COMPÊNDIO DO
CATECISMO DA
IGREJA CATÓLICA
QUARTA PARTE – A ORAÇÃO CRISTÃ
A Oração – As Expressões e o Combate da Oração
QUARTA PARTE
A oração cristã – Primeira seção
A oração na vida cristã
A oração é a elevação da alma a Deus ou o pedido a Deus de bens conformes à sua vontade. Ela é sempre dom de Deus, que vem ao encontro do homem. A oração cristã é relação pessoal e viva dos filhos de Deus com o seu Pai infinitamente bom, com seu Filho Jesus Cristo e com o Espírito Santo, que habita no coração deles. 2558-2565 2590.
CAPÍTULO PRIMEIRO
A Revelação da oração
Porque Deus toma a iniciativa, mediante a criação, de chamar todo ser do nada, e o homem, mesmo depois da queda, continua a ser capaz de reconhecer o seu Criador, conservando o desejo daquele que o tinha chamado à existência. Todas as religiões e de modo particular toda a história da salvação testemunham esse desejo de Deus por parte do homem, mas é Deus o primeiro a atrair incessantemente toda pessoa ao encontro misterioso da oração. 2566-2567.
A REVELAÇÃO DA ORAÇÃO NO ANTIGO TESTAMENTO
Abraão é um modelo de oração porque caminha na presença de Deus, escuta-o e lhe obedece. A sua oração é um combate da fé porque ele continua a crer na fidelidade de Deus, mesmo nos momentos da prova. Além disso, depois de ter recebido na própria tenda a visita do Senhor que lhe confia o próprio desígnio, Abraão ousa interceder pelos pecadores com ousada confiança. 2570-2573 2592.
A oração de Moisés é típica da oração contemplativa: Deus, que chama Moisés da sarça ardente, entretém-se muitas vezes e longamente com ele “face a face, como alguém que fala com seu amigo” (Ex 33,11). Nessa intimidade com Deus, Moisés haure a força para interceder com tenacidade a favor do povo: a sua oração prefigura assim a intercessão do Único mediador, Cristo Jesus. 2574-2577 2593.
À sombra da moradia de Deus – a Arca da Aliança, depois o templo – desenvolve-se a oração do Povo de Deus sob a guia dos seus pastores. Entre eles Davi é o rei “segundo o coração de Deus”, o pastor que ora pelo seu povo. A sua oração é um modelo para a oração do povo, pois é adesão à promessa divina e confiança, cheia de amor, nAquele que é o único Rei e Senhor. 2578-2580 2594.
Os profetas haurem da oração luz e força para exortar o povo à fé e à conversão do coração. Entram numa grande intimidade com Deus e intercedem pelos irmãos, aos quais anunciam o que viram e ouviram do Senhor. Elias é o pai dos profetas, ou seja, daqueles que procuram a Face de Deus. No Monte Carmelo ele obtém a volta do povo à fé, graças à intervenção de Deus, a quem ele suplicava: “Ouve-me, Senhor, ouve-me!” (1 Rs… 18,37). 2581-2584.
Os salmos são o ápice da oração no Antigo Testamento: a Palavra de Deus toma-se oração do homem. Inseparavelmente pessoal e comunitária, essa oração, inspirada pelo Espírito Santo, canta as maravilhas de Deus na criação e na história da salvação. Cristo rezou os salmos e lhes deu cumprimento. Por isso eles permanecem um elemento essencial e permanente da oração da Igreja, adaptados aos homens de todas as condições e de todos os tempos. 2579 2585-2589 2596-2597.
A ORAÇÃO É PLENAMENTE REVELADA
E REALIZADA EM JESUS
Jesus, segundo o seu coração de homem, aprendeu a rezar com sua mãe e com a tradição hebraica. Mas a sua oração brota de uma fonte mais secreta, pois é o Filho eterno de Deus que, na sua santa humanidade, dirige a seu Pai a oração filial perfeita. 2599 2620.
