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Origem da festa junina: os santos de junho e a fé por trás da festa

Zacarias escreve o nome de João enquanto Isabel e as vizinhas apresentam o menino recém-nascido (Lc 1,59-63)

Fogueira acesa, bandeirinhas no alto, quadrilha e milho cozido: poucas festas são tão brasileiras. Mas a origem da festa junina não está no milho nem na dança, e sim em três santos que a Igreja celebra em junho.

Veja de onde vêm essas festas, por que se acende a fogueira, se a festa junina é pagã e como vivê-la com fé.

Resposta rápida

Qual a origem da festa junina?

A festa junina nasceu das celebrações cristãs dos santos de junho, sobretudo do nascimento de São João Batista, em 24 de junho. Na Europa, essas festas absorveram costumes antigos do meio do ano, como as fogueiras, e os portugueses as trouxeram ao Brasil no período colonial. Por isso também são chamadas festas joaninas.

Os três santos da festa junina

Santo Antônio ajoelhado recebe a visão do Menino Jesus, o santo celebrado em 13 de junho
Aparição do Menino Jesus a Santo Antônio de Pádua, de Francisco de Zurbarán (c. 1627 a 1630). Imagem: Francisco de Zurbarán, domínio público, via Wikimedia Commons
SantoDiaQuem foiCostume ligado
Santo Antônio13 de junho (memória)Frade franciscano português, pregador e Doutor da IgrejaTrezena, pão de Santo Antônio, fama de casamenteiro
São João Batista24 de junho (solenidade)Precursor de Jesus, filho de Zacarias e IsabelFogueira e o grande São João do Nordeste
São Pedro29 de junho (solenidade, com São Paulo)Pescador da Galileia, chefe dos apóstolos, mártir em RomaFecha o ciclo das festas de junho
Os santos juninos: datas, quem foram e os costumes ligados a cada um
São Pedro com as chaves e São Paulo, os apóstolos celebrados juntos em 29 de junho
São Pedro e São Paulo, de Jusepe de Ribera (c. 1616). Imagem: Jusepe de Ribera, domínio público, via Wikimedia Commons

João é o centro de tudo. A Catholic Encyclopedia, no verbete sobre São João Batista, diz que a festa do seu nascimento é uma das mais antigas, se não a mais antiga, criadas em honra de um santo nas liturgias grega e latina.

Da Europa cristã ao Brasil colônia

O 24 de junho fica perto do solstício de verão do hemisfério norte, quando povos antigos acendiam fogueiras. Em muitos lugares, a festa cristã absorveu esses costumes e lhes deu sentido novo. A mesma enciclopédia registra que os “fogos de São João” duraram em certas regiões até hoje.

Camponeses dançam a caminho de Molenbeek na festa do nascimento de São João, costume europeu antigo
Os dançarinos de São João em Molenbeek, de Pieter Brueghel, o Jovem (1592), segundo obra perdida de Pieter Bruegel, o Velho. Imagem: Pieter Brueghel the Younger, domínio público, via Wikimedia Commons

Em Portugal, as celebrações se chamaram festas joaninas. Segundo o padre Adelmo Sérgio Gomes, na Revista Ave Maria (junho de 2025), elas chegaram ao Brasil com a colonização, no século XVI. Pela explicação mais aceita, “joaninas” virou “juninas” por causa do mês.

Aqui as festas receberam milho, amendoim, pamonha e canjica, herança indígena, e o quentão. No Nordeste se tornaram o grande São João.

Por que se faz fogueira na festa junina?

O anjo avisa Maria de que Isabel está no sexto mês (Lc 1,36), Maria vai à casa da parenta (Lc 1,39-40), e no nascimento de João os vizinhos se alegram com Isabel (Lc 1,57-58). O encontro está em a Visitação de Nossa Senhora a Isabel.

Uma lenda popular diz que Isabel combinou com Maria acender um fogo no alto de um monte para avisar do nascimento. Isso não está na Bíblia e deve ser contado como lenda. Mas a imagem tem raiz no Evangelho: Jesus chamou João de “lâmpada que arde e ilumina” (Jo 5,35).

Fogueiras acesas diante das casas numa rua de Campina Grande na noite de São João
Fogueiras de São João numa rua de Campina Grande, Paraíba (foto de 2012). Imagem: Marinelson Almeida, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons

Quadrilha, bandeirinhas e quentão

A quadrilha vem da quadrille, dança de salão francesa de quatro casais. Segundo material da Universidade Federal de Sergipe, ela se popularizou no Brasil no século XIX, por influência da Corte Portuguesa. Daí os comandos “anarriê” (en arrière) e “alavantu” (en avant tous).

