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Festa do Divino Espírito Santo: origem, símbolos e tradições no Brasil

Foliões com a bandeira do Divino, viola e caixa: a festa do Divino Espírito Santo no século XIX

Bandeiras vermelhas com uma pomba branca, cantorias que passam de casa em casa, um menino coroado como imperador e comida repartida de graça: assim é a Festa do Divino Espírito Santo, uma das devoções mais antigas do catolicismo brasileiro.

Ela nasceu em Portugal, cruzou o Atlântico com os colonizadores e ganhou feições próprias em Goiás, São Paulo, Rio de Janeiro e Maranhão. Veja a origem, os símbolos, as cidades onde é mais forte e o seu lugar ao lado da liturgia.

Resposta rápida

O que é a Festa do Divino Espírito Santo?

É uma festa de piedade popular em honra do Espírito Santo, celebrada em torno de Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa. A tradição a liga à Rainha Santa Isabel de Portugal, no século XIV. Tem folias que recolhem donativos com a bandeira do Divino, a coroação de um imperador, novena, missa e refeições oferecidas ao povo.

Uma festa popular em honra do Espírito Santo

“Divino” é o nome carinhoso que o povo dá ao Espírito Santo, terceira Pessoa da Trindade. A festa gira em torno de Pentecostes, a vinda do Espírito sobre os apóstolos, explicada em o que é Pentecostes.

Não é um rito litúrgico, e sim uma expressão da religiosidade do povo, como a festa junina ou o Círio de Nazaré.

Origem: a Rainha Santa Isabel e Alenquer

Segundo artigo da Universidade Federal do Tocantins (2017), a tradição local de Alenquer, perto de Lisboa, fixou em 1321 a fundação de uma casa, uma igreja e festejos do Espírito Santo por iniciativa da Rainha Santa Isabel de Portugal. O bispo do Porto Correia de Lacerda escreveu que ela recebeu essa missão por inspiração divina.

Rainha Santa Isabel de Portugal, a quem a tradição atribui a origem da Festa do Divino
Santa Isabel de Portugal, de Francisco de Zurbarán (cerca de 1635), Museu do Prado. Imagem: Francisco de Zurbarán, domínio público, via Wikimedia Commons

Ali teria começado a coroação do imperador, com nobres e povo, uma confraria do Espírito Santo e o “bodo”, pão e carne dados aos pobres. Os historiadores tratam essa narrativa como tradição, mas reconhecem Alenquer como o modelo de “império” seguido depois em Portugal e no Brasil.

Dos Açores ao Brasil

Foi nos Açores que a festa conheceu o seu maior desenvolvimento, com os “impérios”, pequenas capelas onde se guardam a coroa e a bandeira. Segundo o antropólogo Sergio Ferretti, da UFMA, a festa se espalhou pelo mundo português a partir dos Açores, e os casais açorianos enviados ao Brasil colonial ajudam a explicar a sua força aqui.

Império do Espírito Santo de 1886 na ilha Terceira, Açores, com a bandeira vermelha do Divino
Império do Divino Espírito Santo de São Bento, Angra do Heroísmo, Açores (edifício datado de 1886). Imagem: José Luís Ávila Silveira e Pedro Noronha e Costa, domínio público, via Wikimedia Commons

Os registros brasileiros são antigos: em São Luiz do Paraitinga há notícia da festa desde 1803, e em Pirenópolis o primeiro registro oficial conhecido é de 1819, segundo o IPHAN.

Os símbolos e o que significam

SímboloO que éSignificado
Pomba brancaBordada na bandeira ou no alto da coroaO Espírito Santo, que desceu como pomba no batismo de Jesus (Mt 3,16)
Cor vermelhaBandeiras, fitas, enfeites do impérioAs línguas de fogo de Pentecostes (At 2,3)
Bandeira do DivinoEstandarte levado pelas folias de casa em casaA visita do Divino às famílias
Coroa e cetroPeças de prata entregues ao imperadorA realeza de Deus e a memória da rainha Isabel
MastroTronco erguido na praça com a bandeira no altoAnuncia que a cidade está em festa
ImpérioEspaço enfeitado onde ficam coroa, cetro e bandeirasLugar de oração e de promessas
Bodo ou afogadoRefeição oferecida de graçaA caridade e a fartura pedidas a Deus
Símbolos da Festa do Divino e o seu significado cristão
Casa colonial de São Luiz do Paraitinga enfeitada com bandeiras vermelhas e a pomba do Divino
Casa enfeitada para a Festa do Divino em São Luiz do Paraitinga, SP (2019). Imagem: Monalisa Duarte dos Reis, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

A cor é a mesma das cores litúrgicas de Pentecostes, e a pomba recorda os sete dons do Espírito Santo.

A folia do Divino e a coroação do imperador

A folia é um grupo de cantores e músicos que sai com a bandeira para pedir donativos. Em Pirenópolis, descreve o parecer técnico do IPHAN sobre a festa, as folias “giram” de dia e pousam à noite, por caminhos circulares que não podem se cruzar, durante sete ou oito dias; o alferes conduz a bandeira, recolhe esmolas e leva a bênção às casas e fazendas.

O imperador, também chamado festeiro, é escolhido por sorteio entre homens e meninos e recebe a coroa de prata, o cetro e a bandeira. É o responsável pela festa e recebe do povo pães, grãos e animais para as refeições coletivas; no fim, sorteia-se ou anuncia-se o sucessor.

