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Bem-aventuranças de Jesus: o que significam as oito promessas

Afresco de Fra Angelico: Jesus sentado no monte ensina as bem-aventuranças aos apóstolos

Jesus sobe a montanha, senta-se e chama de felizes os pobres, os que choram e os perseguidos. As bem-aventuranças de Jesus abrem o Sermão da Montanha (Mt 5 a 7) e resumem o caminho do cristão.

Veja o texto, o sentido de cada uma e o que a Igreja ensina.

Resposta rápida

Quais são as bem-aventuranças de Jesus?

São oito promessas de felicidade que abrem o Sermão da Montanha, em Mateus 5,3-10: felizes os pobres em espírito, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os que promovem a paz e os perseguidos por causa da justiça. Os versículos 11-12 aplicam a última aos discípulos.

O texto das bem-aventuranças (Mt 5,3-12)

Texto da Bíblia Ave-Maria, tradução católica muito usada no Brasil, que verte “pobres em espírito” por “os que têm um coração de pobre”.

  1. Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos Céus! (v. 3)
  2. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados! (v. 4)
  3. Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra! (v. 5)
  4. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados! (v. 6)
  5. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia! (v. 7)
  6. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus! (v. 8)
  7. Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus! (v. 9)
  8. Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus! (v. 10)
  9. Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós. (v. 11-12)
Jesus prega à multidão no monte, cena do Sermão da Montanha na Capela Sistina
Sermão da Montanha e cura do leproso, de Cosimo Rosselli e Piero di Cosimo, Capela Sistina (1481-1482). Imagem: Cosimo Rosselli e Piero di Cosimo, domínio público, via Wikimedia Commons

A nona não traz promessa nova: aplica a oitava aos discípulos, com “vós” e “por causa de mim”.

O que significa “bem-aventurado”

O grego diz makárioi, e o latim, beati: felizes. Não é um desejo, mas uma declaração: essas pessoas já estão no caminho da felicidade verdadeira.

Para o Catecismo, elas estão no coração da pregação de Jesus e retomam as promessas feitas desde Abraão, orientando-as para o Reino dos céus (CIC §1716). Retratam o rosto de Cristo e respondem ao desejo natural de felicidade (CIC §1717-1718). Leia o texto do Catecismo sobre as bem-aventuranças no site do Vaticano ou o capítulo sobre a dignidade da pessoa humana e a vocação à bem-aventurança.

Bem-aventurançaPromessaSentido
Pobres em espíritoO Reino dos CéusHumildade: tudo esperar de Deus
Os que choramConsolaçãoDor pelo pecado e pelo mal
MansosPossuir a terraForça sem violência nem rancor
Fome e sede de justiçaSaciedadeDesejo de santidade
MisericordiososAlcançar misericórdiaPerdoar e socorrer quem sofre
Puros de coraçãoVer a DeusCoração sem divisão
PacíficosSer chamados filhos de DeusConstruir a paz e reconciliar
Perseguidos pela justiçaO Reino dos CéusFidelidade a Cristo até o fim
As oito bem-aventuranças: promessa e sentido de cada uma

Uma por uma: sentido, um santo e como viver hoje

Elas já estão inauguradas na vida da Virgem Maria e dos santos (CIC §1717). Maria, a humilde serva da Anunciação do anjo a Maria, é o primeiro modelo.

São Francisco de Assis desposa a Senhora Pobreza, imagem da pobreza em espírito
Casamento místico de São Francisco com a Senhora Pobreza, de Sassetta (c. 1437-1444), Museu Condé, Chantilly. Imagem: Sassetta, domínio público, via Wikimedia Commons

1. Pobres em espírito

É quem não põe a confiança em si nem nos bens, mas em Deus. São Francisco de Assis abraçou a pobreza por amor a Cristo. Hoje: partilhar, lembrando os pobres na Bíblia.

2. Os que choram

É o pranto de quem sofre pelo pecado e pelo mal. Santa Mônica chorou e rezou anos pela conversão do filho, Agostinho. Hoje: levar as dores a Deus na oração.

3. Mansos

Manso não é fraco: é forte sem ser violento. São Francisco de Sales tratava com doçura até os adversários. Hoje: responder à ofensa sem rancor.

4. Fome e sede de justiça

É desejar a santidade como quem deseja pão e água. São Pedro Claver dedicou a vida aos africanos escravizados em Cartagena. Hoje: não se acomodar diante da injustiça.

Dar de comer a quem tem fome: obra de misericórdia vivida pelos misericordiosos
Dar de comer a quem tem fome, painel das Sete Obras de Misericórdia do Mestre de Alkmaar (1504), Rijksmuseum. Imagem: Mestre de Alkmaar, domínio público, via Wikimedia Commons

5. Misericordiosos

Quem perdoa e socorre recebe misericórdia. Santa Dulce dos Pobres acolheu doentes que ninguém queria. Hoje: viver as obras de misericórdia corporais e espirituais.

6. Puros de coração

Puro é o coração sem divisão, que busca só a Deus (CIC §1720). Santa Maria Goretti preferiu morrer a pecar, e perdoou o agressor. Hoje: guardar o olhar.

7. Pacíficos

São os que promovem a paz. Santa Isabel de Portugal reconciliou o marido e o filho em guerra. Hoje: reconciliar em casa.

