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Torre de Babel: o que a Bíblia conta e o que ela ensina

A torre de Babel ainda em construção sobe até as nuvens, imagem do projeto humano de chegar ao céu

Uma cidade, uma torre até o céu e um povo que fala uma só língua. A torre de Babel ocupa só nove versículos do Gênesis, mas a sua lição atravessa a Bíblia inteira, até o dia de Pentecostes.

Veja o que o texto conta, onde ficava Senaar, qual foi o pecado dos construtores, por que Deus confundiu as línguas e como a Igreja lê esta página hoje.

Resposta rápida

O que foi a torre de Babel?

Segundo Gn 11,1-9, foi a cidade e a torre “até o céu” que os homens tentaram construir na planície de Senaar para ficar famosos e não se dispersar. Deus confundiu a sua língua e os espalhou pela terra. A Igreja vê ali o orgulho de uma humanidade que quer fazer a sua unidade sem Deus (CIC §57).

O que a Bíblia conta em Gênesis 11

Depois do dilúvio, a terra inteira falava a mesma língua. Migrando do oriente, os homens se fixaram numa planície do país de Senaar e começaram a fazer tijolos cozidos, com piche no lugar de argamassa (Gn 11,1-3).

Operários erguem a torre de Babel com pedras e guindastes enquanto anjos descem do céu sobre a obra
A construção da torre de Babel, iluminura das Horas de Bedford (por volta de 1410 a 1430), British Library. Imagem: Mestre de Bedford, domínio público, via Wikimedia Commons

Então disseram: “Vamos construir uma cidade e uma torre que chegue até o céu, para ficarmos famosos e não nos dispersarmos pela superfície da terra” (Gn 11,4). O Senhor “desceu para ver” a obra, confundiu a língua deles e os espalhou; a construção parou (Gn 11,5-8).

O capítulo anterior, a tabela das nações descendentes de Noé, já fala dos povos “por países e línguas” (Gn 10,5; veja a arca de Noé e o dilúvio). Babel explica, em forma de narrativa, por que a humanidade está dividida.

VersículoO que dizSentido
Gn 11,1-2Uma só língua; os homens se fixam em SenaarA humanidade unida, mas longe de Deus
Gn 11,3Tijolos e piche no lugar de pedraA técnica a serviço do projeto humano
Gn 11,4Uma torre até o céu, para ficarem famososOrgulho: fazer um nome sem Deus
Gn 11,5-7O Senhor desce e confunde a línguaDeus julga e põe limite ao orgulho
Gn 11,8-9Dispersão; a cidade se chama BabelA divisão dos povos nasce do pecado
O relato de Gn 11,1-9 em partes: o que cada trecho diz e o seu sentido

Senaar, Babilônia e o zigurate Etemenanki

Senaar é o nome bíblico da Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates, no atual Iraque. Ali o Gênesis põe Babel, a primeira capital do reino de Nemrod (Gn 10,10).

Tábua cuneiforme que descreve as medidas do zigurate Etemenanki de Babilônia, possível pano de fundo de Babel
Tábua do Esagil, texto cuneiforme com as medidas do Etemenanki, Museu do Louvre. Imagem: Zunkir, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

O nome joga com o verbo hebraico balal, confundir, pois ali o Senhor confundiu a língua de todos (Gn 11,9). Na língua dos babilônios, Babel queria dizer “porta do deus”. Para o autor sagrado, a orgulhosa porta do céu virou sinônimo de confusão.

Muitos estudiosos pensam que o texto tem como pano de fundo os zigurates, torres de templo em degraus, sobretudo o Etemenanki de Babilônia, cujas medidas uma tábua cuneiforme descreve. É uma hipótese, não uma identificação certa.

Qual foi o pecado de Babel

Construir não é pecado. O mal está no motivo: “para ficarmos famosos”, literalmente “façamos para nós um nome”. Os homens querem garantir com as próprias mãos a glória e a segurança que só Deus pode dar.

Um rei com seu séquito inspeciona a torre de Babel em obras, o projeto de fazer um nome sem Deus
A construção da torre de Babel, de Hendrick van Cleve III (1590). Imagem: Hendrick van Cleve III, domínio público, via Wikimedia Commons

O Catecismo explica que a divisão em nações se destinava “a limitar o orgulho duma humanidade decaída, que, unânime na sua perversidade, pretendia refazer por si mesma a própria unidade, à maneira de Babel” (CIC §57; veja no site a revelação divina no Catecismo, §50-73). É o orgulho, a raiz de todo pecado, o primeiro dos sete pecados capitais.

Logo em seguida Deus chama Abrão e promete: “tornarei famoso o seu nome” (Gn 12,2). O nome que Babel quis conquistar, Deus o dá a quem confia nele; veja quem foi Abraão, o pai da fé. O contraste aparece também no Templo, casa feita para o Nome de Deus por Salomão, o rei que pediu sabedoria.

Por que Deus confundiu as línguas

“Vamos descer e confundir a língua deles, para que um não entenda a língua do outro” (Gn 11,7). O castigo é também misericórdia: impede que uma humanidade unida no mal leve o seu projeto até o fim. Sabedoria 10,5 lembra o momento em que as nações “aderiram à maldade e foram confundidas”.

