Poucas histórias da Bíblia são tão conhecidas quanto a da arca de Noé: o homem justo, os animais aos pares, a chuva de quarenta dias, a pomba e o arco-íris. Muitos a aprenderam crianças e a guardam como um conto infantil.
Gênesis 6 a 9, porém, fala do pecado, do juízo e da misericórdia de Deus. Veja o que o texto conta e por que os Padres viram na arca uma figura da Igreja e do Batismo.
Resposta rápida
O que foi a arca de Noé e o que ela ensina?
Foi a embarcação que Deus mandou Noé construir para salvar a sua família e os animais do dilúvio (Gn 6 a 9). Depois das águas, Deus fez aliança com toda a criação e deu o arco-íris como sinal. A Igreja vê na arca uma figura da própria Igreja, que salva, e do Batismo (1Pd 3,20-21; CIC §845 e §1219).
A história do dilúvio passo a passo
A maldade dos homens era grande na terra, mas Noé “encontrou graça” diante do Senhor: era justo e íntegro, e andava com Deus (Gn 6,5-9). Deus manda construir uma arca de madeira, calafetada com betume, com três andares e uma porta lateral, de 300 côvados por 50 por 30 (Gn 6,14-16). O côvado, do cotovelo à ponta dos dedos, media cerca de 45 centímetros: a arca teria uns 135 metros.

Entram Noé, a mulher, os filhos Sem, Cam e Jafé e as três noras: oito pessoas. Dos animais, um casal de cada espécie; dos puros, sete casais (Gn 6,18-20; 7,2-3). Choveu quarenta dias e quarenta noites, e as águas prevaleceram cento e cinquenta dias (Gn 7,12.24).

A arca pousou sobre os montes de Ararate (Gn 8,4). Noé soltou um corvo e depois uma pomba, que voltou com um ramo verde de oliveira; na terceira vez, não voltou mais (Gn 8,6-12).
| Etapa | Gênesis | O que aconteceu |
|---|---|---|
| A corrupção | Gn 6,5-13 | A maldade cobre a terra; Noé encontra graça |
| A construção | Gn 6,14-22 | Arca de três andares, com porta lateral |
| O dilúvio | Gn 7,1-24 | Oito pessoas e os animais entram; o Senhor fecha a porta |
| A pomba | Gn 8,1-12 | A arca pousa no Ararate; a pomba traz o ramo |
| A aliança | Gn 8,20 a 9,17 | Sacrifício de Noé e o arco-íris como sinal |

Os “montes de Ararate” são uma região, não um pico preciso; a tradição os ligou ao grande monte da atual Turquia. Nenhuma “descoberta” da arca foi comprovada, e a fé não depende disso.
A aliança com Noé e o arco-íris
Ao sair, Noé oferece um sacrifício (Gn 8,20). Deus firma uma aliança com ele, com os seus descendentes e com todos os seres vivos, e põe o arco nas nuvens como sinal de que as águas não destruirão mais a terra (Gn 9,8-17).

Essa aliança “exprime o princípio da economia divina em relação às «nações»” (CIC §56) e vale enquanto durar o tempo das nações (CIC §58). É uma aliança com toda a humanidade, antes do chamado de Abraão, o pai da fé. Leia a cópia do Catecismo sobre a transmissão da Revelação.
O §58 cita também os justos das nações, como Melquisedeque, o rei de Salém. E a embriaguez de Noé (Gn 9,20-27) mostra que nem o justo ficou livre do pecado.
A pomba e o ramo de oliveira

O Catecismo liga a pomba de Noé ao Batismo de Jesus no Jordão, quando o Espírito desce sobre Ele em forma de pomba (CIC §701). Os primeiros cristãos gravaram a pomba com o ramo nas lápides das catacumbas, sinal de paz, e pintaram Noé orando na arca ao lado do profeta Jonas e o grande peixe.
Como a Igreja lê o dilúvio
Gênesis 6 a 9 é Palavra de Deus inspirada e ensina a verdade. Para entendê-la, é preciso considerar “os «géneros literários» em uso na respectiva época” (CIC §110), o mesmo critério aplicado aos seis dias da criação (CIC §337, na cópia do Catecismo sobre o Criador).
A Igreja não definiu a extensão do dilúvio nem a forma literária exata do relato, que os estudiosos discutem. O ensinamento é certo: o pecado destrói, Deus julga e Deus salva. Veja a constituição Dei Verbum do Vaticano II e quem escreveu a Bíblia.
A arca, figura da Igreja e do Batismo

