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Festa da Divina Misericórdia: origem, data e como celebrar

Jesus ressuscitado aparece aos apóstolos de portas fechadas, o Evangelho do Domingo da Misericórdia

Oito dias depois da Páscoa, a Igreja inteira volta os olhos para o Coração aberto de Cristo. A festa da Divina Misericórdia, celebrada no segundo domingo da Páscoa, recorda que o perdão de Deus nasce da Cruz e da Ressurreição e é oferecido a todo pecador que se aproxima com confiança.

Veja o que a festa celebra, como nasceu das revelações a Santa Faustina, o que significa a imagem de Jesus Misericordioso e como viver esse domingo.

Resposta rápida

O que é a festa da Divina Misericórdia?

É o segundo domingo da Páscoa, dedicado à misericórdia de Deus revelada na morte e ressurreição de Cristo. Nasceu dos pedidos registrados por Santa Faustina Kowalska no seu Diário e foi estendida a toda a Igreja por São João Paulo II em 30 de abril de 2000. Em 2027, cai em 4 de abril.

O que a festa celebra

O Domingo da Misericórdia fecha a oitava da Páscoa, os oito dias em que a Igreja celebra a Ressurreição como um único grande dia, como explica o texto sobre o significado da Páscoa cristã. Não é uma devoção ao lado do mistério pascal: é o próprio mistério pascal visto como obra de misericórdia.

Tomé toca as chagas de Jesus ressuscitado, o Evangelho lido no Domingo da Divina Misericórdia (Jo 20,24-29)
A incredulidade de São Tomé, de Cima da Conegliano (1504). Imagem: Cima da Conegliano, domínio público, via Wikimedia Commons

O Evangelho desse domingo é Jo 20,19-31: na tarde da Ressurreição, Jesus aparece aos discípulos de portas fechadas, mostra as mãos e o lado e lhes dá o poder de perdoar os pecados. O decreto de 2002 sobre a festa cita São João Paulo II: “O mistério pascal é o ponto culminante desta revelação e actuação da misericórdia” (Dives in misericordia, 7).

A origem: Santa Faustina e o Diário

Santa Faustina Kowalska com o hábito das Irmãs de Nossa Senhora da Misericórdia, em Płock
Irmã Faustina Kowalska em Płock, fotografia de 1931. Imagem: domínio público, via Wikimedia Commons

Helena Kowalska nasceu em 1905 na Polônia, numa família pobre de camponeses. Em 1925 entrou na Congregação das Irmãs de Nossa Senhora da Misericórdia, com o nome de Irmã Maria Faustina, e trabalhou como cozinheira, jardineira e porteira. Morreu de tuberculose em Cracóvia, em 5 de outubro de 1938, aos 33 anos.

A pedido dos confessores, registrou no Diário as palavras que dizia ouvir de Jesus. Segundo a biografia publicada pelo Vaticano, ali estão quatro pedidos: a imagem com a inscrição “Jesus, eu confio em vós”, a festa no primeiro domingo depois da Páscoa, o terço da misericórdia e a oração às três da tarde.

São revelações privadas: a Igreja as examinou, canonizou a religiosa e aprovou a devoção, mas ninguém é obrigado a crer nelas como num dogma. Outro trecho conhecido do Diário é a visão do inferno narrada por Santa Faustina.

A imagem de Jesus Misericordioso

A primeira pintura foi feita em Vilnius por Eugeniusz Kazimirowski, sob a orientação de Faustina e do seu confessor, o padre Michał Sopoćko, e ficou pronta em 1934. É a única versão que a santa viu e hoje está no Santuário da Divina Misericórdia de Vilnius. A versão mais difundida, de Adolf Hyła, fica em Cracóvia.

Fachada do Santuário da Divina Misericórdia de Vilnius, onde está a primeira pintura de Jesus Misericordioso
Santuário da Divina Misericórdia, Vilnius (Lituânia). Imagem: Alma Pater, domínio público, via Wikimedia Commons

Cristo ressuscitado abençoa com a mão direita e põe a esquerda sobre o peito, de onde saem dois raios, um pálido e um vermelho. Na homilia da canonização, o Papa citou o Diário: “Os dois raios […] representam o sangue e a água”, e lembrou a lança que abriu o lado de Cristo (Jo 19,34).

O soldado abre com a lança o lado de Cristo na Cruz, de onde saem sangue e água (Jo 19,34)
O golpe de lança no lado de Cristo, de Gerard de la Vallée (século XVII). Imagem: Gerard de la Vallée, domínio público, via Wikimedia Commons
SinalO que éOrigem
Imagem de Jesus MisericordiosoCristo com os raios pálido e vermelho saindo do peitoPintada por Kazimirowski em Vilnius, 1934
“Jesus, eu confio em vós”Jaculatória escrita aos pés da imagemDiário de Santa Faustina
Domingo da MisericórdiaSegundo domingo da PáscoaEstendido à Igreja por São João Paulo II em 2000
Terço da MisericórdiaOração rezada nas contas do terçoDiário de Santa Faustina
Hora da MisericórdiaOração às três da tarde, hora da morte de JesusDiário de Santa Faustina
Os sinais da devoção à Divina Misericórdia

A água recorda o batismo, prefigurado no batismo de Jesus no Jordão, e o sangue, a Eucaristia. A devoção irmã, que contempla o mesmo lado aberto, é a do Sagrado Coração de Jesus. E venerar a imagem não é idolatria, como mostra a resposta à pergunta católicos adoram imagens?

