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Estigmas de Cristo: o que são, quem os recebeu e o que a Igreja diz

São Francisco de Assis recebe os estigmas do serafim crucificado no Monte Alverne, afresco de Giotto

Desde o século XIII, alguns homens e mulheres de oração trazem no corpo feridas semelhantes às de Jesus crucificado. São os estigmas de Cristo: chagas nas mãos, nos pés, no lado ou na fronte, às vezes visíveis, às vezes só sentidas como dor.

Veja o que são, quem os recebeu, como a Igreja examina cada caso e por que ela pede prudência.

Resposta rápida

O que são os estigmas de Cristo?

São feridas ou dores que reproduzem as chagas da Paixão de Jesus em algumas pessoas de vida mística. O primeiro caso conhecido é o de São Francisco de Assis, em 1224. A Igreja examina cada caso com rigor médico e espiritual, não considera os estigmas prova de santidade e não obriga nenhum fiel a crer neles.

O que são os estigmas: visíveis e invisíveis

A palavra vem do grego stigma, marca. Estigmas são as cinco chagas do Crucificado (mãos, pés e lado) e, às vezes, as feridas da coroa de espinhos ou dos açoites.

Cristo crucificado com as cinco chagas nas mãos, nos pés e no lado, que os estigmas reproduzem
Cristo crucificado, de Francisco de Zurbarán (1627), Art Institute of Chicago. Imagem: Francisco de Zurbarán, domínio público, via Wikimedia Commons

A Catholic Encyclopedia, no verbete sobre os estigmas místicos, distingue dois tipos. Os visíveis aparecem na pele e às vezes sangram, sobretudo às quintas e sextas-feiras. Os invisíveis são só a dor, sem marca exterior.

O essencial, diz o verbete, é o sofrimento vivido com sentido cristão, unido ao de Cristo pela salvação das almas.

As marcas de Jesus no corpo de Paulo (Gl 6,17)

São Paulo pede que ninguém mais o perturbe, porque traz no corpo “as marcas de Jesus” (Gl 6,17). No grego, “marcas” é justamente stigmata, o sinal gravado no escravo ou no soldado, que mostrava a quem pertenciam.

São Paulo na prisão, o apóstolo que diz trazer no corpo as marcas de Jesus (Gl 6,17)
São Paulo na prisão, de Rembrandt (1627), Staatsgalerie, Stuttgart. Imagem: José Luiz Bernardes Ribeiro (foto); Rembrandt (pintura), CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Os comentadores entendem, em geral, que Paulo fala das cicatrizes dos açoites e da pedrada que sofreu pelo Evangelho (2Cor 11,24-25). Não são chagas místicas, mas o princípio é o mesmo: o corpo do apóstolo mostra que ele pertence a Cristo (veja o Santo do Dia de São Pedro e São Paulo).

São Francisco no Monte Alverne, 1224

No começo de agosto de 1224, São Francisco de Assis subiu ao Monte Alverne, na Toscana, para uma quaresma de jejum em honra de São Miguel. Por volta da festa da Exaltação da Santa Cruz (14 de setembro), viu um serafim crucificado, e depois da visão apareceram em seu corpo as cinco chagas.

São Francisco recebe os estigmas nas rochas do Alverne, com Frei Leão sentado ao seu lado
São Francisco de Assis recebe os estigmas, de Jan van Eyck (c. 1430), Galleria Sabauda, Turim. Imagem: Jan van Eyck, domínio público, via Wikimedia Commons

Frei Leão, que estava com ele, deixou um relato na folha com a bênção autógrafa do santo, guardada em Assis. Tomás de Celano e São Boaventura descreveram as chagas: nas mãos e nos pés, excrescências de carne em forma de cravos; no lado, uma ferida aberta. Os franciscanos celebram a impressão dos estigmas em 17 de setembro.

Quem recebeu os estigmas

Não há lista oficial. No século XIX, o médico francês Imbert-Gourbeyre contou 321 estigmatizados nos quais via sinais de ação divina, dos quais 62 santos ou beatos, e nenhum antes de São Francisco.

SantoAnoTipoObservação
São Francisco de Assis1224VisíveisMonte Alverne; primeiro caso conhecido
Santa Catarina de Sena1375InvisíveisEm Pisa; pediu que ficassem ocultos
Santa Rita de CássiaSéculo XVFerida na fronteUm espinho da coroa do crucifixo
Santa Catarina de RicciA partir de 1542Êxtases da PaixãoSemanais por doze anos, segundo a bula de canonização
Santa Verônica Giuliani1694 e 1697Coroa de espinhos e cinco chagasExaminada com rigor pelo seu bispo
Santa Gema Galgani1899Visíveis e periódicosSumiram por obediência ao diretor
São Pio de Pietrelcina1918VisíveisPor cerca de cinquenta anos
Santos que receberam os estigmas: os casos mais conhecidos

Santa Catarina de Sena, doutora da Igreja e terceira dos dominicanos, recebeu os estigmas em Pisa, segundo o seu confessor, o beato Raimundo de Cápua.

Santa Catarina de Sena recebe os estigmas diante do crucifixo, em êxtase com os braços erguidos
Santa Catarina de Sena recebe os estigmas, de Giovanni di Paolo (c. 1447 a 1465), Metropolitan Museum of Art. Imagem: Giovanni di Paolo, CC0, via Wikimedia Commons

Santa Rita de Cássia, monja da família descrita em quem são os agostinianos, trazia na fronte a ferida de um espinho. Santa Gema Galgani recebeu os estigmas em Lucca, em 8 de junho de 1899, segundo a biografia do seu diretor espiritual.

