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Apresentação do Senhor: a festa de 2 de fevereiro e as candeias

Maria apresenta o Menino Jesus ao sacerdote no Templo, com José ao fundo, na pintura de Mantegna

Quarenta dias depois do Natal, a Igreja volta ao Menino Jesus, agora nos braços de um velho no Templo de Jerusalém. A Apresentação do Senhor, celebrada em 2 de fevereiro, é a festa das velas acesas, de Simeão e de Ana, e o povo a conhece também como Candelária ou dia de Nossa Senhora das Candeias.

Veja o que conta o Evangelho, o sentido da festa e a origem da bênção das velas.

Resposta rápida

O que se celebra no dia 2 de fevereiro?

Maria e José levaram Jesus ao Templo, quarenta dias após o nascimento, para cumprir a Lei de Moisés (Lc 2,22-40). Ali o velho Simeão e a profetisa Ana reconheceram nele o Messias, “luz para iluminar as nações”. Por isso a Missa começa com a bênção das velas e uma procissão.

O que aconteceu no Templo (Lc 2,22-40)

São Lucas junta duas leis. Todo primogênito devia ser consagrado a Deus (Ex 13,2.12), e a mãe, quarenta dias depois de dar à luz um menino, oferecia um sacrifício de purificação (Lv 12,2-8).

A Lei previa um cordeiro e uma pomba ou rola, mas permitia aos pobres oferecer só “um par de rolas ou dois pombinhos” (Lc 2,24). A Sagrada Família entra no Templo com a oferta dos pobres, a pobreza que Jesus chamará feliz nas bem-aventuranças de Jesus.

Interior do Templo de Jerusalém com Simeão, Ana, Maria e José na Apresentação de Jesus
Apresentação de Jesus no Templo, de Ambrogio Lorenzetti (1342), Galleria degli Uffizi, Florença. Imagem: Ambrogio Lorenzetti, domínio público, via Wikimedia Commons

Maria e o Filho de Deus não precisavam desse rito, mas se submetem à Lei por obediência. “Primogênito” não indica outros filhos, como explica a resposta sobre Jesus, o primogênito de Maria.

Personagem ou ritoO que aconteceTexto
Consagração do primogênitoJesus é apresentado ao Senhor no TemploLc 2,22-23; Ex 13,2.12
Purificação da mãeOferta de duas rolas ou dois pombinhos, a oferta dos pobresLc 2,24; Lv 12,2-8
SimeãoToma o Menino nos braços, bendiz a Deus e profetiza a MariaLc 2,25-35
Ana, a profetisaLouva a Deus e fala do Menino a quem esperava a libertaçãoLc 2,36-38
A Apresentação em Lucas 2: quem aparece e o que acontece

Simeão e o Nunc dimittis

Simeão era “justo e piedoso” e o Espírito Santo lhe prometera que não morreria antes de ver o Messias. No Templo, tomou o Menino nos braços e bendisse a Deus. No texto do Lecionário publicado pelo Vatican News:

“Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar teu servo partir em paz; porque meus olhos viram a tua salvação, que preparaste diante de todos os povos: luz para iluminar as nações e glória do teu povo Israel” (Lc 2,29-32).

Simeão ajoelhado segura o Menino Jesus e canta o Nunc dimittis diante de Maria e José
O cântico de Simeão, de Rembrandt (1631), Mauritshuis, Haia. Imagem: Rembrandt, domínio público, via Wikimedia Commons

É o cântico chamado Nunc dimittis, das suas primeiras palavras em latim. A Igreja o reza todas as noites nas Completas, a última hora da Liturgia das Horas.

A espada que traspassa a alma

Depois Simeão se volta para Maria: o Menino será “sinal de contradição”, e “quanto a ti, uma espada te traspassará a alma” (Lc 2,34-35). A tradição conta essa profecia como a primeira das sete dores da Virgem, meditadas na devoção a Nossa Senhora das Dores.

Ana, a profetisa

A profetisa Ana ergue as mãos enquanto Simeão segura Jesus, com Maria e José ajoelhados
Simeão e Ana no Templo, de Rembrandt (1627), Kunsthalle, Hamburgo. Imagem: Rembrandt, domínio público, via Wikimedia Commons

Ana, filha de Fanuel, viúva de oitenta e quatro anos, não saía do Templo, servindo a Deus com jejuns e orações. Ela louvou a Deus e falou do Menino a todos os que esperavam a libertação de Jerusalém (Lc 2,36-38).

O sentido da festa: o encontro

O Catecismo ensina que a Apresentação mostra Jesus como o primogênito que pertence ao Senhor, e que em Simeão e Ana é toda a espera de Israel que vem ao encontro do seu Salvador (CIC §529, no capítulo sobre os mistérios da vida de Cristo). Por isso o Oriente chama a festa de Hypapante, o Encontro, e a luz das nações completa a Epifania do Senhor.

