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Quem são os beneditinos? A Ordem de São Bento e sua regra

São Bento de hábito preto com o báculo de abade, pai dos monges beneditinos

Hábito preto, canto gregoriano, uma medalha famosa e mosteiros com mais de quatro séculos: quem são os beneditinos? São os filhos de São Bento, a família religiosa mais antiga do Ocidente que continua viva, e uma das que mais marcaram a história da Igreja.

Veja o que é a Ordem de São Bento, a sua Regra, as reformas, a presença no Brasil e como reconhecer um monge.

Resposta rápida

Quem são os beneditinos?

São os monges e as monjas que vivem segundo a Regra de São Bento, escrita por volta de 530. Formam a Ordem de São Bento (OSB): não uma ordem centralizada, mas uma família de mosteiros autônomos, unidos desde 1893 numa Confederação. Vivem em comunidade, com estabilidade, sob um abade, entre a oração litúrgica e o trabalho.

O que é a Ordem de São Bento

São Bento de Núrsia viveu entre os séculos V e VI; a sua vida está no Santo do Dia sobre São Bento, abade. Segundo Bento XVI, em 529 ele deixou Subiaco e se estabeleceu em Monte Cassino, onde escreveu a Regra.

A abadia de Monte Cassino no alto do monte, onde São Bento escreveu a Regra
Vista do mosteiro de Monte Cassino antes da destruição de 1944, xilogravura de Barberis (1898). Imagem: Barberis, domínio público, via Wikimedia Commons

Bento não fundou uma ordem com um superior geral. Cada mosteiro é uma casa autônoma (cân. 613), governada pelo seu abade. Os mosteiros se agrupam em congregações, e em 1893 o Papa Leão XIII uniu as congregações numa Confederação, presidida pelo Abade Primaz, que reside em Santo Anselmo, em Roma.

O Código de Direito Canônico reconhece essa originalidade: o Abade Primaz e o superior de uma congregação monástica não têm todo o poder dos demais superiores maiores (cân. 620). Algumas abadias, como Monte Cassino, chegaram a governar um território como uma diocese; veja a diferença entre diocese e paróquia.

A Regra de São Bento

A Catholic Encyclopedia data a Regra de cerca de 530. São 73 capítulos breves, que o próprio autor chama de “mínima, traçada só para o início” (RB 73,8). Ela define a vida monástica como “uma escola ao serviço do Senhor” (Prólogo, 45).

Páginas de um dos mais antigos manuscritos da Regra de São Bento, com o capítulo sobre os tipos de monges
Regra de São Bento, manuscrito Hatton 48 da Biblioteca Bodleiana, Oxford (século VIII). Imagem: domínio público, via Wikimedia Commons
  • Oração: “à Obra de Deus nada se anteponha” (RB 43,3). A Obra de Deus é o Ofício divino, hoje a Liturgia das Horas, cantada no coro, muitas vezes em canto gregoriano.
  • Trabalho e leitura: a Regra divide o dia entre o trabalho manual e a leitura divina (RB 48). Veja como praticar a lectio divina passo a passo.
  • Hospitalidade: todos os hóspedes devem ser recebidos como o próprio Cristo (RB 53, com Mt 25,35).
  • Estabilidade: o monge promete ficar na sua comunidade por toda a vida, com a conversão dos costumes e a obediência (RB 58).

O lema ora et labora (“reza e trabalha”) não está escrito na Regra: é um resumo tradicional, posterior, do seu equilíbrio. No centro está o abade, que desempenha no mosteiro “as funções de Cristo” (RB 2,2) e deve “ajudar e não dominar” (RB 64,8). Sobre a vida monástica em geral, veja o que é um mosteiro e o que são os votos religiosos.

Santa Escolástica e as monjas beneditinas

Desde o início há também mulheres. São Gregório Magno conta, no segundo livro dos Diálogos, que Santa Escolástica, irmã de Bento, dirigia uma comunidade de virgens consagradas perto de Monte Cassino. Ela morreu por volta de 543, e a tradição a venera como mãe das monjas beneditinas.

São Bento conversa com a irmã, Santa Escolástica, e duas monjas, sinal da origem das monjas beneditinas
São Bento e Santa Escolástica com dois companheiros, atribuído a Jean-Baptiste de Champaigne (século XVII). Imagem: Jean-Baptiste de Champaigne, domínio público, via Wikimedia Commons

Hoje há mosteiros femininos contemplativos em todo o mundo, sob uma abadessa. Entre as monjas mais célebres está Santa Gertrudes, a Grande, mística do século XIII.

Cluny, Cister e os trapistas

Como os mosteiros eram independentes, o fervor variava. Por isso a história beneditina é uma história de reformas, todas sob a mesma Regra. A primeira de grande alcance nasceu em 910 na abadia de Cluny, na Borgonha, e teve abades santos como São Odo de Cluny.

Torre românica da antiga igreja abacial de Cluny, centro da grande reforma beneditina iniciada em 910
Clocher de l’Eau Bénite, torre do século XII da abadia de Cluny, foto de Gerd Eichmann (2013). Imagem: Gerd Eichmann, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons
RamoOrigemTraço próprio
Beneditinos (OSB)Monte Cassino, cerca de 530Mosteiros autônomos, liturgia solene, hábito preto
CluniacensesCluny, 910Rede de casas ligadas à abadia-mãe, esplendor litúrgico
CisterciensesCîteaux, 1098Volta à letra da Regra, pobreza, trabalho manual, hábito branco
Trapistas (OCSO)La Trappe, reforma de 1664; ordem própria em 1892Estrita observância, silêncio e grande austeridade
Beneditinos, cluniacenses, cistercienses e trapistas: origem e traço de cada ramo

O maior nome de Cister é São Bernardo de Claraval. Em 1664 o abade Rancé iniciou em La Trappe uma reforma austera, que em 1892, com Leão XIII, se tornou ordem própria.