O Evangelho mostra muitas vezes Jesus em oração. Vemo-lo retirar se na solidão, também de noite. Reza antes de momentos decisivos da sua missão ou da dos Apóstolos. De fato, toda a sua vida é oração, pois está em constante comunhão de amor com o Pai. 2600-2604 2620.
A oração de Jesus durante a sua agonia no Horto do Getsêmani e as suas últimas palavras na cruz revelam a profundidade da sua oração filial: Jesus dá cumprimento ao desígnio de amor do Pai e toma sobre si todas as angústias da humanidade, todos os pedidos e intercessões da história da salvação. Ele as apresenta ao Pai que as acolhe e as ouve, para além de toda esperança, ressuscitando-o dos mortos. 2605-2606 2620.
Jesus nos ensina a rezar não só com a oração do Pai-nosso, mas também quando ele reza. Desse modo, além do conteúdo, ensina-nos as disposições exigidas para uma verdadeira oração: a pureza do coração que procura o Reino e perdoa os inimigos; a confiança audaz e filial que vai além do que sentimos e compreendemos; a vigilância que protege o discípulo da tentação; a oração em Nome de Jesus, nosso Mediador junto do Pai. 2608-2614 2621.
A nossa oração é eficaz porque está unida pela fé à de Jesus. Nele a oração cristã se torna comunhão de amor com o Pai. Podemos nesse caso apresentar os nossos pedidos a Deus e ser ouvidos: “Pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa” (Jo 16,24). 2615-2616.
A oração de Maria se caracteriza por sua fé e por sua generosa oferta de todo seu ser a Deus. A Mãe de Jesus é também a Nova Eva, a “Mãe dos vivos”: ela reza a Jesus, seu Filho, pelas necessidades dos homens. 2617 2618 2622 2674 2679.
Além da intercessão de Maria em Caná da Galiléia, o Evangelho nos apresenta o Magnificat (Lc 1,46-55), que é o cântico da Mãe de Deus e o da Igreja, o agradecimento alegre que sobe do coração dos pobres, porque a esperança deles é realizada pelo cumprimento das promessas divinas. 2619.
A ORAÇÃO NO TEMPO DA IGREJA
No início dos Atos dos Apóstolos, está escrito que na primeira comunidade de Jerusalém, educada pelo Espírito Santo na vida de oração, os crentes “eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações” (At 2,42). 2623-2624.
O Espírito Santo, Mestre interior da oração cristã, forma a Igreja na vida de oração e a faz entrar cada vez mais profundamente na contemplação e na união com o insondável mistério de Cristo. As formas de oração, como expressas nos Escritos apostólicos e canônicos, serão normativas para a oração cristã. 2623 2625.
São a bênção e a adoração, a oração de súplica e a intercessão, a ação de graças e o louvor. A Eucaristia contém e exprime todas as formas de oração. 2643-2644.
A bênção é a resposta do homem aos dons de Deus: nós bendizemos o Todo-poderoso que primeiro nos abençoa e nos enche dos seus dons. 2626-2627 2645.
A adoração é a prosternação do homem que se reconhece criatura diante do seu Criador três vezes santo. 2628.
Pode ser um pedido de perdão ou também uma súplica humilde e confiante para todas as nossas necessidades, tanto espirituais como materiais. Mas a primeira realidade a ser desejada é a vinda do Reino. 2629-2633 2646.
A intercessão consiste em pedir em favor de outro. Ela nos informa e nos une à oração de Jesus, que intercede junto ao Pai por todos os homens, em particular pelos pecadores. A intercessão deve-se estender também aos inimigos. 2634-2636 2647.
A Igreja dá graças a Deus incessantemente, sobretudo ao celebrar a Eucaristia, na qual Cristo a faz participar da sua ação de graças ao Pai. Todo acontecimento se torna para o cristão motivo de ação de graças. 2637-2638 2648.
O louvor é a forma de oração que mais imediatamente reconhece que Deus é Deus. É completamente desinteressada: canta a Deus pelo que ele mesmo é e lhe dá glória porque ele é. 2639-2643 2649.