Ícone russo do Encontro (Hypapante): Simeão recebe o Menino das mãos de Maria, com José e Ana
Ícone do Encontro do Senhor, oficina de Andrei Rublev (c. 1408), Museu Russo, São Petersburgo. Imagem: Oficina de Andrei Rublev, domínio público, via Wikimedia Commons
NomeOrigemOnde se usa
Apresentação do SenhorLc 2,22: levaram o Menino “a fim de apresentá-lo ao Senhor”Calendário romano atual
Purificação de Nossa SenhoraO rito de Lv 12 cumprido por MariaNome antigo no Ocidente, até a reforma do calendário de 1969
Hypapante (Encontro)O encontro de Cristo com Simeão e AnaIgrejas do Oriente
Candelária, Candeias, LuzA bênção das velas e a procissãoUso popular em Portugal, no Brasil e na Espanha
Os nomes da festa de 2 de fevereiro e de onde vêm

A festa de 2 de fevereiro na liturgia

A data cai quarenta dias depois de 25 de dezembro, cuja escolha está explicada na origem do Natal. É uma festa do Senhor, com a cor litúrgica branca, e quando cai num domingo toma o lugar dele. Em 2027 será numa terça-feira.

Não é dia de preceito no Brasil: a Missa é muito recomendada, mas não obrigatória, como mostra a lista dos dias santos de guarda. O seu lugar no calendário aparece no ano litúrgico católico.

A festa é antiga. A Catholic Encyclopedia, no verbete sobre a Candelária, a encontra em Jerusalém no século IV, no relato da peregrina Egéria, e registra que o papa Sérgio I (687-701) introduziu uma procissão para esse dia em Roma.

Afresco da Apresentação de Jesus pintado para a cela de um frade, ligado à vida consagrada
Apresentação no Templo, afresco de Fra Angelico na cela 10 do convento de San Marco, Florença (c. 1440). Imagem: Fra Angelico, domínio público, via Wikimedia Commons

Desde 1997 o 2 de fevereiro é também o Dia da Vida Consagrada, instituído por São João Paulo II na sua mensagem para o primeiro Dia da Vida Consagrada. A cena é o quarto mistério gozoso; veja a diferença entre terço e rosário.

Por que se benzem velas: Candelária e Candeias

Imagem da Virgem das Candeias com o Menino e uma vela na mão, levada em procissão
Procissão da Virgem das Candelas em San Fernando de Henares, Espanha (2010). Imagem: Juperega, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Se Cristo é a “luz para iluminar as nações”, nada mais natural que acolhê-lo com luzes. A Missa do dia começa com a bênção das velas, quando possível num lugar fora da igreja, e a procissão entra cantando, como Simeão e Ana ao encontro do Senhor. Daí vêm os nomes Candelária, Nossa Senhora das Candeias e Nossa Senhora da Luz.

As velas bentas são sacramentais: muitas famílias as levam para casa e as acendem na oração, nas tempestades e junto dos doentes e moribundos. Quem acusa o uso de velas de costume pagão encontra a resposta em por que a Igreja usa velas.

No Brasil, a devoção a Nossa Senhora das Candeias é forte na Bahia e em outras regiões, com igrejas, festas e procissões. Ela honra a Mãe que leva ao Templo a verdadeira Luz, Jesus, e não tem nada a ver com as celebrações afro-brasileiras que caem na mesma data por causa do sincretismo. Essa mistura não é devoção católica, e a Igreja não a reconhece como culto a Nossa Senhora.

Maria aparece nesta festa como a mãe que oferece o Filho, o mesmo Filho que recebeu na Anunciação do anjo a Maria. Para conhecer melhor o seu papel, veja quem é Maria, mãe de Jesus.

O que se comemora em 2 de fevereiro?

Comemora-se a Apresentação do Senhor: Maria e José levaram Jesus ao Templo quarenta dias depois do nascimento, conforme a Lei (Lc 2,22-40). Ali Simeão e Ana reconheceram o Messias. A Missa começa com a bênção das velas e uma procissão.

A Apresentação do Senhor é dia de preceito?

Não. No Brasil a festa de 2 de fevereiro não é dia santo de guarda, por isso a participação na Missa é recomendada, mas não obrigatória. Quando a data cai num domingo, a festa substitui a liturgia dominical, e a Missa é obrigatória por ser domingo.

Por que se benzem velas no dia 2 de fevereiro?

Porque Simeão chamou o Menino de “luz para iluminar as nações” (Lc 2,32). As velas acesas lembram Cristo, a luz do mundo, que entra no Templo. Bentas, elas são sacramentais: os fiéis as levam para casa e as acendem na oração, nas tempestades e junto dos doentes.

Quem foi Simeão?

Um homem justo e piedoso de Jerusalém. O Espírito Santo lhe revelou que não morreria antes de ver o Messias. Ao tomar Jesus nos braços, rezou o cântico Nunc dimittis e anunciou a Maria que uma espada lhe traspassaria a alma (Lc 2,25-35).

O que é Nossa Senhora das Candeias?

É um título de Maria ligado à festa de 2 de fevereiro, quando se benzem as velas, ou candeias. Honra a Virgem que leva ao Templo Jesus, a verdadeira luz. Também se diz Nossa Senhora da Candelária ou da Luz.

A festa das velas é, no fundo, um convite: deixar que Cristo entre no templo de cada vida, como entrou no de Jerusalém. Quem o recebe pode dizer com Simeão que os seus olhos já viram a salvação, e caminhar em paz, levando essa luz a quem ainda vive na escuridão.