Oito dias depois da Páscoa, a Igreja inteira volta os olhos para o Coração aberto de Cristo. A festa da Divina Misericórdia, celebrada no segundo domingo da Páscoa, recorda que o perdão de Deus nasce da Cruz e da Ressurreição e é oferecido a todo pecador que se aproxima com confiança.
Veja o que a festa celebra, como nasceu das revelações a Santa Faustina, o que significa a imagem de Jesus Misericordioso e como viver esse domingo.
Resposta rápida
O que é a festa da Divina Misericórdia?
É o segundo domingo da Páscoa, dedicado à misericórdia de Deus revelada na morte e ressurreição de Cristo. Nasceu dos pedidos registrados por Santa Faustina Kowalska no seu Diário e foi estendida a toda a Igreja por São João Paulo II em 30 de abril de 2000. Em 2027, cai em 4 de abril.
O que a festa celebra
O Domingo da Misericórdia fecha a oitava da Páscoa, os oito dias em que a Igreja celebra a Ressurreição como um único grande dia, como explica o texto sobre o significado da Páscoa cristã. Não é uma devoção ao lado do mistério pascal: é o próprio mistério pascal visto como obra de misericórdia.

O Evangelho desse domingo é Jo 20,19-31: na tarde da Ressurreição, Jesus aparece aos discípulos de portas fechadas, mostra as mãos e o lado e lhes dá o poder de perdoar os pecados. O decreto de 2002 sobre a festa cita São João Paulo II: “O mistério pascal é o ponto culminante desta revelação e actuação da misericórdia” (Dives in misericordia, 7).
A origem: Santa Faustina e o Diário

Helena Kowalska nasceu em 1905 na Polônia, numa família pobre de camponeses. Em 1925 entrou na Congregação das Irmãs de Nossa Senhora da Misericórdia, com o nome de Irmã Maria Faustina, e trabalhou como cozinheira, jardineira e porteira. Morreu de tuberculose em Cracóvia, em 5 de outubro de 1938, aos 33 anos.
A pedido dos confessores, registrou no Diário as palavras que dizia ouvir de Jesus. Segundo a biografia publicada pelo Vaticano, ali estão quatro pedidos: a imagem com a inscrição “Jesus, eu confio em vós”, a festa no primeiro domingo depois da Páscoa, o terço da misericórdia e a oração às três da tarde.
São revelações privadas: a Igreja as examinou, canonizou a religiosa e aprovou a devoção, mas ninguém é obrigado a crer nelas como num dogma. Outro trecho conhecido do Diário é a visão do inferno narrada por Santa Faustina.
A imagem de Jesus Misericordioso
A primeira pintura foi feita em Vilnius por Eugeniusz Kazimirowski, sob a orientação de Faustina e do seu confessor, o padre Michał Sopoćko, e ficou pronta em 1934. É a única versão que a santa viu e hoje está no Santuário da Divina Misericórdia de Vilnius. A versão mais difundida, de Adolf Hyła, fica em Cracóvia.

Cristo ressuscitado abençoa com a mão direita e põe a esquerda sobre o peito, de onde saem dois raios, um pálido e um vermelho. Na homilia da canonização, o Papa citou o Diário: “Os dois raios […] representam o sangue e a água”, e lembrou a lança que abriu o lado de Cristo (Jo 19,34).

| Sinal | O que é | Origem |
|---|---|---|
| Imagem de Jesus Misericordioso | Cristo com os raios pálido e vermelho saindo do peito | Pintada por Kazimirowski em Vilnius, 1934 |
| “Jesus, eu confio em vós” | Jaculatória escrita aos pés da imagem | Diário de Santa Faustina |
| Domingo da Misericórdia | Segundo domingo da Páscoa | Estendido à Igreja por São João Paulo II em 2000 |
| Terço da Misericórdia | Oração rezada nas contas do terço | Diário de Santa Faustina |
| Hora da Misericórdia | Oração às três da tarde, hora da morte de Jesus | Diário de Santa Faustina |
A água recorda o batismo, prefigurado no batismo de Jesus no Jordão, e o sangue, a Eucaristia. A devoção irmã, que contempla o mesmo lado aberto, é a do Sagrado Coração de Jesus. E venerar a imagem não é idolatria, como mostra a resposta à pergunta católicos adoram imagens?
Como São João Paulo II instituiu a festa
Faustina foi canonizada em 30 de abril de 2000, segundo domingo da Páscoa. Na homilia, o Papa anunciou que aquele domingo, “de agora em diante na Igreja inteira”, tomaria o nome de “Domingo da Divina Misericórdia”. A Congregação para o Culto Divino confirmou a denominação no decreto Misericors et miserator, de 5 de maio de 2000.

