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Diferença entre cruz e crucifixo: por que a Igreja mostra Cristo

Crucifixo de São Damião em Assis, cruz pintada com Cristo vivo, diante da qual rezou São Francisco

Muitos evangélicos dizem que preferem a cruz vazia porque “Cristo já ressuscitou”. Muitos católicos, por sua vez, nunca pensaram por que a Igreja põe a imagem de Jesus sobre a cruz. Qual é, então, a diferença entre cruz e crucifixo, e por que ela importa?

Veja o que cada palavra significa, o que diz a Bíblia, o que pede a liturgia da Missa e como responder com serenidade à objeção protestante.

Resposta rápida

Qual a diferença entre cruz e crucifixo?

A cruz é o sinal do madeiro em que Jesus morreu, sem figura humana. O crucifixo é a cruz com a imagem de Cristo crucificado, o chamado corpus. Os católicos usam os dois, mas a liturgia pede, sobre o altar ou junto dele, uma cruz com a imagem de Cristo crucificado, para recordar a paixão que nos salvou.

Cruz e crucifixo: o que cada um mostra

“Crucifixo” vem do latim cruci fixus, “pregado na cruz”. Toda imagem de Cristo pregado ao madeiro é um crucifixo; a cruz sem a figura é apenas cruz. Ambas são sinais cristãos legítimos, e a mesma fé está por trás das duas.

AspectoCruzCrucifixo
O que mostraSó o madeiroO madeiro com a figura de Cristo
O que destacaO sinal da vitória e da redençãoO preço da redenção: o amor de Cristo até o fim
InscriçãoNormalmente nenhumaMuitas vezes a placa INRI (Jo 19,19)
Na MissaNão basta sozinhaPedido pela Instrução Geral do Missal Romano
Quem usaCatólicos, ortodoxos e evangélicosCatólicos, ortodoxos e luteranos
Cruz e crucifixo: semelhanças e diferenças
Cruz de Matilde, de Essen: crucifixo de ouro com a figura de Cristo e a placa INRI no alto
Cruz de Matilde, crucifixo processional otoniano de ouro e pedras (século XI), tesouro da catedral de Essen. Imagem: Tuxyso, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Também o gesto de traçar a cruz sobre si tem o seu sentido, explicado no significado do sinal da cruz e por que nos benzemos.

Por que os católicos usam o crucifixo

Porque é assim que os apóstolos anunciavam Jesus. São Paulo escreve: “mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos” (1Cor 1,23). E insiste: “Julguei não dever saber coisa alguma entre vós, senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado” (1Cor 2,2).

O apóstolo Paulo escrevendo, ele que pregava Cristo crucificado aos coríntios e aos gálatas
O apóstolo Paulo, de Rembrandt e oficina (cerca de 1657), National Gallery of Art, Washington. Imagem: Rembrandt, domínio público, via Wikimedia Commons

Aos gálatas ele lembra que diante dos seus olhos “foi apresentada a imagem de Jesus Cristo crucificado” (Gl 3,1), e confessa que só quer gloriar-se “na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl 6,14). O próprio Jesus comparou a sua morte à serpente de bronze erguida por Moisés: “assim deve ser levantado o Filho do Homem” (Jo 3,14; Nm 21,9).

O crucifixo é essa pregação feita imagem. Sobre a acusação de que a serpente de bronze seria idolatria, veja a resposta sobre a serpente de bronze quebrada por Ezequias.

“Cristo não está mais na cruz”: a objeção protestante

A objeção é sincera e merece resposta calma. O crucifixo não nega a Ressurreição: lembra um fato passado que salvou o mundo, assim como uma foto do dia do casamento não nega que o casal hoje está vivo e junto. A Igreja canta a cruz como esperança: “O crux, ave, spes unica!” (Avé, ó cruz, esperança única!), como lembra o CIC §617.

Crucifixo pintado por Giotto, que mostra a paixão real de Cristo lembrada por todo crucifixo
Crucifixo de Giotto (cerca de 1290 a 1300), igreja de Santa Maria Novella, Florença. Imagem: Giotto, domínio público, via Wikimedia Commons

Nenhum católico pensa que Cristo continua morrendo; a Missa torna presente o único sacrifício, como mostra a resposta à acusação de que crucificamos Jesus de novo em cada Missa. Sobre a mesma crítica, leia também se a Igreja Católica prega um Cristo morto na cruz.

Também não é idolatria. O Catecismo ensina que “a honra prestada a uma imagem remonta ao modelo original” e que essa honra é “veneração respeitosa”, não adoração (CIC §2132). As respostas sobre imagens e idolatria na Bíblia desenvolvem o tema. Lutero, aliás, conservou o crucifixo, e muitas igrejas luteranas o usam até hoje.

O crucifixo no altar da Missa

A Instrução Geral do Missal Romano, do Missal que se seguiu ao Concílio Vaticano II, determina: “Sobre o altar ou junto dele coloca-se também uma cruz, com a imagem de Cristo crucificado, que a assembléia possa ver bem” (IGMR 308). E acrescenta que convém que ela permaneça ali fora das celebrações, “para recordar aos fiéis a paixão salvadora do Senhor”.

