Todo 13 de dezembro, igrejas do Brasil inteiro se enchem de fiéis que pedem pela saúde dos olhos. Mas quem foi Santa Luzia, de fato? Uma jovem cristã de Siracusa, na Sicília, que deu a vida por Cristo na última grande perseguição do Império Romano.
Veja o que é história, o que é lenda piedosa e por que a Igreja a venera desde os primeiros séculos.
Resposta rápida
Quem foi Santa Luzia?
Santa Luzia foi uma virgem cristã de Siracusa, na Sicília, martirizada por volta de 304, na perseguição de Diocleciano. Segundo a tradição, consagrou a virgindade a Deus, deu seus bens aos pobres e foi morta pela espada. Seu nome vem de lux, luz, e por isso é invocada como protetora dos olhos. A festa é em 13 de dezembro.
O que a história garante
A Catholic Encyclopedia, no verbete sobre Santa Luzia, resume: o lugar e o tempo da morte “dificilmente podem ser questionados”. Luzia morreu em Siracusa durante a perseguição de Diocleciano, em 304 segundo a maioria das fontes (a enciclopédia indica 303).

O culto é antiquíssimo. A prova mais antiga é a lápide de Euskia, uma jovem de 25 anos morta no dia da festa de Luzia, encontrada nas catacumbas de São João, em Siracusa, e datada do fim do século IV ou início do V.
No século VI, Luzia já tinha orações próprias no Sacramentário de São Gregório Magno. Seu nome entrou no Cânon Romano, a oração eucarística mais antiga da liturgia latina.
A vida de Santa Luzia segundo a tradição
Os detalhes da vida vêm das Atas do martírio, escritas provavelmente no século V. A própria Catholic Encyclopedia adverte que não podem ser aceitas sem crítica. Segundo a tradição:
- A peregrinação: filha de família rica, Luzia leva a mãe, Eutíquia, doente havia anos, ao túmulo de Santa Ágata, em Catânia.
- A cura e a esmola: a mãe é curada, e Luzia obtém licença para distribuir grande parte do seu dote aos pobres.
- A denúncia: o noivo a quem fora prometida contra a vontade, irritado, acusa-a de ser cristã diante do governador Pascásio.
- O martírio: condenada a ser levada a um prostíbulo, ninguém consegue arrastá-la; o fogo ateado ao seu redor não a consome; por fim, morre pela espada.

Lorenzo Lotto pintou os homens que não conseguem movê-la. Caravaggio pintou em 1608 o sepultamento da mártir, para a igreja de Santa Lucia al Sepolcro, em Siracusa.

| Dado | O que se sabe | Fonte |
|---|---|---|
| Lugar e data da morte | Siracusa, por volta de 304, sob Diocleciano | Tradição unânime, aceita pelos historiadores |
| Culto antigo | Lápide de Euskia, fim do século IV ou início do V | Catacumbas de São João, Siracusa |
| Nome no Cânon Romano | Citada entre os mártires da Oração Eucarística I | Liturgia romana |
| Peregrinação a Catânia e cura da mãe | Narrativa piedosa, sem outra prova | Atas do século V |
| Olhos arrancados | Ausente das narrativas antigas até pelo menos o século XV | Lendas tardias e arte |
Por que Santa Luzia é protetora dos olhos
O nome Lúcia, em português Luzia, tem a mesma raiz de lux, luz em latim. Daí nasceu a ligação com a visão e o patrocínio sobre os cegos e os doentes dos olhos. A história de que lhe arrancaram os olhos não aparece nas narrativas antigas: surge tarde, por volta do século XV, e se fixou sobretudo na arte, que passou a mostrá-la com dois olhos num prato.
O fiel que pede a cura dos olhos não trata Luzia como amuleto: pede a intercessão de quem já está com Deus, prática que tem base bíblica, como mostra a resposta sobre a intercessão dos santos na Bíblia.
Santa Luzia no Cânon Romano
Na Oração Eucarística I, depois da consagração, o sacerdote pede a companhia dos mártires, entre eles Felicidade, Perpétua, Águeda, Luzia, Inês, Cecília e Anastácia. É o momento descrito nas partes da Missa como a grande oração eucarística. Perpétua e Felicidade, mártires de Cartago, têm a sua história em Santa Perpétua e Santa Felicidade.