CAPÍTULO SEGUNDO
A tradição da oração
Na Igreja, é por meio da Tradição viva que o Espírito Santo ensina os filhos de Deus a orar. Com efeito, a oração não se reduz ao espontâneo manifestar-se de um impulso interior, mas implica contemplação, estudo e compreensão das realidades espirituais de que se faz experiência. 2650-2651.
NAS FONTES DA ORAÇÃO
São: a Palavra de Deus, que nos dá a “sublime ciência” de Cristo (Fl 3,8); a Liturgia da Igreja, que anuncia, atualiza e comunica o mistério da salvação; as virtudes teologais; as situações cotidianas, porque nelas podemos encontrar a Deus. 2652-2662. “Amo-vos, Senhor, e a única graça que vos peço é de vos amar eternamente. Meus Deus, se a minha língua não pode repetir, a cada instante, que vos amo, quero que o meu coração vo-lo repita todas as vezes que respiro” (São João Maria Vianney).
O CAMINHO DA ORAÇÃO
Na Igreja existem diferentes caminhos de oração, ligados aos diferentes contextos históricos, sociais e culturais. Cabe ao Magistério discernir a fidelidade deles à tradição da fé apostólica, e cabe aos pastores e aos catequistas explicar seu sentido, sempre relacionado a Jesus Cristo. 2663.
O caminho da nossa oração é Cristo, porque ela se dirige a Deus nosso Pai, mas chega a Ele somente se, pelo menos implicitamente, nós orarmos em nome de Jesus. A sua humanidade é, com efeito, o único caminho pelo qual o Espírito Santo nos ensina a rezar a nosso Pai. Por isso, as orações litúrgicas concluem com a fórmula: “Por nosso Senhor Jesus Cristo”. 2664 2680-2681.
Uma vez que o Espírito Santo é o Mestre interior da oração cristã e “nós não sabemos o que pedir nem como pedir” (Rm 8,26), a Igreja nos exorta a invocá-lo e a implorá-lo em todas as ocasiões: “Vem, Espírito Santo!”. 2670-2672 2680-2681.
Em virtude da sua singular cooperação com a ação do Espírito Santo, a Igreja gosta de orar a Maria e de orar com Maria, a Orante perfeita, para com Ela engrandecer e invocar o Senhor. De fato, Maria, «mostra-nos o caminho» que é o Seu Filho, o único Mediador.. 2673-2679 2682.
Em primeiro lugar com a Ave-maria, oração com que a Igreja pede a intercessão da Virgem. Outras orações marianas são o Rosário, o hino Acatisto, a Paráclise, os hinos e os cânticos das diversas tradições cristãs. 2682.
GUIAS PARA A ORAÇÃO
Os santos são os nossos modelos de oração e a eles pedimos também que intercedam, junto à Santíssima Trindade, por nós e pelo mundo inteiro. A intercessão deles é o mais alto serviço que prestam ao desígnio de Deus. Na comunhão dos santos, desenvolveram-se, ao longo da história da Igreja, diversos tipos de espiritualidade, que ensinam a viver e a praticar a oração. 2683-2684 2692-2693.
A família cristã constitui o primeiro lugar da educação para a oração. A oração familiar cotidiana é particularmente recomendada, porque é o primeiro testemunho da vida de oração da Igreja. A catequese, os grupos de oração, a “direção espiritual” constituem uma escola e uma ajuda à oração. 2685-2690 2694-2695.
Pode-se rezar em qualquer parte, mas a escolha de um lugar apropriado não é indiferente para a oração. A igreja é o lugar próprio da oração litúrgica e da adoração eucarística. Também outros lugares ajudam a rezar, como um “recanto de oração” em casa; um mosteiro; um santuário. 2691 2696.