Altar com crucifixo e seis castiçais, como pede a Instrução Geral do Missal Romano
Cruz de altar e seis castiçais de bronze dourado (segunda metade do século XIX), catedral de Agen, França. Imagem: Didier Descouens, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

O n. 117 repete a norma e permite levar essa cruz na procissão de entrada; o n. 122 diz que, chegando ao altar, ela pode tornar-se a cruz do altar, “que deve ser apenas uma”. Uma cruz sem a figura de Cristo, portanto, não cumpre a norma.

Da cruz gloriosa ao crucifixo: um pouco de história

Os primeiros cristãos veneravam a cruz, mas raramente representavam o corpo de Cristo nela. Uma das primeiras imagens públicas da crucificação está nas portas de cipreste da basílica de Santa Sabina, em Roma, entalhadas por volta de 430 a 432.

Painel da crucificação na porta de Santa Sabina, uma das primeiras imagens públicas de Cristo crucificado
Crucificação, painel das portas de cipreste da basílica de Santa Sabina, Roma (cerca de 430 a 432). Imagem: Sailko, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons

No Ocidente, as cruzes de altar e de procissão passaram a levar o corpo de Cristo a partir do século XI, e o costume se generalizou por volta do século XIV. O Concílio de Niceia II, em 787, defendeu contra os iconoclastas o culto das imagens de Cristo (CIC §2131), e a festa da Exaltação da Santa Cruz mostra quanto a Igreja honra o próprio madeiro.

Formas de cruz na tradição cristã

Cruz gemada de ouro sem corpo, com o rosto de Cristo ao centro, no mosaico de Sant'Apollinare in Classe
Cruz gemada do mosaico da abside de Sant’Apollinare in Classe, Ravena (século VI). Imagem: Carole Raddato, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons
FormaDescriçãoOnde aparece
Cruz latinaHaste vertical mais longa que a transversalA mais comum no Ocidente e na maioria dos crucifixos
Cruz gregaQuatro braços iguaisArte bizantina e Igrejas orientais
TauEm forma de T, como a letra gregaSinal muito amado pelos franciscanos
Cruz gemadaOrnada de pedras ou ouro, sem corpoMosaicos antigos, como o de Sant’Apollinare in Classe
Cruz de São DamiãoCruz pintada, com Cristo vivo e testemunhas da PaixãoAssis, ligada à vocação de São Francisco
Formas de cruz na tradição cristã

Segundo a tradição franciscana, foi diante do crucifixo de São Damião que Francisco ouviu o chamado para reconstruir a Igreja; veja quem são os franciscanos. A cruz aparece também na medalha de São Bento e suas letras.

O crucifixo em casa e no pescoço

Desde a Idade Média, pequenos crucifixos passaram das celas dos monges para as casas dos leigos. Um crucifixo na parede da sala ou do quarto lembra a família de rezar e de oferecer as cruzes do dia. Abençoado por um sacerdote, ele é um sacramental, como explica a página sobre o que são sacramentais.

Usar um crucifixo no pescoço é uma bela profissão de fé, desde que não seja tratado como amuleto nem como enfeite sem sentido. Diante dele se pode rezar a Via Sacra e suas catorze estações, sobretudo às sextas-feiras.

Qual a diferença entre cruz e crucifixo?

A cruz é o madeiro sem figura humana; o crucifixo é a cruz com a imagem de Cristo crucificado. A palavra vem do latim cruci fixus, pregado na cruz. Os dois são sinais cristãos, mas o crucifixo mostra diretamente o Cristo que São Paulo pregava (1Cor 1,23).

Por que os católicos usam crucifixo?

Porque a pregação apostólica põe Cristo crucificado no centro (1Cor 2,2; Gl 3,1) e porque o crucifixo recorda o preço da nossa salvação. A liturgia pede uma cruz com a imagem de Cristo crucificado sobre o altar ou junto dele (IGMR 308).

Por que os evangélicos usam a cruz vazia?

Muitos evangélicos querem destacar que Cristo ressuscitou, e algumas tradições da Reforma rejeitaram as imagens. Os católicos também creem na Ressurreição: o crucifixo lembra um acontecimento passado e salvífico, não diz que Jesus continua morto. Os luteranos, aliás, conservaram o crucifixo.

O crucifixo é idolatria?

Não. Idolatria é adorar uma criatura como se fosse Deus. O Catecismo ensina que a honra prestada a uma imagem se dirige à pessoa representada e é veneração respeitosa, não adoração (CIC §2132). Quem reza diante do crucifixo adora a Cristo, não a madeira.

Pode usar crucifixo no pescoço?

Pode, e é um modo simples de professar a fé. O ideal é que seja abençoado por um sacerdote e usado com respeito, nunca como amuleto ou objeto de sorte. Ele deve lembrar a quem o usa o amor de Cristo e o compromisso de segui-lo.

Cruz e crucifixo não se opõem: a cruz anuncia a vitória, o crucifixo mostra quem venceu e a que preço. Para aprofundar, leia o que o Catecismo diz sobre Jesus crucificado, morto e sepultado, o texto oficial do Catecismo da Igreja Católica no site do Vaticano e a diferença entre católico e evangélico.