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O que é nulidade matrimonial? Causas, processo e o que muda

Casamento da Virgem Maria e São José, imagem do consentimento que faz o matrimônio

Muita gente chama de “anulação do casamento” o que a Igreja chama de declaração de nulidade. Entender o que é nulidade matrimonial ajuda quem viveu um casamento fracassado a saber se tem um caminho na Igreja, e evita a ideia falsa de um “divórcio católico”.

Veja o que a nulidade significa, quais são as suas causas, como funciona o processo no tribunal eclesiástico e o que muda depois da sentença.

Resposta rápida

O que é nulidade matrimonial?

É a declaração, feita por um tribunal da Igreja depois de um processo, de que um casamento nunca existiu validamente, porque no momento do consentimento faltou algo essencial: havia um impedimento, um vício no consentimento ou falta da forma canônica. A Igreja não desfaz um matrimônio válido; apenas reconhece que ele não chegou a existir (CIC §1629).

Nulidade não é divórcio católico

O ponto de partida é a palavra de Jesus: “Não separe, pois, o homem o que Deus uniu” (Mc 10,9, Bíblia Ave-Maria). O Catecismo ensina que o matrimônio ratificado e consumado entre batizados não pode jamais ser dissolvido (CIC §1640), e o Código diz que nenhum poder humano pode dissolvê-lo, a não ser a morte (cân. 1141).

As bodas de Caná, onde Cristo honrou o matrimônio, sacramento que nenhum poder humano dissolve
As bodas de Caná, de Paolo Veronese (1563), Museu do Louvre. Imagem: Paolo Veronese, domínio público, via Wikimedia Commons

Por isso a Igreja não “anula” casamentos. O matrimônio goza do favor do direito: na dúvida, presume-se válido até prova em contrário (cân. 1060). Só quando o tribunal chega à certeza de que algo essencial faltou desde o início é que declara a nulidade. A doutrina completa está na página sobre o que é o matrimônio e no comentário do Catecismo sobre o matrimônio (§1601-1690).

As três causas de nulidade

O Código de Direito Canônico agrupa as causas em três famílias. Todas se referem ao momento do “sim”, nunca ao que aconteceu depois.

1. Impedimentos

São condições que tornam a pessoa incapaz de casar validamente (cân. 1083-1094). Alguns podem ser dispensados pelo bispo antes do casamento; se não houve dispensa, o matrimônio é nulo.

Tabela de consanguinidade do Decreto de Graciano, base medieval do impedimento de parentesco
Folha do Decreto de Graciano com a tabela de consanguinidade, Itália, séculos XIII a XIV. Imagem: CC0, via Wikimedia Commons
  • Idade: o homem antes dos 16 anos e a mulher antes dos 14 (cân. 1083).
  • Vínculo anterior: quem já está ligado por outro casamento (cân. 1085).
  • Disparidade de culto: católico com pessoa não batizada, sem dispensa (cân. 1086); veja o que é o batismo.
  • Ordem sacra e voto perpétuo: o diácono, padre ou bispo ordenado e o religioso de voto público perpétuo de castidade (cân. 1087-1088).
  • Consanguinidade: parentes em linha reta e, na colateral, até o quarto grau (cân. 1091).

2. Vícios de consentimento

O consentimento é o que faz o casamento; se ele foi defeituoso, não houve matrimônio.

Jovem noiva forçada a casar com um homem idoso, exemplo de consentimento sob pressão e medo
O casamento desigual, de Vassili Pukirev (1862), Galeria Tretiakov. Imagem: Vassili Pukirev, domínio público, via Wikimedia Commons
  • Incapacidade (cân. 1095): falta de uso da razão, grave falta de discernimento sobre os deveres do casamento ou incapacidade de assumi-los por causas de natureza psíquica.
  • Erro e dolo (cân. 1097-1098): erro sobre a pessoa, ou engano provocado para obter o “sim” sobre uma qualidade que pode perturbar gravemente a vida conjugal.
  • Simulação (cân. 1101): excluir, por ato positivo da vontade, o próprio casamento ou algo essencial dele, como os filhos, a fidelidade ou a indissolubilidade.
  • Condição e medo (cân. 1102-1103): casar sob condição sobre o futuro, ou forçado por violência ou medo grave.

3. Falta de forma canônica

O católico deve casar diante do bispo, do pároco ou de um sacerdote ou diácono delegado, e de duas testemunhas (cân. 1108). O casamento só no civil, sem dispensa da forma, não é válido para a Igreja.

Casamento celebrado diante do sacerdote e de testemunhas, a forma canônica exigida dos católicos
Ordem, Matrimônio e Unção dos Enfermos, painel do Retábulo dos Sete Sacramentos de Rogier van der Weyden (1440 a 1445). Imagem: Rogier van der Weyden, domínio público, via Wikimedia Commons
TipoExemploCânon
ImpedimentoUm dos noivos já era casadocân. 1085
ImpedimentoCatólico com não batizado, sem dispensacân. 1086
IncapacidadeGrave imaturidade sobre os deveres do casamentocân. 1095
DoloEsconder uma doença grave para obter o “sim”cân. 1098
SimulaçãoCasar decidido a nunca ter filhoscân. 1101
Medo graveCasamento imposto pela família sob ameaçacân. 1103
FormaCatólico casado só no civilcân. 1108
Causas de nulidade matrimonial: exemplos e cânones do Código de Direito Canônico

Como é o processo

Quem duvida da validade do próprio casamento procura a paróquia ou o tribunal eclesiástico da diocese. É competente o tribunal do lugar do casamento, do domicílio de uma das partes ou de onde estão a maioria das provas (cân. 1672). Em cada diocese, o juiz de primeira instância é o bispo, que julga por si ou por meio de outros (cân. 1673); a sua cátedra fica na catedral.

