

Como funciona o dízimo na Igreja Católica?

O fiel se inscreve na pastoral do dízimo da paróquia e entrega a contribuição, em geral uma vez por mês. A paróquia deve prestar contas do uso dos recursos.

Qual o significado do dízimo?

Dízimo significa a décima parte. Para o católico, é sinal de gratidão e de pertença à Igreja, dado com alegria e sem esperar troca.

O dízimo católico não é conta a pagar nem investimento espiritual. É o gesto de quem cuida da própria família na fé, como a viúva diante do cofre do Templo.