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O que é um mosteiro? Vida monástica, regra e clausura

A abadia de Montecassino no alto do monte, mosteiro fundado por São Bento

No alto de um morro, atrás de muros antigos, sinos chamam para a oração sete vezes por dia. Quem pergunta o que é um mosteiro quer entender esse mundo à parte: quem vive ali, por que não sai e o que faz o dia inteiro.

Veja a origem da vida monástica, a Regra de São Bento, a clausura e as diferenças entre mosteiro, convento e abadia.

Resposta rápida

O que é um mosteiro católico?

É a casa onde monges ou monjas vivem em comunidade, de forma estável, uma vida de oração e trabalho, sob uma regra e a autoridade de um abade ou abadessa. O centro do dia é a Liturgia das Horas. Em geral há clausura, uma parte da casa reservada só aos monges, para guardar o silêncio e a busca de Deus.

Dos eremitas do deserto aos primeiros mosteiros

A palavra monge vem do grego monachós, “o que vive só”. Os primeiros foram eremitas do deserto do Egito, como Santo Antão, o pai dos monges, que deixavam tudo para rezar na solidão.

Santo Antão e São Paulo eremita no deserto, os primeiros monges cristãos
Santo Antão abade e São Paulo eremita, de Giovanni Girolamo Savoldo (século XVI), Gallerie dell’Accademia, Veneza. Imagem: Giovanni Girolamo Savoldo, domínio público, via Wikimedia Commons

Por volta de 318, São Pacômio fundou em Tabenesi, no Egito, um mosteiro onde os monges viviam juntos, com horários e trabalho organizados: é a vida cenobítica, ou comunitária. No Oriente, São Basílio Magno tornou essa vida plenamente comum, com refeições, trabalho e oração em conjunto, e suas regras viraram norma para os monges orientais.

São Bento e a Regra que formou o Ocidente

No Ocidente, o grande legislador foi São Bento, abade de Montecassino. Depois de anos em Subiaco, fundou por volta de 529, segundo a data tradicional, o mosteiro de Montecassino, onde provavelmente escreveu a sua Regra. Pouco a pouco ela substituiu os costumes locais e se tornou a regra monástica do Ocidente.

São Bento com o livro nas mãos, autor da Regra que formou os mosteiros do Ocidente
São Bento, de Hans Memling (1487), retrato de Benedetto Portinari como o santo, Galeria Uffizi. Imagem: Hans Memling, domínio público, via Wikimedia Commons

O lema “ora et labora” (reza e trabalha) resume bem o espírito beneditino, mas não está escrito na Regra. Segundo a abadia beneditina de Subiaco, nos Estados Unidos, ele se popularizou no século XIX. O capítulo 48 fala de outra forma: “a ociosidade é inimiga da alma”, e divide o dia entre oração, trabalho e leitura sagrada.

Os três votos beneditinos

No capítulo 58, a Regra manda que o noviço, no oratório e diante de toda a comunidade, prometa:

  1. Estabilidade: ficar para sempre ligado àquela comunidade e àquele mosteiro.
  2. Conversão dos costumes (conversatio morum): viver como monge, o que inclui pobreza e castidade.
  3. Obediência: escutar a Deus na Escritura, no abade e nos irmãos.
Manuscrito medieval da Regra de São Bento aberto, texto que fixa os votos dos monges
Regra de São Bento, códice de Reichenau (800-833), Biblioteca da Abadia de São Galo. Imagem: Zde, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

O que os monges fazem num mosteiro

O dia gira em torno da Liturgia das Horas, a oração oficial da Igreja (veja como a Igreja celebra a liturgia). Na forma atual, as horas são Vigílias, Laudes, Terça, Sexta, Noa, Vésperas e Completas, além da Missa conventual.

Entre uma hora e outra vêm o trabalho, que sustenta a casa (agricultura, artesanato, ensino, hospedagem), e a lectio divina, a leitura orante da Bíblia. As refeições são em comum e muitas vezes em silêncio, ouvindo uma leitura.

Monges cartuxos reunidos à mesa no refeitório, a vida comum de um mosteiro
São Hugo no refeitório dos cartuxos, de Francisco de Zurbarán (1630-1635), Museu de Belas Artes de Sevilha. Imagem: Francisco de Zurbarán, domínio público, via Wikimedia Commons

Mosteiro, convento, abadia e priorado

A diferença principal está no modo de vida. O monge promete estabilidade e vive no mosteiro; o frade das ordens mendicantes, como franciscanos e dominicanos, mora num convento e sai para pregar (os títulos estão em diferença entre frei e padre).

