Bandeiras vermelhas com uma pomba branca, cantorias que passam de casa em casa, um menino coroado como imperador e comida repartida de graça: assim é a Festa do Divino Espírito Santo, uma das devoções mais antigas do catolicismo brasileiro.
Ela nasceu em Portugal, cruzou o Atlântico com os colonizadores e ganhou feições próprias em Goiás, São Paulo, Rio de Janeiro e Maranhão. Veja a origem, os símbolos, as cidades onde é mais forte e o seu lugar ao lado da liturgia.
Resposta rápida
O que é a Festa do Divino Espírito Santo?
É uma festa de piedade popular em honra do Espírito Santo, celebrada em torno de Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa. A tradição a liga à Rainha Santa Isabel de Portugal, no século XIV. Tem folias que recolhem donativos com a bandeira do Divino, a coroação de um imperador, novena, missa e refeições oferecidas ao povo.
Uma festa popular em honra do Espírito Santo
“Divino” é o nome carinhoso que o povo dá ao Espírito Santo, terceira Pessoa da Trindade. A festa gira em torno de Pentecostes, a vinda do Espírito sobre os apóstolos, explicada em o que é Pentecostes.
Não é um rito litúrgico, e sim uma expressão da religiosidade do povo, como a festa junina ou o Círio de Nazaré.
Origem: a Rainha Santa Isabel e Alenquer
Segundo artigo da Universidade Federal do Tocantins (2017), a tradição local de Alenquer, perto de Lisboa, fixou em 1321 a fundação de uma casa, uma igreja e festejos do Espírito Santo por iniciativa da Rainha Santa Isabel de Portugal. O bispo do Porto Correia de Lacerda escreveu que ela recebeu essa missão por inspiração divina.

Ali teria começado a coroação do imperador, com nobres e povo, uma confraria do Espírito Santo e o “bodo”, pão e carne dados aos pobres. Os historiadores tratam essa narrativa como tradição, mas reconhecem Alenquer como o modelo de “império” seguido depois em Portugal e no Brasil.
Dos Açores ao Brasil
Foi nos Açores que a festa conheceu o seu maior desenvolvimento, com os “impérios”, pequenas capelas onde se guardam a coroa e a bandeira. Segundo o antropólogo Sergio Ferretti, da UFMA, a festa se espalhou pelo mundo português a partir dos Açores, e os casais açorianos enviados ao Brasil colonial ajudam a explicar a sua força aqui.

Os registros brasileiros são antigos: em São Luiz do Paraitinga há notícia da festa desde 1803, e em Pirenópolis o primeiro registro oficial conhecido é de 1819, segundo o IPHAN.
Os símbolos e o que significam
| Símbolo | O que é | Significado |
|---|---|---|
| Pomba branca | Bordada na bandeira ou no alto da coroa | O Espírito Santo, que desceu como pomba no batismo de Jesus (Mt 3,16) |
| Cor vermelha | Bandeiras, fitas, enfeites do império | As línguas de fogo de Pentecostes (At 2,3) |
| Bandeira do Divino | Estandarte levado pelas folias de casa em casa | A visita do Divino às famílias |
| Coroa e cetro | Peças de prata entregues ao imperador | A realeza de Deus e a memória da rainha Isabel |
| Mastro | Tronco erguido na praça com a bandeira no alto | Anuncia que a cidade está em festa |
| Império | Espaço enfeitado onde ficam coroa, cetro e bandeiras | Lugar de oração e de promessas |
| Bodo ou afogado | Refeição oferecida de graça | A caridade e a fartura pedidas a Deus |

A cor é a mesma das cores litúrgicas de Pentecostes, e a pomba recorda os sete dons do Espírito Santo.
A folia do Divino e a coroação do imperador
A folia é um grupo de cantores e músicos que sai com a bandeira para pedir donativos. Em Pirenópolis, descreve o parecer técnico do IPHAN sobre a festa, as folias “giram” de dia e pousam à noite, por caminhos circulares que não podem se cruzar, durante sete ou oito dias; o alferes conduz a bandeira, recolhe esmolas e leva a bênção às casas e fazendas.
O imperador, também chamado festeiro, é escolhido por sorteio entre homens e meninos e recebe a coroa de prata, o cetro e a bandeira. É o responsável pela festa e recebe do povo pães, grãos e animais para as refeições coletivas; no fim, sorteia-se ou anuncia-se o sucessor.