CostumeOrigemO que a Igreja diz
FogueiraFogos do meio do ano, cristianizados como fogos de São JoãoCostume popular, não rito litúrgico
QuadrilhaQuadrille francesa, no Brasil desde o século XIXAlegria honesta, com decência
Comidas e quentãoMilho e amendoim, herança indígenaPartilha sim; o abuso do álcool fere a temperança (CIC §2290)
BalõesCostume antigo das festasNão pôr vidas em risco; soltá-los é crime (Lei 9.605/1998, art. 42)
SimpatiasCrendices ligadas aos santosSuperstição (CIC §2111)
Costumes da festa junina: de onde vêm e como a fé os avalia

A festa junina é pagã?

Não. As festas celebram santos do calendário da Igreja. Alguns costumes têm raízes anteriores ao cristianismo e foram batizados, como aconteceu no Natal: veja a origem do Natal em 25 de dezembro. A quem diz que católico não pode festejar, responde o texto sobre a acusação de que católicos vão a festas com dança e cachaça.

Simpatias não são devoção

Pôr Santo Antônio de cabeça para baixo para “forçar” um casamento é superstição: atribuir eficácia a gestos exteriores sem as disposições interiores (CIC §2111). O santo não é chantageado, ele intercede, como explica a resposta sobre a intercessão dos santos na Bíblia.

A festa junina no Brasil hoje

Multidão diante da capela e da fogueira cenográfica do arraial de Campina Grande, no Nordeste
Cidade cenográfica do São João de Campina Grande, Paraíba (foto de 2011). Imagem: Kyller Costa Gorgônio, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons

O Nordeste concentra as maiores festas, com cidades cenográficas e semanas de forró, como em Campina Grande (PB). Em 9 de dezembro de 2021, o Iphan registrou as Matrizes Tradicionais do Forró como Patrimônio Cultural do Brasil; o Pau da Bandeira de Santo Antônio, em Barbalha (CE), também é bem reconhecido pelo instituto.

Fachada da Igreja de Santo Antônio enfeitada com bandeirinhas de festa junina em São Paulo
Igreja de Santo Antônio na Praça do Patriarca, São Paulo, decorada em junho de 2019. Imagem: Cecioka, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Como viver as festas juninas com fé

Arraial e fé não se excluem. Muitas quermesses nascem nas paróquias e sustentam as obras da comunidade. Algumas sugestões para o mês:

  1. Ir à Missa no dia dos santos, sobretudo na solenidade de São João, e conhecer as partes da Missa explicadas uma a uma.
  2. Rezar a trezena de Santo Antônio ou uma novena aos santos de junho; veja o que é uma novena e como rezá-la.
  3. Praticar a caridade: o pão de Santo Antônio lembra o cuidado com os pobres, uma das obras de misericórdia corporais e espirituais.
  4. Contar às crianças quem foram os santos, antes da fogueira e da dança.

Santo Antônio foi frade da família de São Francisco: o título está explicado na diferença entre frei e padre, e a espiritualidade franciscana aparece nas orações de São Francisco. Outra devoção popular ligada a um santo é a bênção de São Brás sobre a garganta, em fevereiro.

Em 2027, o dia 13 de junho cai num domingo, o 24 numa quinta-feira e o 29 numa terça-feira. Ver essas datas dentro do ano litúrgico católico ajuda a viver junho como um tempo de santos, e não só de festa.

A festa junina tem origem católica?

Sim. Ela nasceu das celebrações de três santos de junho: Santo Antônio (13), São João Batista (24) e São Pedro (29). O centro é o nascimento de São João. Costumes mais antigos, como a fogueira, foram cristianizados.

A festa junina é pagã?

Não. Ela celebra santos do calendário da Igreja. Certos costumes, como os fogos do meio do ano, têm raízes anteriores ao cristianismo e foram cristianizados, como no Natal. Contrárias à fé são as simpatias, que a Igreja chama de superstição.

Por que se faz fogueira na festa junina?

Por causa de São João. Uma lenda conta que Isabel acendeu uma fogueira para avisar Maria do nascimento do filho, mas isso não está na Bíblia. Historicamente, a festa de 24 de junho absorveu os fogos do meio do ano na Europa, que passaram a se chamar fogos de São João.

Quais são os santos da festa junina?

Santo Antônio, frade franciscano e Doutor da Igreja, em 13 de junho; São João Batista, precursor de Jesus, cujo nascimento se celebra em 24 de junho; e São Pedro, celebrado com São Paulo em 29 de junho. São João é o principal.

Qual a origem da festa junina no Brasil?

As festas chegaram com os portugueses no período colonial, no século XVI, com o nome de festas joaninas. Aqui receberam comidas de milho e amendoim, de herança indígena, e no século XIX a quadrilha francesa. O Nordeste se tornou a região das maiores festas de São João.

A festa junina é uma herança da fé que o povo transformou em alegria. Quando a fogueira se acende, vale lembrar quem ela anuncia: João, que apontou para Cristo e disse que ele devia crescer e ele diminuir (Jo 3,30).

Que cada arraial, então, comece pela capela e termine na partilha. Assim a alegria de junho continua sendo o que foi desde o início: uma festa de família em honra dos amigos de Deus.