O corpo da santa repousa no Santuário da Divina Misericórdia de Cracóvia-Łagiewniki. São João Paulo II morreu em 2 de abril de 2005, véspera do Domingo da Misericórdia, e foi canonizado nesse mesmo domingo, em 2014. O caminho até os altares está descrito em como a Igreja canoniza os santos.
A indulgência plenária
O decreto da Penitenciaria Apostólica de 29 de junho de 2002 concede a indulgência plenária a quem, nesse domingo, em qualquer igreja ou oratório, desapegado de todo pecado, mesmo venial, participa das práticas de piedade em honra da Divina Misericórdia. Basta também rezar o Pai-Nosso e o Credo diante do Santíssimo, exposto ou no sacrário, com uma invocação a Jesus Misericordioso.
Valem as condições habituais: confissão sacramental, comunhão eucarística e oração nas intenções do Papa, como explica o texto sobre o que são as indulgências. Doentes e quem não pode sair de casa por justa causa rezam diante de uma imagem de Jesus Misericordioso e cumprem as condições assim que possível.
Como celebrar o Domingo da Misericórdia

- A novena: segundo o Diário, começa na Sexta-feira Santa e termina na véspera do domingo. Veja o que é uma novena e como rezá-la.
- A confissão: o sacramento do perdão é o centro da festa. Prepare-se com o guia de como se confessar passo a passo.
- A comunhão: receba a Eucaristia em estado de graça, guardando o jejum eucarístico.
- O terço da misericórdia: rezado nas contas do terço comum; o texto está entre os terços diversos para rezar.
- A Hora da Misericórdia: às três da tarde, hora da morte de Jesus, um momento de oração diante da Cruz ou do Santíssimo exposto para adoração.
A devoção não termina na igreja. O decreto de 2002 pede aos padres que estimulem os fiéis às obras de misericórdia corporais e espirituais: dar de comer, visitar os doentes, perdoar as ofensas.
Datas e preceito
Como a Páscoa é móvel, a data muda todo ano: é sempre o domingo seguinte ao Domingo da Ressurreição.
| Ano | Domingo de Páscoa | Domingo da Misericórdia |
|---|---|---|
| 2027 | 28 de março | 4 de abril |
| 2028 | 16 de abril | 23 de abril |
É dia santo de guarda? Não é preciso: como cai num domingo, a Missa já é de preceito, como lembra a lista dos dias santos de guarda no Brasil. Quem se prepara na Semana Santa chega a esse domingo com a novena já rezada.
Quando é a festa da Divina Misericórdia em 2027?
Em 4 de abril de 2027, segundo domingo da Páscoa, já que o Domingo da Ressurreição cai em 28 de março. Em 2028 será em 23 de abril. A data acompanha sempre a Páscoa: é o domingo que encerra a sua oitava.
Quem instituiu a festa da Divina Misericórdia?
São João Paulo II, na Missa de canonização de Santa Faustina, em 30 de abril de 2000. Ele anunciou que o segundo domingo da Páscoa passaria a chamar-se, na Igreja inteira, Domingo da Divina Misericórdia. O pedido da festa está no Diário da santa polonesa.
Como ganhar a indulgência da Divina Misericórdia?
No segundo domingo da Páscoa, participe das orações em honra da Divina Misericórdia ou reze, diante do Santíssimo, o Pai-Nosso e o Credo com uma invocação como “Jesus, eu confio em vós”. Exige-se desapego de todo pecado, confissão, comunhão e oração pelas intenções do Papa.
O que significa a imagem de Jesus Misericordioso?
Mostra Cristo ressuscitado abençoando, com dois raios saindo do peito: o pálido representa a água e o vermelho, o sangue que jorraram do lado aberto na Cruz (Jo 19,34). Aos pés, a inscrição “Jesus, eu confio em vós” resume a resposta que Ele espera de cada fiel.
A festa não acrescenta nada ao Evangelho; ajuda a vê-lo melhor. No Domingo da Misericórdia, o fiel aprende a dizer com Santa Faustina “Jesus, eu confio em vós” e a levar esse perdão para casa.