Os cristãos leem o Antigo Testamento à luz de Cristo (CIC §128-130). São Pedro aplica essa leitura ao dilúvio: “um pequeno grupo, ao todo oito pessoas, foram salvas pela água”, figura do Batismo que agora nos salva (1Pd 3,20-21).
Por isso, na bênção da água batismal da Vigília Pascal, a Igreja vê no dilúvio uma imagem do Batismo, fim do pecado e princípio da santidade (CIC §1219, no site do Vaticano). Veja o que é o sacramento do Batismo; a travessia do Mar Vermelho, outra figura dele, está na vida de Moisés, o libertador de Israel.
Segundo uma imagem “querida aos Padres da Igreja”, a Igreja “é figurada pela arca de Noé, a única que salva do dilúvio” (CIC §845). São Cipriano de Cartago argumenta no tratado sobre a unidade da Igreja: se alguém escapasse fora da arca, também escaparia quem está fora da Igreja.
Santo Agostinho (Cidade de Deus XV,26) vê na arca a Igreja peregrina, salva pelo lenho, e na porta lateral o lado de Cristo aberto pela lança (Jo 19,34). O sentido do axioma está em a resposta a quem diz que só Jesus salva, não a Igreja.
| Na arca | No Novo Testamento | Referência |
|---|---|---|
| A arca que salva | A Igreja | CIC §845 |
| As águas | O Batismo | 1Pd 3,20-21; CIC §1219 |
| A madeira | A Cruz | Agostinho, Cidade de Deus XV,26 |
| A porta no lado | O lado aberto de Cristo | Jo 19,34 |
| A pomba | O Espírito Santo | Mt 3,16; CIC §701 |
Não confunda com a Arca da Aliança, que guardava as tábuas da Lei. Em hebraico, a arca de Noé é tevah, a mesma palavra do cesto em que Moisés foi salvo das águas (Ex 2,3).
“Como nos dias de Noé”: o que Jesus ensina
Nos dias de Noé, diz Jesus, as pessoas comiam, bebiam e casavam, e nada perceberam até que veio o dilúvio; assim será a vinda do Filho do Homem (Mt 24,37-39).
Por isso esse trecho é proclamado no primeiro domingo do Advento (ano A). Hebreus elogia a fé de Noé, que construiu a arca por coisas que ainda não se viam (Hb 11,7). Veja o que é a parusia, a segunda vinda de Cristo.
Quanto tempo durou o dilúvio?
Choveu quarenta dias e quarenta noites (Gn 7,12), e as águas prevaleceram cento e cinquenta dias (Gn 7,24). Somando as datas de Gn 7,11 a 8,14, Noé ficou na arca cerca de um ano. O número quarenta volta na Quaresma, os quarenta dias antes da Páscoa.
Quantos animais havia na arca?
A Bíblia não dá um número. Diz que entrou um casal de cada espécie (Gn 6,19-20) e que dos animais puros foram levados sete casais (Gn 7,2-3), também para o sacrifício depois do dilúvio. Os cálculos modernos sobre o total são especulação.
O que significa o arco-íris na Bíblia?
É o sinal da aliança de Deus com Noé, com os seus descendentes e com todos os seres vivos. Quando o arco aparece nas nuvens, Deus se lembra da promessa de não destruir mais a terra pelas águas (Gn 9,12-17). O Catecismo trata dessa aliança nos §56 a 58.
Quantos anos Noé viveu?
Segundo o Gênesis, Noé tinha seiscentos anos quando veio o dilúvio (Gn 7,6), viveu mais trezentos e cinquenta e morreu com novecentos e cinquenta (Gn 9,28-29). As idades longas dos patriarcas fazem parte do modo de narrar dessas genealogias antigas.
A arca de Noé existiu?
A Igreja ensina que o relato é Palavra de Deus inspirada e ensina a verdade sobre o pecado, o juízo e a salvação. Pede também que se considere o gênero literário dos textos antigos (CIC §110) e não definiu detalhes históricos que os estudiosos discutem. A fé se apoia no que o texto ensina.
A arca é a história de um Deus que não abandona o mundo ao pecado. Quem entra pelo Batismo na Igreja, segundo a fé católica, está como Noé dentro da arca, a caminho da terra nova que Deus prometeu.