Palácio da Chancelaria em Roma, sede do Tribunal da Rota Romana, instância de apelação das causas
Palácio da Chancelaria em Roma, gravura de Giuseppe Vasi (século XVIII). Imagem: Giuseppe Vasi, domínio público, via Wikimedia Commons
  1. Petição: a parte apresenta o libelo, com os fatos e as provas.
  2. Instrução: ouvem-se as partes e as testemunhas; em casos psíquicos, entram os peritos (cân. 1678).
  3. Defensor do vínculo: defende a validade do casamento em todo o processo.
  4. Sentença: o juiz decide com certeza moral; sem apelação, que pode chegar à Rota Romana, ela se torna executiva (cân. 1679).

O papa Francisco reformou esse processo com o motu proprio Mitis Iudex Dominus Iesus, no site do Vaticano, de 15 de agosto de 2015, em vigor desde 8 de dezembro de 2015. Basta uma única sentença favorável, e foi criado o processo mais breve diante do bispo quando os dois cônjuges pedem e a nulidade é evidente (cân. 1683). O que é um motu proprio está explicado em encíclica, exortação apostólica e motu proprio.

Tempo e custo: a lei pede que a causa não passe de um ano na primeira instância (cân. 1453). Francisco pediu às conferências episcopais que, respeitada a justa remuneração dos funcionários, se assegure quanto possível a gratuidade. No Brasil os valores variam por diocese, com redução para quem não pode pagar; os tribunais são mantidos pela diocese, que vive do dízimo e das ofertas dos fiéis.

O que muda depois da sentença

Matrimônio celebrado na Igreja, possível às partes depois da declaração de nulidade
O Matrimônio, da segunda série dos Sete Sacramentos de Nicolas Poussin (1647 a 1648). Imagem: Nicolas Poussin, domínio público, via Wikimedia Commons

Com a sentença executiva, as partes podem casar na Igreja, a não ser que o tribunal ou o bispo tenha imposto uma proibição (cân. 1682 §1). Ficam as obrigações naturais da união anterior, como o sustento dos filhos (CIC §1629).

Os filhos continuam legítimos: o Código o garante para os filhos de casamento válido ou putativo, isto é, celebrado de boa-fé (cân. 1137).

AtoO que éQuem decideEfeito
Divórcio civilFim legal de um casamento civilO juiz ou o cartórioEfeitos civis; diante de Deus o vínculo válido continua
Declaração de nulidadeReconhecimento de que o matrimônio nunca existiuO tribunal eclesiásticoLiberdade para casar na Igreja; filhos legítimos
Divórcio civil x declaração de nulidade: o que cada um faz

Traição é causa de nulidade?

Por si só, não. O adultério cometido depois do casamento é pecado grave, mas não desfaz um vínculo que nasceu válido. Ele pode ter peso apenas como indício: se mostrar que, já no dia do casamento, alguém excluía a fidelidade, a causa será a simulação (cân. 1101), não a traição em si.

A Igreja acompanha quem sofreu a ruptura, como pede a exortação Familiaris Consortio. Sobre os sacramentos nessas situações, veja se divorciado pode comungar e a resposta sobre quem vive em concubinato.

O que causa nulidade matrimonial?

Três tipos de causa, todas presentes no momento do casamento: um impedimento sem dispensa (como vínculo anterior ou disparidade de culto), um vício de consentimento (incapacidade, erro, dolo, simulação, medo grave) ou a falta da forma canônica exigida dos católicos (cân. 1083-1108).

Quanto custa a nulidade matrimonial?

Depende da diocese. O papa Francisco pediu que, respeitada a justa remuneração dos funcionários dos tribunais, se assegure quanto possível a gratuidade dos processos. Em geral há redução para os pobres.

Traição é causa de nulidade matrimonial?

Não por si mesma. O adultério depois do casamento não desfaz um vínculo válido. Só tem peso como indício, se mostrar que a fidelidade já era excluída no momento do consentimento, o que configura simulação (cân. 1101).

Quem tem nulidade matrimonial pode casar de novo?

Sim. Quando a sentença se torna executiva, as partes podem contrair novo matrimônio na Igreja, salvo se o tribunal ou o bispo tiver imposto uma proibição (cân. 1682 §1). As obrigações com os filhos da união anterior continuam.

Quanto tempo demora a nulidade matrimonial?

O Código pede que a causa não passe de um ano na primeira instância e de seis meses na segunda (cân. 1453). O processo mais breve diante do bispo, criado em 2015, é mais rápido, mas só vale para casos evidentes, pedidos pelos dois cônjuges ou por um com o consentimento do outro.

A nulidade não é um atalho para quem se cansou do casamento, nem uma porta fechada para quem sofreu. É a Igreja dizendo a verdade sobre um vínculo, com respeito à palavra de Cristo e à dignidade das pessoas.