Homens desesperados diante da torre abandonada, já sem se entender depois da confusão das línguas
A confusão das línguas, gravura de Gustave Doré (1873). Imagem: Gustave Doré, domínio público, via Wikimedia Commons

A dispersão não é a última palavra. Pela aliança com Noé, Deus continua a cuidar de cada povo, e já prepara a reunião de todos (CIC §56-60). A história de Israel, de Abraão até José do Egito, que salvou a família da fome, é o começo desse caminho de volta.

Como ler Babel hoje

A torre de Babel gigantesca numa paisagem cheia de obras, imagem da técnica e do orgulho sem limites
A torre de Babel, de Tobias Verhaecht e Jan Brueghel, o Velho (século XVI), Museu Real de Belas Artes de Antuérpia. Imagem: Tobias Verhaecht e Jan Brueghel, o Velho, domínio público, via Wikimedia Commons

Os onze primeiros capítulos do Gênesis falam de verdades reais com uma linguagem própria. Sobre a criação, o Catecismo diz que o texto a apresenta “simbolicamente” (CIC §337); sobre a queda, que usa “uma linguagem feita de imagens”, mas afirma um fato real (CIC §390). Para entender o autor sagrado é preciso atender aos gêneros literários (Dei Verbum 12; veja a constituição Dei Verbum e o que é a Sagrada Escritura).

A lição não envelheceu. Cada época tem as suas torres: a técnica que se pensa sem limites, o poder que quer unir o mundo sem Deus, a vida gasta para “fazer um nome”. O remédio é a humildade de quem recebe o nome de Deus e a unidade que vem do Espírito.

Babel, Pentecostes e a unidade da Igreja

Os apóstolos reunidos recebem o Espírito Santo; embaixo, o rei Cosmos representa os povos de todas as línguas
Ícone de Pentecostes do mosteiro Kirillo-Belozersky (por volta de 1497). Imagem: domínio público, via Wikimedia Commons

Em Pentecostes, os apóstolos falam e “cada um ouvia, na sua própria língua, os discípulos falarem” (At 2,6). O Espírito não apaga as línguas: faz com que todas anunciem a mesma fé. Por isso Gn 11,1-9 é uma das leituras propostas para a vigília de Pentecostes; o tema é desenvolvido em o que é Pentecostes.

TemaEm BabelEm PentecostesReferência
IniciativaOs homens sobem para fazer um nomeO Espírito desce como domGn 11,4; At 2,2-4
LínguaNinguém entende o outroCada um ouve na sua línguaGn 11,7; At 2,6
PovosDispersos pela terraReunidos de todas as naçõesGn 11,8; At 2,5-11
UnidadeImposta pelo orgulhoDada pela caridade, na IgrejaCIC §57; §813
Babel e Pentecostes: a dispersão das línguas e a reunião dos povos na Igreja

A Igreja é a resposta de Deus à dispersão: “A reunião da Igreja é, por assim dizer, a reacção de Deus ao caos provocado pelo pecado” (CIC §761; veja Creio na Santa Igreja Católica). A sua unidade vem da Trindade, de Cristo e do Espírito Santo (CIC §813), não de um projeto humano; veja a Igreja una, santa, católica e apostólica.

A Babilônia do Apocalipse, a cidade orgulhosa do fim dos tempos (Ap 17-18), retoma a mesma imagem; veja também a resposta sobre a Igreja e a Babilônia do Apocalipse.

O que foi a torre de Babel?

Foi a torre que, segundo Gn 11,1-9, os homens começaram a construir na planície de Senaar para chegar até o céu e ficar famosos. Deus confundiu a língua deles e a obra parou. O episódio explica a dispersão dos povos e mostra o orgulho humano diante de Deus.

Onde fica a torre de Babel hoje?

Nenhum lugar foi identificado com certeza. Senaar é a Mesopotâmia, no atual Iraque, e muitos estudiosos pensam no grande zigurate de Babilônia, o Etemenanki, como pano de fundo. Dele restam apenas vestígios da base, perto das ruínas da antiga cidade.

Por que Deus confundiu as línguas?

Para pôr limite ao orgulho de uma humanidade que queria fazer a sua unidade e a sua glória sem Ele (CIC §57). A confusão impediu que o projeto continuasse e espalhou os povos. Deus, porém, não os abandonou e preparou a reunião de todos em Cristo.

O que significa Babel?

O Gênesis liga o nome ao verbo hebraico balal, confundir, porque ali o Senhor confundiu a língua de todos (Gn 11,9). Na língua dos babilônios, o nome da cidade queria dizer porta do deus. Daí o uso comum de babel como sinônimo de confusão.

Qual o pecado da torre de Babel?

O orgulho. Os construtores queriam fazer um nome para si e garantir por conta própria a sua unidade, sem obedecer a Deus. Não era a construção em si, mas o desejo de glória e de autossuficiência que a movia, a mesma raiz do pecado original.

Babel lembra que a unidade verdadeira não se constrói de baixo para cima. Leia no Catecismo, a aliança com Noé e a dispersão das nações (§56-58) e o texto do site sobre o pecado original.