Como São João Paulo II instituiu a festa

Faustina foi canonizada em 30 de abril de 2000, segundo domingo da Páscoa. Na homilia, o Papa anunciou que aquele domingo, “de agora em diante na Igreja inteira”, tomaria o nome de “Domingo da Divina Misericórdia”. A Congregação para o Culto Divino confirmou a denominação no decreto Misericors et miserator, de 5 de maio de 2000.

Santuário da Divina Misericórdia em Cracóvia-Łagiewniki, onde repousa o corpo de Santa Faustina
Santuário da Divina Misericórdia, Cracóvia-Łagiewniki, Polônia. Imagem: MOs810, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons

O corpo da santa repousa no Santuário da Divina Misericórdia de Cracóvia-Łagiewniki. São João Paulo II morreu em 2 de abril de 2005, véspera do Domingo da Misericórdia, e foi canonizado nesse mesmo domingo, em 2014. O caminho até os altares está descrito em como a Igreja canoniza os santos.

A indulgência plenária

O decreto da Penitenciaria Apostólica de 29 de junho de 2002 concede a indulgência plenária a quem, nesse domingo, em qualquer igreja ou oratório, desapegado de todo pecado, mesmo venial, participa das práticas de piedade em honra da Divina Misericórdia. Basta também rezar o Pai-Nosso e o Credo diante do Santíssimo, exposto ou no sacrário, com uma invocação a Jesus Misericordioso.

Valem as condições habituais: confissão sacramental, comunhão eucarística e oração nas intenções do Papa, como explica o texto sobre o que são as indulgências. Doentes e quem não pode sair de casa por justa causa rezam diante de uma imagem de Jesus Misericordioso e cumprem as condições assim que possível.

Como celebrar o Domingo da Misericórdia

Visitar os doentes, uma das obras de misericórdia que a festa pede aos fiéis
Visitar os enfermos, painel das Sete Obras de Misericórdia do Mestre de Alkmaar (1504). Imagem: Mestre de Alkmaar, domínio público, via Wikimedia Commons
  1. A novena: segundo o Diário, começa na Sexta-feira Santa e termina na véspera do domingo. Veja o que é uma novena e como rezá-la.
  2. A confissão: o sacramento do perdão é o centro da festa. Prepare-se com o guia de como se confessar passo a passo.
  3. A comunhão: receba a Eucaristia em estado de graça, guardando o jejum eucarístico.
  4. O terço da misericórdia: rezado nas contas do terço comum; o texto está entre os terços diversos para rezar.
  5. A Hora da Misericórdia: às três da tarde, hora da morte de Jesus, um momento de oração diante da Cruz ou do Santíssimo exposto para adoração.

A devoção não termina na igreja. O decreto de 2002 pede aos padres que estimulem os fiéis às obras de misericórdia corporais e espirituais: dar de comer, visitar os doentes, perdoar as ofensas.

Datas e preceito

Como a Páscoa é móvel, a data muda todo ano: é sempre o domingo seguinte ao Domingo da Ressurreição.

AnoDomingo de PáscoaDomingo da Misericórdia
202728 de março4 de abril
202816 de abril23 de abril
Datas da Festa da Divina Misericórdia em 2027 e 2028

É dia santo de guarda? Não é preciso: como cai num domingo, a Missa já é de preceito, como lembra a lista dos dias santos de guarda no Brasil. Quem se prepara na Semana Santa chega a esse domingo com a novena já rezada.

Quando é a festa da Divina Misericórdia em 2027?

Em 4 de abril de 2027, segundo domingo da Páscoa, já que o Domingo da Ressurreição cai em 28 de março. Em 2028 será em 23 de abril. A data acompanha sempre a Páscoa: é o domingo que encerra a sua oitava.

Quem instituiu a festa da Divina Misericórdia?

São João Paulo II, na Missa de canonização de Santa Faustina, em 30 de abril de 2000. Ele anunciou que o segundo domingo da Páscoa passaria a chamar-se, na Igreja inteira, Domingo da Divina Misericórdia. O pedido da festa está no Diário da santa polonesa.

Como ganhar a indulgência da Divina Misericórdia?

No segundo domingo da Páscoa, participe das orações em honra da Divina Misericórdia ou reze, diante do Santíssimo, o Pai-Nosso e o Credo com uma invocação como “Jesus, eu confio em vós”. Exige-se desapego de todo pecado, confissão, comunhão e oração pelas intenções do Papa.

O que significa a imagem de Jesus Misericordioso?

Mostra Cristo ressuscitado abençoando, com dois raios saindo do peito: o pálido representa a água e o vermelho, o sangue que jorraram do lado aberto na Cruz (Jo 19,34). Aos pés, a inscrição “Jesus, eu confio em vós” resume a resposta que Ele espera de cada fiel.

A festa não acrescenta nada ao Evangelho; ajuda a vê-lo melhor. No Domingo da Misericórdia, o fiel aprende a dizer com Santa Faustina “Jesus, eu confio em vós” e a levar esse perdão para casa.