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Quem são os jesuítas? A Companhia de Jesus, de Santo Inácio ao Brasil

Papa Paulo III entrega a Santo Inácio a aprovação da Companhia de Jesus, cercado de cardeais e jesuítas

Fundaram o colégio de onde nasceu São Paulo, levaram o Evangelho ao Japão e foram expulsos de reinos inteiros. Mas, afinal, quem são os jesuítas? São os membros da Companhia de Jesus, ordem religiosa fundada por Santo Inácio de Loyola e aprovada pelo Papa em 1540.

Veja como a ordem nasceu, o que a distingue das outras, o que fez no Brasil, por que foi suprimida e como está hoje.

Resposta rápida

Quem são os jesuítas?

São os religiosos da Companhia de Jesus, ordem católica fundada por Santo Inácio de Loyola e seus companheiros e aprovada por Paulo III em 27 de setembro de 1540. Vivem os votos de pobreza, castidade e obediência, rezam com os Exercícios Espirituais e se dedicam a missões, educação e pregação. Chegaram ao Brasil em 1549.

Quem fundou os jesuítas

O fundador é Santo Inácio de Loyola, cuja vida contamos no Santo do Dia. Em Paris, ele reuniu um grupo de estudantes, entre eles Pedro Fabro, Francisco Xavier, Diego Laínez e Afonso Salmerón. Em 15 de agosto de 1534, em Montmartre, fizeram votos de pobreza e castidade e prometeram ir à Terra Santa.

Como a viagem se mostrou impossível, puseram-se à disposição do Papa Paulo III. Ele aprovou de viva voz a fórmula do novo instituto em 3 de setembro de 1539 e, formalmente, em 27 de setembro de 1540, com a bula Regimini militantis Ecclesiae. Inácio a chamou “Companhia de Jesus”.

Fachada da Igreja do Gesù, em Roma, igreja mãe dos jesuítas onde está sepultado Santo Inácio
Fachada da Igreja do Santíssimo Nome de Jesus (Gesù), em Roma. Imagem: Hugo DK, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

O que distingue a Companhia de Jesus

O coração da espiritualidade jesuíta são os Exercícios Espirituais, um método de oração e discernimento escrito por Inácio. O lema da ordem é Ad maiorem Dei gloriam, “para a maior glória de Deus”, muitas vezes abreviado AMDG.

  • Quarto voto: os professos fazem, além dos três votos de pobreza, castidade e obediência, um voto especial de obediência ao Papa quanto às missões, prontos a ir aonde forem enviados.
  • Sem coro e sem hábito próprio: para ficarem livres para a missão, os jesuítas não rezam o ofício em coro e não têm um hábito distintivo, como explica a Catholic Encyclopedia.
  • Formação longa: noviciado de dois anos, filosofia, magistério, teologia e uma terceira provação.

Os jesuítas são religiosos, e a maioria é ordenada sacerdote, mas não são frades mendicantes: por isso o tratamento comum é “padre”, e não “frei”. A diferença entre frei e padre explica esses títulos, e o Catecismo trata da vida consagrada entre os fiéis de Cristo (CIC §914-933).

Missões, colégios e a reforma católica

Ainda em vida de Inácio, a Companhia se espalhou pelo mundo. São Francisco Xavier, o grande missionário do Oriente, chegou a Goa em 1542, passou por Malaca e entrou no Japão em 1549.

São Francisco Xavier prega em Goa, na Índia, primeira grande missão jesuíta no Oriente
São Francisco Xavier pregando em Goa, de André Reinoso (1610), Museu de São Roque, Lisboa. Imagem: André Reinoso, domínio público, via Wikimedia Commons

Na Europa, os jesuítas foram protagonistas da reforma católica que se seguiu à ruptura protestante. Laínez e Salmerón atuaram como teólogos no Concílio de Trento, o décimo nono da lista dos concílios ecumênicos. São Pedro Canísio, doutor da Igreja, pregou e escreveu catecismos nas terras alemãs.

A Companhia foi a primeira ordem a assumir a educação nas próprias Constituições. Em 1599 publicou a Ratio Studiorum, o plano de estudos que guiou seus colégios até a supressão. Dessa escola saíram santos como São Roberto Belarmino, bispo e doutor e São Luís Gonzaga, o jovem jesuíta de Roma.

O que os jesuítas fizeram no Brasil

Os primeiros jesuítas chegaram à Bahia em 1549, na armada do governador-geral Tomé de Sousa, liderados pelo Padre Manuel da Nóbrega. Fundaram escolas e aldeamentos e aprenderam a língua dos indígenas.

Pátio do Colégio, em São Paulo, reconstruído no lugar do colégio jesuíta de Piratininga de 1554
Pátio do Colégio, São Paulo: igreja e Museu Anchieta no local do colégio jesuíta de 1554. Imagem: Wilfredor, CC0, via Wikimedia Commons

Em 25 de janeiro de 1554, festa da conversão de São Paulo, Nóbrega e o jovem José de Anchieta fundaram um colégio no planalto de Piratininga: é a origem da cidade de São Paulo. São José de Anchieta, o Apóstolo do Brasil, foi canonizado pelo Papa Francisco em 3 de abril de 2014.

