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O que é parusia? A segunda vinda de Cristo segundo a Igreja

Cristo em majestade numa mandorla de raios dourados, imagem da sua vinda gloriosa no fim dos tempos

Todo domingo, no Credo, o católico professa que Cristo virá para julgar os vivos e os mortos. Mas o que é parusia, a palavra que a teologia usa para essa volta? E por que tantos grupos marcaram datas para o fim do mundo e erraram?

Veja o que ensinam a Bíblia e o Catecismo e a resposta católica ao “arrebatamento” e ao milenarismo.

Resposta rápida

O que é a parusia?

Parusia é a segunda vinda de Cristo, na glória, no fim dos tempos. A palavra grega significa “presença” ou “chegada”. A Igreja ensina que Jesus voltará visivelmente para consumar o seu Reino, ressuscitar os mortos e julgar os vivos e os mortos. Ninguém sabe o dia nem a hora: o cristão vive à espera, vigilante.

O que significa a palavra parusia

Em grego, parousía quer dizer “presença” ou “chegada”. No mundo antigo, a palavra designava também a visita solene de um soberano a uma cidade. Os primeiros cristãos a aplicaram ao Rei por excelência: Jesus, que virá em poder e glória.

Cristo entronizado na glória entre os anciãos do Apocalipse, no tímpano românico de Moissac
Tímpano da abadia de Saint-Pierre de Moissac, França (século XII), foto de Gerd Eichmann (2001). Imagem: Gerd Eichmann, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

A Igreja distingue duas vindas: a primeira, na humildade de Belém, e a segunda, na glória. O Advento celebra as duas.

O que a Igreja ensina sobre a volta de Cristo

O Catecismo trata do tema nos §668-682 (veja o texto no site do Vaticano ou a cópia do site em desceu aos infernos, ressuscitou ao terceiro dia). Cristo já reina, e o seu Reino “já está misteriosamente presente na Igreja” (CIC §669). Mas esse Reino “ainda não está acabado «em poder e glória»” (CIC §671).

São Pedro e São Paulo junto ao trono preparado (hetoimasia), sinal da espera pela volta de Cristo
Trono preparado (hetoimasia) entre São Pedro e São Paulo, mosaico do Batistério dos Arianos, Ravena (cerca de 500). Imagem: Sailko, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

Por isso, diz o Catecismo, os cristãos oram, “sobretudo na Eucaristia, para que se apresse o regresso de Cristo” (CIC §671). O tempo presente “é um tempo de espera e de vigília” (CIC §672).

A ressurreição dos mortos está “intimamente associada à Parusia de Cristo” (CIC §1001), e o Juízo Final “terá lugar quando acontecer a vinda gloriosa de Cristo” (CIC §1040). Depois virão os novos céus e a nova terra, e os justos reinarão com Cristo no céu.

A parusia na Bíblia

No dia da Ascensão de Jesus, dois homens vestidos de branco disseram aos apóstolos que o mesmo Jesus que subiu ao céu voltaria do mesmo modo (At 1,11). A volta será pessoal, visível e gloriosa.

Cristo sobe ao céu diante dos apóstolos: voltará do mesmo modo, como anunciam os anjos em At 1,11
Ascensão de Cristo, de Pietro Perugino (fim do século XV), Museu de Belas-Artes de Lyon. Imagem: Pietro Perugino, CC BY-SA 2.0 fr, via Wikimedia Commons
TextoO que ensina sobre a parusia
At 1,11Jesus voltará do mesmo modo como subiu ao céu
Mt 24 e 25Sinais, vigilância, as parábolas das virgens e dos talentos, o juízo das nações
1Ts 4,13-18“O próprio Senhor descerá do céu e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro” (v. 16)
2Pd 3A demora é paciência de Deus; o dia virá “como um ladrão”; novos céus e nova terra
Ap 22,20A última oração da Bíblia: “Vem, Senhor Jesus!”
O que a Bíblia diz sobre a parusia: os textos principais e o seu ensinamento

A Igreja nascente rezava em aramaico Maranatha. O Catecismo lembra as duas leituras: “Maran atha” (“O Senhor vem!”) ou “Marana tha” (“Vem, Senhor!”), em 1Cor 16,22 (CIC §451). O Apocalipse, livro das sete igrejas, termina com esse grito.

Os sinais antes da segunda vinda

Desde a Ascensão, a vinda de Cristo “está iminente”, e “pode realizar-se a qualquer momento” (CIC §673). O Catecismo, porém, aponta acontecimentos que a precedem:

  1. O reconhecimento de Cristo por “todo o Israel”, depois da entrada da plenitude dos pagãos (CIC §674; Rm 11).
  2. Uma prova final da Igreja, “que abalará a fé de numerosos crentes” (CIC §675).
  3. O Anticristo: “a suprema impostura religiosa”, um “pseudo-messianismo em que o homem se glorifica a si mesmo, substituindo-se a Deus” (CIC §675).
O Anticristo reconstrói o templo e faz falsos prodígios, imagem da impostura religiosa do fim
Vida e falsos milagres do Anticristo, iluminura do manuscrito Apocalypsis S. Johannis (Wellcome MS 49, século XV). Imagem: CC BY 4.0, via Wikimedia Commons

O Anticristo é descrito como engano religioso. A velha acusação de que a Igreja seria a besta do Apocalipse já tem a sua resposta no site. A vitória final será de Deus, não de um “triunfo histórico da Igreja” (CIC §677).