Onde a festa é mais conhecida no Brasil
| Cidade | Estado | Tradição marcante |
|---|---|---|
| Pirenópolis | Goiás | Cavalhadas de mouros e cristãos e mascarados; registrada pelo IPHAN em 2010 |
| São Luiz do Paraitinga | São Paulo | Encontro das Bandeiras, império na praça da matriz e afogado gratuito |
| Mogi das Cruzes | São Paulo | Entrada dos Palmitos, cortejo com carros de bois na véspera de Pentecostes |
| Paraty | Rio de Janeiro | Festa no centro histórico, registrada como patrimônio cultural brasileiro |
| Alcântara | Maranhão | Caixeiras que tocam caixa e cantam ao Divino; império de crianças e adultos |
| Natividade | Tocantins | Giro das folias, Esmola Geral e coroação do imperador |

Em Pirenópolis as cavalhadas vão do domingo de Pentecostes à terça-feira, e os mascarados saem até o sábado de Corpus Christi. Em Mogi das Cruzes, o desfile termina na praça da Catedral de Sant’Ana, onde se monta o império.
Piedade popular a serviço da liturgia

O Catecismo ensina que essas expressões “prolongam a vida litúrgica da Igreja, mas não a substituem” e pedem discernimento para “purificar e retificar” o que for preciso (CIC §1675 e §1676, sobre a religiosidade popular).
O Diretório sobre a piedade popular e a liturgia (Congregação para o Culto Divino, 2001) diz que a piedade popular é objetivamente subordinada à liturgia e orientada para ela (n. 50). Ao tratar de Pentecostes (n. 156), lembra que o Espírito suscita essa piedade e recomenda a novena de Pentecostes, de preferência com as Vésperas (n. 155).
Por isso o centro da festa é a Missa de Pentecostes, não o sorteio nem os fogos. Em Pirenópolis surgiu a “Folia do Padre”, organizada pela paróquia, que entrega os donativos à Igreja e resgata a oração dentro do giro.
Como as paróquias vivem a festa hoje
- Uma novena entre a Ascensão e Pentecostes, com a bênção das bandeiras.
- O “Vinde, Espírito Santo” e outras orações ao Espírito Santo nas visitas da folia.
- A Missa solene de Pentecostes, com confissões nos dias anteriores.
- O bodo como obra de caridade, sem excessos de bebida.
A quem acusa os católicos de misturar fé e festa, o site já respondeu em festas com dança e a verdadeira Igreja. Outras devoções do povo, como a oração a São José e o Terço dos Homens, seguem a mesma regra: levar à Missa.
O que é a festa do Divino Espírito Santo?
É uma celebração de piedade popular em honra do Espírito Santo, ligada a Pentecostes. Tem novena, folias que visitam as casas com a bandeira do Divino, a coroação de um imperador, a Missa de Pentecostes e refeições oferecidas ao povo. Chegou ao Brasil com os portugueses.
Qual a origem da festa do Divino?
A tradição a atribui à Rainha Santa Isabel de Portugal, que no século XIV teria fundado em Alenquer uma igreja e festejos do Espírito Santo, com a coroação de um imperador e esmolas aos pobres. Dos Açores e de Portugal o costume chegou ao Brasil colonial.
Quando é a festa do Divino?
Em torno de Pentecostes, que cai 50 dias depois da Páscoa, geralmente em maio ou junho. Em muitas cidades as folias começam a sair semanas antes, às vezes já no domingo de Páscoa, e a festa termina no domingo de Pentecostes ou poucos dias depois.
O que significa a bandeira do Divino?
A bandeira, em geral vermelha com uma pomba branca, representa a presença do Espírito Santo. O vermelho lembra as línguas de fogo de Pentecostes e a pomba o batismo de Jesus. Levada pelas folias, ela visita as famílias, que a recebem com oração e pedidos de bênção.
O que é a folia do Divino?
É o grupo de foliões, cantores e músicos, que percorre cidades e fazendas com a bandeira do Divino, cantando versos e recolhendo donativos para a festa. Em Pirenópolis as folias giram de dia e pousam à noite, por caminhos que não se cruzam.
A Festa do Divino guarda a fé de gerações em forma de bandeira, canto e partilha. Vivida com a Missa e a caridade no centro, ela faz o que a Igreja espera da piedade do povo: conduzir ao Espírito Santo que, desde Pentecostes, reúne a Igreja.