NomeQuandoO que fez
Manuel da Nóbrega1549Chegou à Bahia com Tomé de Sousa e chefiou os primeiros jesuítas do Brasil
José de Anchieta1554Com Nóbrega, fundou o colégio de Piratininga; catequista, aprendeu o tupi
Beatos Inácio de Azevedo e companheiros1570Mortos no mar a caminho do Brasil, venerados como mártires
Jesuítas das reduções guaranisSéculos XVII e XVIIIOrganizaram povoados guaranis, como São Miguel, no atual Rio Grande do Sul
Jesuítas no Brasil: nomes, datas e obras
Ruínas da igreja de São Miguel das Missões, redução jesuítica guarani no Rio Grande do Sul
Ruínas de São Miguel das Missões, Rio Grande do Sul, dos Sete Povos das Missões. Imagem: Nilson Cunha, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

No sul, jesuítas espanhóis organizaram com os guaranis as reduções dos Sete Povos das Missões. As ruínas de São Miguel são hoje Patrimônio Mundial.

Por que os jesuítas foram expulsos

Em Portugal, o ministro Sebastião José de Carvalho, futuro Marquês de Pombal, entrou em choque com os jesuítas por causa da troca de territórios que entregava a Portugal os Sete Povos.

Gravura francesa sobre a lei de 3 de setembro de 1759 que expulsou os jesuítas de Portugal
Édito de expulsão dos jesuítas de todos os Estados da Coroa de Portugal, gravura anônima (1759). Imagem: CC0, via Wikimedia Commons

Acusações nunca provadas levaram à lei de 3 de setembro de 1759, que expulsou os jesuítas de Portugal e de todo o império, Brasil incluído. A França dissolveu a ordem em 1764 e a Espanha a expulsou em 1767.

Sob a pressão dessas cortes, Clemente XIV assinou em 21 de julho de 1773 o breve Dominus ac Redemptor, que suprimiu a Companhia. Eram quase 23 mil jesuítas. A ordem sobreviveu na Rússia, onde a imperatriz Catarina quis manter os jesuítas como professores.

Retrato do Papa Pio VII, que restaurou a Companhia de Jesus em 1814
Retrato do Papa Pio VII, de Sir Thomas Lawrence (1819). Imagem: Thomas Lawrence, domínio público, via Wikimedia Commons

Em 7 de agosto de 1814, Pio VII restaurou a Companhia de Jesus no mundo inteiro com a bula Sollicitudo omnium ecclesiarum. Para entender o peso de cada tipo de documento, veja a diferença entre encíclica, bula e breve.

AnoFato
1534Votos de Inácio e companheiros em Montmartre, Paris (15 de agosto)
1540Paulo III aprova a Companhia com a bula Regimini militantis Ecclesiae (27 de setembro)
1549Nóbrega chega à Bahia; Francisco Xavier chega ao Japão
1554Fundação do colégio de Piratininga, origem de São Paulo (25 de janeiro)
1599Publicação da Ratio Studiorum
1759Expulsão de Portugal e de seus domínios
1773Supressão pelo breve Dominus ac Redemptor, de Clemente XIV
1814Restauração por Pio VII
2013Eleição do primeiro Papa jesuíta, Francisco
Linha do tempo da Companhia de Jesus

Quem são os jesuítas hoje

Segundo os números oficiais da Cúria Geral, em 1º de janeiro de 2022 havia 14.439 jesuítas no mundo: 10.432 padres, 837 irmãos, 2.587 escolásticos e 583 noviços. Trabalham em paróquias, escolas, universidades, casas de retiro e missões.

Em 2013, o conclave elegeu Jorge Mario Bergoglio, o primeiro jesuíta a ocupar a Cátedra de Pedro, protegido como todo Papa pela Guarda Suíça Pontifícia (veja como é eleito o Papa). Sobre as teorias de conspiração em torno da ordem, basta dizer que não são história; a Catholic Encyclopedia, no verbete sobre a Companhia de Jesus, já lembrava: “There are no secret Jesuits” (não existem jesuítas secretos).

Quem fundou os jesuítas?

Santo Inácio de Loyola, com companheiros que conheceu em Paris, como São Francisco Xavier e Pedro Fabro. Fizeram votos em Montmartre em 1534, e o Papa Paulo III aprovou a Companhia de Jesus em 27 de setembro de 1540, com a bula Regimini militantis Ecclesiae.

O que os jesuítas fizeram no Brasil?

Chegaram em 1549 com Manuel da Nóbrega, catequizaram os indígenas e fundaram colégios e aldeamentos. Em 1554, Nóbrega e Anchieta fundaram o colégio de Piratininga, origem de São Paulo. No sul, jesuítas espanhóis organizaram as reduções guaranis, como São Miguel.

Por que os jesuítas foram expulsos?

Por pressão política das cortes do século XVIII. Em Portugal, o futuro Marquês de Pombal os acusou sem provas e os expulsou em 1759, inclusive do Brasil. França e Espanha fizeram o mesmo, e em 1773 Clemente XIV suprimiu a ordem. Pio VII a restaurou em 1814.

Quem são os jesuítas hoje?

São cerca de 14 mil religiosos, segundo os números oficiais da ordem de 2022, entre padres, irmãos e estudantes, presentes em todos os continentes. Dirigem escolas, universidades, paróquias e casas de retiro. O Papa Francisco, eleito em 2013, foi o primeiro Papa jesuíta.

Os jesuítas estão na Bíblia?

Não. A Companhia de Jesus foi fundada no século XVI, quinze séculos depois do Novo Testamento. O que os jesuítas quiseram seguir é o mandato de Cristo de anunciar o Evangelho a todas as nações (Mt 28,19), em obediência à Igreja e ao sucessor de Pedro.

A Companhia de Jesus nasceu da conversão de um único homem e de um punhado de amigos. Quase cinco séculos depois, seus santos lembram a todo católico o que é trabalhar para a maior glória de Deus.