O caso mais estudado do século XX é o de São Padre Pio e os seus milagres. As chagas apareceram em setembro de 1918 e ficaram até pouco antes da sua morte, em 1968. Segundo a biografia oficial do Vaticano, ele as suportou “com serenidade admirável”.

O sentido espiritual: unidos à Paixão

Capela dos Sagrados Estigmas no Alverne, com a Crucifixão de Andrea della Robbia: a união com a Paixão
Capela dos Estigmas, Santuário do Alverne, com a Crucifixão de Andrea della Robbia (c. 1481). Imagem: Anna.Massini, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons

São Paulo diz que completa na própria carne “o que falta às tribulações de Cristo” em favor do seu Corpo, que é a Igreja (Cl 1,24). Os estigmatizados viveram isso de modo visível, oferecendo a dor pela conversão dos pecadores, como lembra o texto sobre a Missa celebrada por Padre Pio.

Todos são chamados a levar as marcas de Jesus, não na pele, mas na vida. Rezar as estações da Via Sacra, contemplar o crucifixo, que mostra Cristo com as chagas, ou fazer uma Hora Santa diante do Santíssimo são modos de unir as próprias cruzes às de Cristo.

Como a Igreja examina um caso

Fraude, autolesão e histeria são possibilidades reais, e por isso cada caso passa por médicos e teólogos. Padre Pio aceitou com humildade as investigações e as restrições impostas ao seu ministério.

Papa Bento XIV, autor da obra clássica sobre canonização que trata do exame dos estigmas
Retrato do Papa Bento XIV, de Giuseppe Maria Crespi (1740), Pinacoteca Vaticana. Imagem: Giuseppe Maria Crespi, domínio público, via Wikimedia Commons
CritérioO que se examinaPor quê
Exame médicoOrigem das feridas, reação a remédios, infecçãoExcluir causa natural ou provocada
VigilânciaObservação contínua, curativos seladosEvitar autolesão consciente ou inconsciente
Vida de virtudeHumildade, caridade, oraçãoSem santidade, a ferida nada prova
ObediênciaSubmissão aos superiores e às investigaçõesSinal de bom espírito
DiscriçãoSe a pessoa esconde o dom ou busca famaExibicionismo leva ao orgulho
FrutosConversões, confissões, vida sacramental“Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7,16)
Como a Igreja discerne um caso de estigmas

O Papa Bento XIV, mestre das causas dos santos, tratou dos estigmas em sua obra sobre a canonização. A Catholic Encyclopedia resume: nos processos de canonização, os estigmas não contam como milagres incontestáveis. O santo é canonizado pelas virtudes heroicas e pelos milagres obtidos por sua intercessão (veja como a Igreja canoniza os santos).

Com Padre Pio foi assim: os milagres aprovados para a beatificação (1999) e a canonização (2002) foram duas curas, não as chagas. E a imensa maioria dos santos nunca teve estigmas.

Prudência: nenhum fiel é obrigado a crer

Estigmas são fenômenos místicos ligados a pessoas, como as revelações particulares. O Catecismo ensina que estas “não pertencem ao depósito da fé” e não completam a Revelação de Cristo (CIC §67, na parte do Catecismo sobre a transmissão da Revelação). Um católico pode venerar São Francisco sem opinar sobre a natureza exata das suas chagas.

A mesma prudência vale para outros sinais extraordinários, como os corpos incorruptos de santos. Eles chamam a atenção, mas a fé se apoia em Cristo, nos sacramentos e na Palavra de Deus.

O que são os estigmas de Cristo?

São feridas ou dores que reproduzem as chagas da Paixão de Jesus: nas mãos, nos pés, no lado e, às vezes, na fronte. Podem ser visíveis, com marcas na pele, ou invisíveis, só com a dor. São fenômenos místicos raros, que a Igreja examina com cautela.

Quem recebeu os estigmas de Cristo?

O primeiro caso conhecido é São Francisco de Assis, em 1224. Depois vieram Santa Catarina de Sena, Santa Catarina de Ricci, Santa Verônica Giuliani, Santa Gema Galgani e São Pio de Pietrelcina. Santa Rita de Cássia trazia na fronte a ferida de um espinho.

Quantos santos tiveram estigmas?

Não existe contagem oficial. O médico francês Imbert-Gourbeyre, no século XIX, contou 321 estigmatizados nos quais via sinais de ação divina, entre eles 62 santos ou beatos, segundo a Catholic Encyclopedia de 1912. Nenhum caso é anterior a São Francisco.

Os estigmas do Padre Pio eram verdadeiros?

Padre Pio foi examinado por médicos e investigado pela Santa Sé, que chegou a restringir seu ministério; ele obedeceu sempre. A Igreja o canonizou em 2002 por suas virtudes heroicas e por milagres de cura, não por causa das chagas. Paulo VI disse que ele era “a imagem impressa dos estigmas de Nosso Senhor”.

O que significa Gl 6,17?

Em Gl 6,17 São Paulo diz que traz no corpo “as marcas de Jesus”. A palavra grega é stigmata, o sinal que mostrava a quem pertencia um escravo ou soldado. Paulo fala das cicatrizes das perseguições sofridas pelo Evangelho: seu corpo mostra que ele pertence a Cristo.

Onde a Igreja reconheceu santidade, os estigmas foram uma cruz carregada em silêncio e por amor, que aponta para Aquele que foi ferido por nós.