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O que é Ordem Terceira? Os leigos que vivem o carisma de uma ordem

Fachada esculpida da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, em Salvador, erguida pelos terciários

Quem visita Salvador, Ouro Preto ou o centro do Rio logo encontra igrejas com nomes curiosos: “da Ordem Terceira de São Francisco”, “da Ordem Terceira do Carmo”. Mas, afinal, o que é Ordem Terceira? E o que leigos casados, com família e profissão, têm a ver com frades e freiras de clausura nos mosteiros?

Veja de onde vem o nome, o que diz o Direito Canônico, como nasceram as Ordens Terceiras franciscana, dominicana e carmelita e por que elas marcaram tanto o Brasil colonial.

Resposta rápida

O que é uma Ordem Terceira?

É uma associação de fiéis, sobretudo leigos, que vivem no mundo o espírito de uma ordem religiosa, sob a direção dela. O Código de Direito Canônico a define no cân. 303. Os terciários seguem uma regra, fazem profissão e se reúnem em fraternidade, mas continuam em casa, no trabalho e na família. As mais conhecidas são a franciscana, a dominicana e a carmelita.

Primeira, segunda e terceira ordem

As grandes famílias religiosas da Idade Média se organizaram em três ramos. A numeração não indica importância, e sim a ordem em que cada ramo surgiu e o estado de vida de seus membros.

OrdemQuem sãoModo de vidaExemplo franciscano
Primeira ordemOs fradesVotos religiosos, vida em convento, pregaçãoFrades menores, conventuais e capuchinhos
Segunda ordemAs monjasVotos religiosos e clausuraAs clarissas, fundadas com Santa Clara de Assis
Terceira ordemLeigos e também clérigos secularesNo mundo, com regra, profissão e fraternidadeOrdem Franciscana Secular
As três ordens de uma família religiosa medieval

Existe ainda a Ordem Terceira regular: congregações de religiosos que nasceram de terciários, passaram a viver em comunidade e fazem votos. Um terciário secular, porém, não é frade. A diferença entre frei e padre mostra quem recebe esses títulos.

O que diz o Direito Canônico

O cân. 303 do Código de Direito Canônico, no texto publicado pela Santa Sé, diz em substância: chamam-se ordens terceiras, ou recebem outro nome adequado, as associações cujos membros, vivendo no mundo, participam do espírito de um instituto religioso, levam vida apostólica e buscam a perfeição cristã sob a alta direção desse instituto.

São, portanto, associações de fiéis, e não institutos de vida consagrada. Os terciários seculares não fazem os votos religiosos de que trata o cân. 573: continuam leigos, com a vocação própria do laicato descrita no Catecismo (veja os fiéis de Cristo, a hierarquia e os leigos, CIC §897-913).

Como nasceu a Ordem Terceira de São Francisco

São Francisco entre homens e mulheres do povo, cena da fundação da Ordem Terceira
Francisco funda a Ordem Terceira, de José Benlliure y Gil. Imagem: José Benlliure y Gil, domínio público, via Wikimedia Commons

A pregação de São Francisco de Assis atraía homens e mulheres casados que não podiam entrar no convento. Para eles nasceu a “Ordem da Penitência”: irmãos e irmãs que viviam em casa com uma regra de oração, jejum, sobriedade e caridade.

  • 1221: data do texto de regra mais antigo que se conservou, o Memoriale propositi.
  • 1289: o papa Nicolau IV, franciscano, aprova a regra com a bula Supra montem e confia os terciários aos frades menores.
  • Século XIX: Leão XIII adapta a regra com a constituição Misericors Dei Filius.
  • 24 de junho de 1978: Paulo VI aprova a regra atual da Ordem Franciscana Secular (OFS) com a carta Seraphicus Patriarcha.

Do mesmo espírito vêm as orações de São Francisco, rezadas há gerações nas fraternidades da Ordem Terceira.

Dominicanos e carmelitas

A Ordem Terceira dominicana

Santa Catarina de Sena recebe de São Domingos o hábito de terciária dominicana
Santa Catarina de Sena recebe o hábito dominicano, de Giovanni di Paolo (c. 1460). Imagem: Giovanni di Paolo, CC0, via Wikimedia Commons

Parte dos penitentes ficou sob a direção dos frades de São Domingos de Gusmão. Em 1285, o mestre-geral Muñon de Zamora deu-lhes regra própria. Hoje são os Leigos Dominicanos, organizados nas Fraternidades Leigas de São Domingos. A terciária dominicana mais célebre é Santa Catarina de Sena, que recebeu o hábito ainda adolescente.

A Ordem Terceira do Carmo

Fachada da Igreja da Ordem Terceira do Carmo de Salvador, templo dos terceiros carmelitas
Igreja da Ordem Terceira do Carmo, Salvador (BA). Imagem: Fabio Gomes, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Leigos ligados aos carmelitas existem desde o século XIII. A instituição canônica veio em 1452, por uma bula obtida pelo prior-geral, o Beato João Soreth. A devoção ao escapulário, muito ligada ao Carmo, tem páginas próprias: a origem do escapulário e como usar o escapulário.