Coroa de prata do Divino entre velas e flores, usada na coroação do imperador da festa
Altar com a coroa do Divino Espírito Santo, ilha de São Jorge, Açores (2009). Imagem: José Luís Ávila Silveira e Pedro Noronha e Costa, domínio público, via Wikimedia Commons

Onde a festa é mais conhecida no Brasil

CidadeEstadoTradição marcante
PirenópolisGoiásCavalhadas de mouros e cristãos e mascarados; registrada pelo IPHAN em 2010
São Luiz do ParaitingaSão PauloEncontro das Bandeiras, império na praça da matriz e afogado gratuito
Mogi das CruzesSão PauloEntrada dos Palmitos, cortejo com carros de bois na véspera de Pentecostes
ParatyRio de JaneiroFesta no centro histórico, registrada como patrimônio cultural brasileiro
AlcântaraMaranhãoCaixeiras que tocam caixa e cantam ao Divino; império de crianças e adultos
NatividadeTocantinsGiro das folias, Esmola Geral e coroação do imperador
Onde a Festa do Divino é mais conhecida no Brasil e o que a distingue
Cavaleiro mascarado das cavalhadas de Pirenópolis, parte da Festa do Divino registrada pelo IPHAN
Cavalhadas na Festa do Divino de Pirenópolis, GO (2013). Imagem: Rossyni Gomes Pompêo de Pina, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Em Pirenópolis as cavalhadas vão do domingo de Pentecostes à terça-feira, e os mascarados saem até o sábado de Corpus Christi. Em Mogi das Cruzes, o desfile termina na praça da Catedral de Sant’Ana, onde se monta o império.

Piedade popular a serviço da liturgia

A luz do Espírito Santo desce sobre Maria e os apóstolos: o Pentecostes que a festa celebra
Pentecostes, de Jean Restout (1732), Museu do Louvre. Imagem: Jean Restout, domínio público, via Wikimedia Commons

O Catecismo ensina que essas expressões “prolongam a vida litúrgica da Igreja, mas não a substituem” e pedem discernimento para “purificar e retificar” o que for preciso (CIC §1675 e §1676, sobre a religiosidade popular).

O Diretório sobre a piedade popular e a liturgia (Congregação para o Culto Divino, 2001) diz que a piedade popular é objetivamente subordinada à liturgia e orientada para ela (n. 50). Ao tratar de Pentecostes (n. 156), lembra que o Espírito suscita essa piedade e recomenda a novena de Pentecostes, de preferência com as Vésperas (n. 155).

Por isso o centro da festa é a Missa de Pentecostes, não o sorteio nem os fogos. Em Pirenópolis surgiu a “Folia do Padre”, organizada pela paróquia, que entrega os donativos à Igreja e resgata a oração dentro do giro.

Como as paróquias vivem a festa hoje

  • Uma novena entre a Ascensão e Pentecostes, com a bênção das bandeiras.
  • O “Vinde, Espírito Santo” e outras orações ao Espírito Santo nas visitas da folia.
  • A Missa solene de Pentecostes, com confissões nos dias anteriores.
  • O bodo como obra de caridade, sem excessos de bebida.

A quem acusa os católicos de misturar fé e festa, o site já respondeu em festas com dança e a verdadeira Igreja. Outras devoções do povo, como a oração a São José e o Terço dos Homens, seguem a mesma regra: levar à Missa.

O que é a festa do Divino Espírito Santo?

É uma celebração de piedade popular em honra do Espírito Santo, ligada a Pentecostes. Tem novena, folias que visitam as casas com a bandeira do Divino, a coroação de um imperador, a Missa de Pentecostes e refeições oferecidas ao povo. Chegou ao Brasil com os portugueses.

Qual a origem da festa do Divino?

A tradição a atribui à Rainha Santa Isabel de Portugal, que no século XIV teria fundado em Alenquer uma igreja e festejos do Espírito Santo, com a coroação de um imperador e esmolas aos pobres. Dos Açores e de Portugal o costume chegou ao Brasil colonial.

Quando é a festa do Divino?

Em torno de Pentecostes, que cai 50 dias depois da Páscoa, geralmente em maio ou junho. Em muitas cidades as folias começam a sair semanas antes, às vezes já no domingo de Páscoa, e a festa termina no domingo de Pentecostes ou poucos dias depois.

O que significa a bandeira do Divino?

A bandeira, em geral vermelha com uma pomba branca, representa a presença do Espírito Santo. O vermelho lembra as línguas de fogo de Pentecostes e a pomba o batismo de Jesus. Levada pelas folias, ela visita as famílias, que a recebem com oração e pedidos de bênção.

O que é a folia do Divino?

É o grupo de foliões, cantores e músicos, que percorre cidades e fazendas com a bandeira do Divino, cantando versos e recolhendo donativos para a festa. Em Pirenópolis as folias giram de dia e pousam à noite, por caminhos que não se cruzam.

A Festa do Divino guarda a fé de gerações em forma de bandeira, canto e partilha. Vivida com a Missa e a caridade no centro, ela faz o que a Igreja espera da piedade do povo: conduzir ao Espírito Santo que, desde Pentecostes, reúne a Igreja.