O abade de Rancé, de hábito branco, reformador de La Trappe e pai dos trapistas
Retrato do abade Armand-Jean de Rancé, do ateliê de Hyacinthe Rigaud (1696). Imagem: Ateliê de Hyacinthe Rigaud, domínio público, via Wikimedia Commons

Os beneditinos no Brasil

Os primeiros monges vieram de Portugal no fim do século XVI. O Mosteiro de São Bento da Bahia, em Salvador, fundado em 1582, apresenta-se como a primeira abadia beneditina das Américas. Seguiram-se o do Rio de Janeiro, em 1590, e o de São Paulo, em 1598, além de Olinda e de outras casas.

Capela-mor dourada da igreja do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, casa fundada em 1590
Capela-mor da igreja do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, foto de Halley Pacheco de Oliveira (2012). Imagem: Halley Pacheco de Oliveira, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

Em 1827 os mosteiros formaram uma congregação brasileira própria. A proibição de admitir noviços, decretada pelo governo imperial em 1855, quase extinguiu a ordem. A restauração veio a partir de 1895, com monges alemães da congregação de Beuron, que reabriram Olinda e renovaram as outras casas.

Como reconhecer um beneditino

A sigla OSB (Ordo Sancti Benedicti) vem depois do nome. O hábito é preto, com escapulário e capuz, e no coro os monges usam a cogula, de mangas largas. Os monges professos recebem o título de Dom, explicado em diferença entre frei, padre, monge e dom.

Monge não é o mesmo que frade. As ordens mendicantes do século XIII, como os franciscanos e os dominicanos, ou os agostinianos, têm outro estilo de vida:

AspectoBeneditinos (monges)Franciscanos e dominicanos (frades)
OrigemSéculo VISéculo XIII
LugarUm mosteiro, com voto de estabilidadeConventos; o frade pode ser transferido
GovernoAbade eleito em cada mosteiro autônomoOrdem centralizada, com superior geral e províncias
MissãoLiturgia, trabalho, hospitalidade, ensinoPregação, pobreza itinerante, missões
TítuloDomFrei
Monges e frades: as principais diferenças entre beneditinos e ordens mendicantes

Oblatos e a herança para a Europa

Leigos e sacerdotes diocesanos podem se ligar a um mosteiro como oblatos, vivendo no mundo o espírito da Regra; a ideia é próxima da que se explica em o que é uma Ordem Terceira. Também a medalha de São Bento espalhou a devoção ao santo entre o povo.

Os mosteiros copiaram manuscritos, abriram escolas e evangelizaram povos inteiros. A santificação do trabalho, tão beneditina, ecoa hoje também em realidades da Igreja como o Opus Dei. Papas como São Gregório Magno saíram desse mundo monástico. Por isso Paulo VI, em 24 de outubro de 1964, proclamou São Bento padroeiro da Europa, como lembrou Bento XVI na sua catequese sobre São Bento de Núrsia.

Quem são os beneditinos?

São os monges e monjas que seguem a Regra de São Bento, escrita por volta de 530 em Monte Cassino. Formam a Ordem de São Bento (OSB), uma família de mosteiros autônomos unidos numa Confederação desde 1893. Vivem em comunidade, sob um abade, entre a oração e o trabalho.

O que significa OSB?

OSB é a sigla de Ordo Sancti Benedicti, Ordem de São Bento, em latim. Os monges e monjas beneditinos a colocam depois do nome, como os franciscanos usam OFM e os dominicanos OP. Os monges professos também recebem o título de Dom.

O que é a Regra de São Bento?

É o texto, em 73 capítulos, que São Bento escreveu para os seus monges por volta de 530. Organiza a oração comum, o trabalho, a leitura divina, a obediência ao abade e a hospitalidade. Equilibrada e humana, tornou-se a base do monaquismo ocidental.

Qual a diferença entre beneditinos e franciscanos?

Os beneditinos são monges: fazem voto de estabilidade num mosteiro autônomo, governado por um abade, e se dedicam à liturgia e ao trabalho. Os franciscanos são frades mendicantes, nascidos no século XIII, de ordem centralizada, dedicados à pregação e à vida itinerante.

Beneditinos podem ser padres?

Sim. Muitos monges beneditinos recebem a ordenação sacerdotal para celebrar a Missa e atender os fiéis, mas a vocação monástica não depende dela: há monges que não são padres. No tempo de São Bento, a maioria dos monges era leiga.

Quais os mosteiros beneditinos no Brasil?

Os mais antigos são o Mosteiro de São Bento da Bahia, em Salvador (1582), o do Rio de Janeiro (1590) e o de São Paulo (1598), além do de Olinda. Hoje há também mosteiros masculinos e femininos em várias outras regiões do país.

Quinze séculos depois, a pequena Regra continua a formar comunidades que rezam, trabalham e acolhem. Como pedia São Bento, os seus filhos nada antepõem ao amor de Cristo.