CAPÍTULO TERCEIRO
A vida de oração
Todos os momentos são indicados para a oração, mas a Igreja propõe aos fiéis ritmos destinados a alimentar a oração contínua: orações da manhã e da noite, antes e depois das refeições; liturgia das Horas; Eucaristia dominical; santo Rosário; festas do ano litúrgico. 2697-2698 2720. “É preciso lembrar-se de Deus com mais freqüência do que se respira” (São Gregório Nazianzeno).
A tradição cristã conservou três modos para exprimir e viver a oração: a oração vocal, a meditação e a oração contemplativa. Seu traço comum é o recolhimento do coração. 2697 -2699.
AS EXPRESSÕES DA ORAÇÃO
A oração vocal associa o corpo à oração interior do coração. Até a mais interior das orações não poderia ficar sem a oração vocal. Em todos os casos ela deve sempre brotar de uma fé pessoal. Com o Pai-nosso, Jesus nos ensinou uma fórmula perfeita de oração vocal. 2700-2704 2722.
A meditação é uma reflexão orante, que parte sobretudo da Palavra de Deus, na Bíblia. Põe em ação a inteligência, a imaginação, a emoção, o desejo, para aprofundar a nossa fé, converter o nosso coração e fortificar a nossa vontade de seguir Cristo. É uma etapa preliminar para a união do amor com o Senhor. 2705-2708 2723.
A oração contemplativa é um simples olhar sobre Deus, no silêncio e no amor. É um dom de Deus, um momento de fé pura durante o qual o orante procura Cristo, remete-se à vontade amorosa do Pai e recolhe o seu ser sob a moção do Espírito. Santa Teresa de Ávila a define como uma íntima relação de amizade, “na qual nos entretemos muitas vezes a sós com Deus por quem nos sabemos amados”. 2709-2719 2724 2739-2741.
O COMBATE DA ORAÇÃO
A oração é um dom da graça, mas pressupõe sempre uma resposta decidida de nossa parte, porque aquele que reza combate contra si mesmo, o ambiente e sobretudo contra o Tentador, que faz de tudo para o distrair da oração. O combate da oração é inseparável do progresso da vida espiritual. Reza-se como se vive, porque se vive como se reza. 2725.
Além de conceitos errôneos, muitos pensam não ter tempo de rezar ou que seja inútil rezar. Aqueles que rezam podem desanimar diante das dificuldades e dos aparentes insucessos. Para vencer esses obstáculos são necessárias a humildade, a confiança e a perseverança. 2726-2728 2752-2753.
A distração é a dificuldade habitual da nossa oração. Ela tira a atenção de Deus e pode até revelar aquilo a que estamos apegados. O nosso coração então deve voltar-se humildemente ao Senhor. A oração é muitas vezes insidiada pela aridez, cuja superação permite na fé aderir ao Senhor, mesmo sem uma consolação sensível. A acídia é uma forma de preguiça espiritual devida ao relaxamento da vigilância e à deficiente guarda do coração. 2729-2733 2754-2755.
A confiança filial é posta à prova quando pensamos não ser ouvido. Temos de nos perguntar então se Deus é para nós um Pai cuja vontade procuramos fazer, ou é um simples meio para obter o que queremos. Se a nossa oração se une à de Jesus, sabemos que ele nos concede muito mais deste ou daquele dom: recebemos o Espírito Santo que transforma o nosso coração. 2734-2741 2756.
Rezar é sempre possível, porque o tempo do cristão é o tempo de Cristo ressuscitado, o qual “está conosco todos os dias” (Mt 28,20). Oração e vida cristã são, por isso, inseparáveis. 2742-2745 2757. “É possível, até no mercado ou durante um passeio solitário, fazer uma freqüente e fervorosa oração. É possível também na loja, ao comprarmos ou ao vendermos, ou também enquanto cozinhamos” (São João Crisóstomo).
É chamada assim a oração sacerdotal de Jesus na Última Ceia. Jesus, o Sumo Sacerdote da Nova Aliança, dirige-a ao Pai quando chega a Hora da sua “passagem” para ele, a Hora do seu sacrifício. 2604 2746-2751 2758.