| Santa | Cidade do martírio | Lembrada em |
|---|---|---|
| Santa Águeda ou Ágata | Catânia, Sicília | 5 de fevereiro |
| Santa Luzia | Siracusa, Sicília | 13 de dezembro |
| Santa Inês | Roma | 21 de janeiro |
| Santa Cecília | Roma | 22 de novembro |
Relíquias e devoção pelo mundo
Na conquista de Constantinopla, em 1204, relíquias atribuídas a Luzia foram levadas para Veneza. Quando a igreja de Santa Lucia foi demolida, em 1861, para dar lugar à estação ferroviária, o corpo passou para a igreja de San Geremia, onde está até hoje. O sentido católico desse culto está explicado na resposta sobre a veneração de imagens e relíquias.

Em Siracusa, de quem é padroeira, uma estátua de prata com relíquias sai em procissão em 13 de dezembro. Os cristãos do Oriente também a celebram nesse dia, inclusive no rito bizantino das Igrejas católicas orientais.

Na Suécia e em outros países nórdicos, meninas vestidas de branco, com faixa vermelha e coroa de velas, encenam a “portadora da luz” no inverno escuro. No Brasil, Luzia é padroeira de cidades como Mossoró (RN), cuja catedral leva o seu nome, numa piedade popular comparável à do Círio de Nazaré.
Dante a pôs na Divina Comédia: no canto II do Inferno, Luzia é enviada pela Virgem a Beatriz para socorrer o poeta; no canto XXXII do Paraíso, está sentada na rosa dos bem-aventurados. Outro trecho do poema é discutido em Dante, a Divina Comédia e a Igreja.
O dia de Santa Luzia: 13 de dezembro
A memória cai no tempo do Advento. No calendário juliano da Idade Média, o 13 de dezembro coincidia com o dia mais curto do ano, e a festa da “santa da luz” virou festa de luz na escuridão.
Em 2026, o dia 13 de dezembro é o terceiro domingo do Advento. Pelas Normas Universais do Ano Litúrgico, os domingos do Advento têm precedência sobre as memórias, e por isso a memória de Santa Luzia não é celebrada na Missa nesse ano. A ordem das celebrações é explicada em ano litúrgico católico.
Santa Luzia não está na Bíblia: viveu cerca de 270 anos depois de Cristo, e a Igreja a conhece pela tradição e pelos documentos antigos. Os santos chegam aos altares pelo caminho descrito em a canonização dos santos. Já a figura que alguns cultos afro-brasileiros associam ao seu nome não é a devoção católica à mártir de Siracusa.
Qual a história de Santa Luzia?
Segundo a tradição, Luzia era uma jovem rica de Siracusa que consagrou a virgindade a Deus. Depois que sua mãe foi curada no túmulo de Santa Ágata, deu seus bens aos pobres. Denunciada como cristã pelo noivo rejeitado, resistiu ao prostíbulo e ao fogo e morreu pela espada, por volta de 304.
Por que Santa Luzia é protetora dos olhos?
Porque o seu nome vem do latim lux, luz, e a piedade popular ligou a luz à visão. Mais tarde, a partir do século XV, surgiu a lenda dos olhos arrancados, que a arte difundiu com a imagem dos olhos num prato. Por isso é padroeira dos cegos e de quem sofre da vista.
Quando é o dia de Santa Luzia?
Em 13 de dezembro, data da sua memória no calendário da Igreja. Em 2026 o dia cai no terceiro domingo do Advento, que tem precedência, e por isso a memória não é celebrada na Missa naquele ano. Em 2027, 13 de dezembro é uma segunda-feira.
Como Santa Luzia morreu?
Segundo as Atas do martírio, o governador Pascásio tentou levá-la a um prostíbulo, mas ninguém conseguiu movê-la. Depois mandou queimá-la, e o fogo não a atingiu. Por fim, foi morta pela espada, na perseguição de Diocleciano, por volta do ano 304.
Santa Luzia está na Bíblia?
Não. Santa Luzia viveu no início do século IV, quase três séculos depois da época do Novo Testamento. A Igreja a conhece pela tradição, pelas inscrições das catacumbas de Siracusa, pela liturgia romana, que a cita no Cânon da Missa, e pelas Atas do seu martírio.
Luzia deixou tudo por Cristo, a riqueza, o casamento e a própria vida. Pedir a ela pela saúde dos olhos é bom; pedir também a luz da fé que ela não quis trocar por nada é ainda melhor.