Ninguém sabe o dia nem a hora

Jesus foi claro: daquele dia e daquela hora ninguém sabe, nem os anjos, só o Pai (Mt 24,36). Aos apóstolos disse que não lhes pertencia “saber os tempos ou os momentos que o Pai determinou com a sua autoridade” (At 1,7, citado no CIC §673). E o Catecismo repete: “Só o Pai sabe o dia e a hora” (CIC §1040).

As virgens prudentes, com lâmpadas acesas, esperam o esposo: a vigilância pedida a quem aguarda Cristo
A parábola das virgens prudentes e das virgens imprudentes, de William Blake (cerca de 1825). Imagem: William Blake, domínio público, via Wikimedia Commons

Mesmo assim, muitos marcaram datas. Os seguidores de William Miller esperaram Cristo para 22 de outubro de 1844, e desse movimento nasceram os adventistas; veja a resposta aos questionamentos adventistas. As Testemunhas de Jeová ensinam que a “presença” invisível de Cristo começou em 1914.

Arrebatamento e milenarismo: a resposta católica

Um anjo acorrenta o dragão por mil anos, cena de Ap 20 lida ao pé da letra pelos milenaristas
O anjo com a chave do abismo, xilogravura do Apocalipse de Albrecht Dürer (1498). Imagem: Albrecht Dürer, CC0, via Wikimedia Commons

Muitos evangélicos falam do “arrebatamento”: os fiéis seriam levados secretamente ao céu antes de uma grande tribulação, e Cristo voltaria depois. Essa leitura, o dispensacionalismo, se difundiu no século XIX com o pregador anglo-irlandês John Nelson Darby.

Lido no contexto, 1Ts 4,13-18 consola quem chora os mortos. Quando o Senhor descer, os mortos ressuscitarão e os vivos serão levados ao encontro do Senhor, como cidadãos que saem para receber o soberano que chega. É a mesma vinda única e pública, não uma volta secreta.

Já o milenarismo espera um reino terreno de mil anos antes do fim, lendo ao pé da letra Ap 20. A Igreja o rejeitou, “mesmo na sua forma mitigada” (CIC §676), como já fizera um decreto do Santo Ofício de 19 de julho de 1944, citado em nota pelo Catecismo. Os “mil anos” designam o tempo da Igreja, em que Cristo já reina.

TemaEnsino católicoOutra leitura
Quantas vindasUma só segunda vinda, visível e gloriosaArrebatamento secreto e, depois, a volta pública
Mil anos (Ap 20)Linguagem simbólica: o tempo da IgrejaReino terreno literal de mil anos
DataNinguém sabe o dia nem a horaDatas calculadas, como 1844 ou 1914
Presença de CristoJá presente na Igreja e nos sacramentos; virá em glóriaPresença invisível desde 1914 (Testemunhas de Jeová)
Parusia: ensino católico e outras leituras sobre a volta de Cristo

Como viver à espera da parusia

A resposta de Jesus às datas é: vigiai. O católico não vive com medo do fim, mas com esperança, porque quem vem é o Senhor que o ama. A festa de Cristo Rei, no fim do ano litúrgico, e o Advento, no começo, mantêm essa espera viva.

Em cada Missa, depois da consagração, a assembleia proclama a morte e a ressurreição do Senhor e pede a sua vinda. A oração cristã não é técnica de calma interior, como se explica em católico pode fazer yoga, mas espera de Alguém. E o rei de quem fala a inscrição da cruz, explicada em significado de INRI, voltará em glória.

O que significa parusia na Bíblia?

Parusia vem do grego parousía, “presença” ou “chegada”. No Novo Testamento indica a vinda gloriosa de Cristo no fim dos tempos, como em 1Ts 4,15 e Mt 24,27. No mundo antigo, a palavra designava a visita solene de um soberano. A Igreja a chama também de segunda vinda.

Quando será a segunda vinda de Cristo?

Ninguém sabe. Jesus disse que daquele dia e daquela hora só o Pai sabe (Mt 24,36), e o Catecismo repete que “só o Pai sabe o dia e a hora” (CIC §1040). Por isso a Igreja nunca marca datas e pede vigilância.

O que acontece na parusia?

Cristo voltará visivelmente, na glória. Os mortos ressuscitarão, todos serão julgados no Juízo Final e o Reino de Deus será consumado, com novos céus e nova terra. A vitória sobre o mal será definitiva, e os justos reinarão para sempre com Cristo.

A Igreja acredita no arrebatamento?

Não na forma ensinada pelo dispensacionalismo, de um arrebatamento secreto antes de uma tribulação. A Igreja crê numa só segunda vinda, pública e gloriosa. Em 1Ts 4,17 os fiéis vivos são levados ao encontro do Senhor nessa vinda, junto com os mortos ressuscitados.

Quais são os sinais da volta de Jesus?

O Catecismo cita o reconhecimento de Cristo por todo o Israel (CIC §674), uma prova final que abalará a fé de muitos e a impostura religiosa do Anticristo (CIC §675). Esses sinais não permitem calcular a data: a vinda pode acontecer a qualquer momento (CIC §673).

A parusia não é um tema para assustar, mas a meta da história. Quem reza o Credo e vive na graça pode repetir, com a Igreja dos primeiros séculos, o grito que fecha a Bíblia: Maranatha, vem, Senhor Jesus.