TermoO que éQuem viveExemplo
MosteiroCasa de vida monástica estávelMonges ou monjasMosteiro de São Bento de São Paulo
ConventoCasa de uma ordem mendicanteFrades ou freirasConventos franciscanos
AbadiaMosteiro autônomo governado por um abade ou abadessaMonges ou monjasAbadia de Montecassino
PrioradoMosteiro governado por um prior, muitas vezes dependente de uma abadiaMonges ou monjasCasas menores ou recentes
Mosteiro, convento, abadia e priorado: qual a diferença

A igreja de uma abadia pode até receber o título de basílica, como explica a diferença entre basílica e catedral. E a palavra mosteiro também se usa para casas budistas; aqui falamos dos mosteiros cristãos.

Mosteiros no Brasil

Os beneditinos chegaram cedo à colônia. O Mosteiro de São Bento da Bahia, em Salvador, fundado em 1582, é apresentado pela própria Ordem como o primeiro mosteiro beneditino das Américas. Vieram depois o do Rio de Janeiro, de 1590, e o de São Paulo, de 1598, todos ainda habitados por monges.

Claustro do Mosteiro de São Bento da Bahia, em Salvador, o primeiro beneditino das Américas
Mosteiro de São Bento da Bahia, em Salvador (foto Tatiana Azeviche, Setur, 2015). Imagem: Turismo Bahia, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons

A clausura e as monjas contemplativas

Galeria do claustro românico da abadia cisterciense de Fontenay, coração da clausura
Claustro da abadia de Fontenay, na Borgonha (França). Imagem: Ibex73, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

O Código de Direito Canônico manda que toda casa religiosa tenha uma parte reservada só aos religiosos e acrescenta: “Nos mosteiros destinados à vida contemplativa deve observar-se uma disciplina de clausura mais rigorosa” (cân. 667 §2). Os mosteiros de monjas inteiramente contemplativas seguem a clausura papal, com normas da Santa Sé (§3).

É o caso das clarissas, fundadas por Santa Clara de Assis, e das carmelitas descalças reformadas por Santa Teresa d’Ávila. As clarissas formam a “segunda ordem” franciscana, ideia explicada em o que é Ordem Terceira.

OrdemFundador ou origemTraço próprio
Beneditinos e beneditinasSão Bento, século VIEquilíbrio entre oração, trabalho e leitura
CisterciensesCîteaux, França, 1098; São Bernardo de ClaravalVolta à letra da Regra, simplicidade
TrapistasReforma da abadia de La Trappe, FrançaCistercienses da Estrita Observância, muito silêncio
CartuxosSão Bruno, Grande Cartuxa, século XIEremitas que vivem em comunidade, cada um em sua cela
ClarissasSanta Clara, século XIIIPobreza e clausura papal
Carmelitas descalçasSanta Teresa d’Ávila, século XVIOração mental e vida escondida
As principais famílias monásticas e contemplativas

Um leigo pode visitar ou ficar num mosteiro?

Pode. A Regra pede que todo hóspede seja recebido como o próprio Cristo, e muitos mosteiros têm hospedaria para retiros de alguns dias. O hóspede acompanha a oração dos monges, respeita o silêncio e não entra na clausura.

Para aprofundar, o verbete Monastery da Catholic Encyclopedia traz a história detalhada das formas de vida monástica no Oriente e no Ocidente.

O que é um mosteiro?

É a casa onde monges ou monjas vivem juntos, de forma estável, uma vida de oração e trabalho sob uma regra, como a de São Bento, e sob a autoridade de um abade ou abadessa. O dia é marcado pela Liturgia das Horas e há clausura, uma parte da casa reservada só aos religiosos.

Qual a diferença entre mosteiro e convento?

O mosteiro é a casa de monges ou monjas, que prometem estabilidade e passam a vida no mesmo lugar, rezando e trabalhando. O convento é a casa dos frades das ordens mendicantes, como franciscanos e dominicanos, que vivem em comunidade mas saem para pregar e servir. Na linguagem popular, os termos se confundem.

O que é um mosteiro beneditino?

É um mosteiro que segue a Regra escrita por São Bento no século VI. Os monges prometem estabilidade, conversão dos costumes e obediência, e dividem o dia entre a Liturgia das Horas, o trabalho e a lectio divina. No Brasil, os mais antigos são os de Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo.

O que é um mosteiro trapista?

É um mosteiro da Ordem Cisterciense da Estrita Observância, nascida da reforma da abadia francesa de La Trappe. Os trapistas seguem a Regra de São Bento com grande austeridade: muito silêncio, oração, trabalho manual e uma vida retirada do mundo. São herdeiros diretos dos cistercienses de Cîteaux.

O que fazem os monges num mosteiro?

Rezam e trabalham. Várias vezes ao dia se reúnem na igreja para cantar a Liturgia das Horas, de Vigílias a Completas, e participam da Missa. No resto do tempo trabalham para sustentar a casa, estudam, fazem a lectio divina e acolhem hóspedes, sempre em comunidade e com momentos de silêncio.

O mosteiro lembra a todos que só Deus basta. Quem passa um dia ali volta para casa sabendo que a oração pode, de fato, ser o centro de uma vida.