FamíliaNome atualRegra
FranciscanaOrdem Franciscana Secular (OFS)Aprovada por Paulo VI em 1978
DominicanaLeigos Dominicanos (Fraternidades Leigas de São Domingos)Herdeira da regra de 1285
CarmelitaLeigos Carmelitas (Ordem Terceira) e Ordem Secular dos Carmelitas Descalços (OCDS)Própria de cada ramo do Carmo
As principais Ordens Terceiras e seus nomes hoje

Santos que foram terciários

Pintura colonial de Santa Isabel da Hungria como terciária, na igreja dos terceiros do Rio
A beata Isabel, filha do rei da Hungria, da Terceira Ordem, pintura colonial anônima na Igreja de São Francisco da Penitência, Rio de Janeiro. Imagem: Eugenio Hansen, OFS (foto), CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

A Ordem Terceira mostrou que a santidade não é privilégio do claustro. Entre os terciários franciscanos estão reis, rainhas e gente simples:

No Brasil do século XX, o espírito de São Francisco também moldou a obra de Santa Dulce dos Pobres, religiosa que fez da caridade com os doentes de Salvador o centro da vida.

As Ordens Terceiras no Brasil colonial

Nave em talha dourada da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, no Rio
Interior da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, Rio de Janeiro. Imagem: Museu33389, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

No Brasil colonial, pertencer a uma Ordem Terceira era sinal de fé e também de posição social. Os terceiros erguiam igrejas próprias ao lado dos conventos, mantinham hospitais e cuidavam do enterro e dos sufrágios pelos irmãos falecidos.

Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto, erguida pela Ordem Terceira franciscana
Igreja de São Francisco de Assis, Ouro Preto (MG), projeto de Aleijadinho. Imagem: Stéfanomtb, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons
  • Salvador: a Ordem Terceira de São Francisco começou na Bahia em 1635. Sua igreja tem a fachada esculpida em pedra, caso raro no país, tombada pelo IPHAN.
  • Rio de Janeiro: os terceiros franciscanos se instalaram em 1619 no Convento de Santo Antônio. A Igreja de São Francisco da Penitência, toda em talha dourada, foi construída entre 1657 e 1733.
  • Ouro Preto: a Ordem Terceira de São Francisco ergueu, a partir de 1766, a igreja projetada por Aleijadinho, com o teto pintado por Mestre Ataíde.
  • Igrejas do Carmo: a Ordem Terceira do Carmo de Salvador reconstruiu sua igreja a partir de 1788, depois de um incêndio, e em Ouro Preto os irmãos terceiros do Carmo começaram a sua em 1756.

Essas igrejas guardam boa parte do melhor barroco brasileiro. Nasceram da fé de leigos que queriam viver o Evangelho com a mesma radicalidade dos frades, sem deixar o mundo.

Quem pode entrar numa Ordem Terceira hoje

Qualquer católico praticante, solteiro ou casado, pode pedir admissão a uma fraternidade. Sacerdotes diocesanos também podem ser terciários. O caminho costuma ter três passos:

  1. Acolhida: participar da fraternidade local e conhecer o carisma.
  2. Formação: um tempo de estudo da regra, da vida do fundador e da doutrina da Igreja.
  3. Profissão: o compromisso público de viver a regra, assumido diante da fraternidade.

Depois disso, o terciário reza, participa dos encontros e serve aos pobres. Não usa hábito no dia a dia nem deixa a família: leva o carisma para dentro dela.

O que é Ordem Terceira?

É uma associação de fiéis, em geral leigos, que vivem no mundo o espírito de uma ordem religiosa, sob a direção dela. O cân. 303 do Código de Direito Canônico a define assim. Os terciários seguem uma regra, fazem profissão e se reúnem em fraternidade, sem deixar a família nem o trabalho.

O que é a Ordem Terceira de São Francisco?

É o ramo leigo da família franciscana, hoje chamado Ordem Franciscana Secular (OFS). Nasceu dos penitentes que seguiam São Francisco no século XIII; seu texto de regra mais antigo é de 1221. A regra atual foi aprovada por Paulo VI em 24 de junho de 1978.

O que é a Ordem Terceira do Carmo?

É a associação de leigos ligados à Ordem do Carmo, que vivem a espiritualidade carmelita no mundo, com oração, devoção a Nossa Senhora do Carmo e serviço. Recebeu instituição canônica em 1452. Hoje existem os Leigos Carmelitas e a Ordem Secular dos Carmelitas Descalços.

Quem pode entrar numa Ordem Terceira?

Qualquer católico praticante, homem ou mulher, solteiro ou casado, e também clérigos seculares. Procura-se uma fraternidade local, passa-se por um tempo de acolhida e formação e, depois, faz-se a profissão da regra. O terciário não deixa a família nem a profissão.

O que foi a Ordem Terceira no Brasil colonial?

Foi uma das grandes forças religiosas e sociais da colônia. Os terceiros franciscanos e carmelitas construíram igrejas próprias, como as de Salvador, do Rio de Janeiro e de Ouro Preto, mantinham hospitais e cuidavam do enterro dos irmãos. Muitas dessas igrejas são joias do barroco brasileiro.

A Ordem Terceira lembra que todo batizado é chamado à santidade. Um pai de família, uma professora ou um aposentado podem seguir Francisco, Domingos ou o Carmo no lugar onde Deus os colocou.