8. Perseguidos por causa da justiça

É a fidelidade que custa caro. São Maximiliano Kolbe deu a vida no lugar de um pai de família em Auschwitz. Hoje: não esconder a fé.

Por isso elas são o Evangelho do Dia de Todos os Santos.

Mateus e Lucas: o monte e a planície

Lucas traz uma versão mais curta, no chamado “sermão da planície”: Jesus desce com os discípulos, para numa planície e fala a uma grande multidão (Lc 6,17-26). São quatro bem-aventuranças e quatro “ai de vós”, contra ricos, fartos, os que riem e os louvados por todos.

Grande multidão reunida para ouvir Jesus, como no sermão narrado por Mateus e Lucas
Sermão da Montanha, de Jan Brueghel, o Velho (1598), J. Paul Getty Museum. Imagem: Jan Brueghel, o Velho, domínio público, via Wikimedia Commons
EvangelhoQuantasContextoTraço próprio
Mateus 5,3-12Oito, mais a aplicação aos discípulosNo monteAtitude interior: “pobres em espírito”
Lucas 6,20-26Quatro, mais quatro “ai de vós”Numa planícieSegunda pessoa; pobreza e fome reais
Bem-aventuranças em Mateus e em Lucas: o que muda

Onde Jesus pregou: o Monte das Bem-aventuranças

A tradição situa o sermão numa colina na margem noroeste do Mar da Galileia, perto de Cafarnaum. Ali está a Igreja das Bem-aventuranças, projetada pelo arquiteto Antonio Barluzzi e concluída em 1938. Sua planta octogonal lembra as oito bem-aventuranças.

Igreja das Bem-aventuranças, no monte junto ao Mar da Galileia onde a tradição situa o sermão
Igreja das Bem-aventuranças, de Antonio Barluzzi, no Monte das Bem-aventuranças, Galileia. Imagem: Fallaner, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Bem-aventuranças, Mandamentos e dons do Espírito Santo

Santo Agostinho em seu estúdio, o Padre que ligou as bem-aventuranças aos dons do Espírito
Santo Agostinho em seu estúdio, afresco de Sandro Botticelli (c. 1480), igreja de Ognissanti, Florença. Imagem: Sandro Botticelli, domínio público, via Wikimedia Commons

Jesus não veio abolir a Lei, mas levá-la à perfeição (Mt 5,17). Para o Catecismo, a Lei nova “cumpre” a antiga: nas bem-aventuranças, eleva as promessas divinas e as ordena para o Reino (CIC §1965-1967). Os Dez Mandamentos no Catecismo continuam valendo; as bem-aventuranças mostram até onde o amor quer chegar. Quem meditar o Sermão da Montanha, diz Santo Agostinho citado pelo Catecismo, “nele encontrará, sem dúvida alguma, a carta perfeita da vida cristã” (CIC §1966).

Santo Agostinho, no comentário O Sermão do Senhor na montanha (livro I, cap. 4), relacionou as bem-aventuranças com os sete dons do Espírito Santo, em ordem ascendente: o temor de Deus corresponde aos pobres em espírito; a piedade, aos mansos; a ciência, aos que choram; a fortaleza, aos que têm fome de justiça; o conselho, aos misericordiosos; o entendimento, aos puros de coração; e a sabedoria, aos pacíficos.

E as bem-aventuranças no espiritismo?

Allan Kardec releu as máximas morais do Evangelho em O Evangelho segundo o Espiritismo (1864), e muitos espíritas citam as bem-aventuranças. Mas, lidas fora da fé da Igreja, perdem o sentido: Jesus promete o Reino dos Céus e a visão de Deus na vida eterna, não reencarnação. A diferença está em espiritismo x catolicismo.

Quais são as bem-aventuranças de Jesus?

São oito: os pobres em espírito, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os pacíficos e os perseguidos por causa da justiça (Mt 5,3-10). Os versículos 11-12 aplicam a última aos discípulos.

O que significam as bem-aventuranças?

Que a felicidade verdadeira vem de Deus e do seu Reino, não da riqueza ou da fama. Segundo o Catecismo, elas retratam o rosto de Cristo e respondem ao desejo de felicidade que Deus pôs no coração humano (CIC §1716-1719).

Qual a diferença entre as bem-aventuranças de Mateus e de Lucas?

Mateus traz oito, ditas no monte, e acentua a atitude interior (“pobres em espírito”). Lucas traz quatro, ditas numa planície, com a pobreza e a fome concretas e quatro “ai de vós”. As duas versões não se contradizem: completam-se, mostrando o coração do discípulo e a sua vida concreta.

O que significa pobres em espírito?

São os humildes, que não confiam em si nem nos bens, mas tudo esperam de Deus. Não é elogio da miséria. Santo Agostinho os via como os que não se enchem de orgulho e ligava esta bem-aventurança ao dom do temor de Deus, princípio da sabedoria.

As bem-aventuranças não são um ideal para poucos, mas o retrato de todo discípulo. Ninguém as vive só com as próprias forças: é a graça de Cristo, recebida na oração e nos sacramentos, que as torna possíveis. Quem as vive começa já aqui a felicidade que só se completa no Céu.