COMPÊNDIO DO
CATECISMO DA
IGREJA CATÓLICA
PRIMEIRA PARTE: OS SÍMBOLOS DA FÉ
CREIO EM DEUS PAI
CAPÍTULO TERCEIRO
A resposta do homem a Deus
EU CREIO
O homem, sustentado pela graça divina, responde a Deus com a obediência da fé, que é confiar plenamente em Deus e acolher a sua Verdade, porquanto garantida por ele, que é a própria Verdade. 142-143.
Há muitas testemunhas, em particular duas: Abraão, que, posto à prova, “creu em Deus” (Rm 4,3) e sempre obedeceu a seu chamado, tornando-se “pai de todos os crentes” (Rm 4,11.18); e a Virgem Maria, que realizou do modo mais perfeito, durante toda a sua vida, a obediência da fé: “Fiat mihi secundam Verbum tuum — Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). 144-149
Significa aderir ao próprio Deus, confiando nele e dando assentimento a todas as verdades por ele reveladas, porque Deus é a verdade. Significa crer num só Deus em três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. 150-152 176-178
A fé, dom gratuito de Deus e acessível a todos os que a pedem com humildade, é virtude sobrenatural necessária à salvação. O ato de fé é um ato humano, ou seja, um ato da inteligência do homem que, sob o impulso da vontade movida por Deus, dá livremente o próprio consenso à verdade divina. Além disso, a fé é certa porque fundada na Palavra de Deus, é operosa “pelo amor” (Gl 5,6); está em contínuo crescimento graças, em particular, à escuta da Palavra de Deus e à oração. Ela nos faz prelibar desde já a alegria celeste. 153-165 179-180 183-184
Embora a fé supere a razão, jamais poderá haver contradição entre fé e ciência, porque ambas têm origem em Deus. É o mesmo Deus que dá ao homem tanto a luz da razão quanto a fé. 159 “Crê para compreender, compreende para crer” (Santo Agostinho).
NÓS CREMOS
A fé é um ato pessoal, como livre resposta do homem a Deus que se revela. Mas é ao mesmo tempo um ato eclesial, que se exprime na confissão: “Nós cremos”. Com efeito, é a Igreja que crê. Desse modo, com a graça do Espírito Santo, ela precede, gera e alimenta a fé de cada um. Por isso a Igreja é Mãe e Educadora. 166-169 181
As fórmulas da fé são importantes porque permitem exprimir, assimilar, celebrar e partilhar juntamente com outros as verdades da fé, utilizando uma linguagem comum. 170-171
A Igreja, embora formada por pessoas diferentes por língua, cultura e ritos, professa, com voz unânime, a única fé recebida de um só Senhor e transmitida pela única Tradição Apostólica. Professa um só Deus — Pai, Filho e Espírito Santo — e mostra um só caminho de salvação. Portanto, nós cremos, com um só coração e com uma só alma, em tudo o que está contido na Palavra de Deus, transmitida ou escrita, e é proposto pela Igreja como divinamente revelado. 172-175 182
Esse antigo mosaico da basílica romana de São Clemente celebra o triunfo da Cruz, mistério central da fé cristã. Pode-se observar a florescência luxuriante de um feixe de acanto, do qual transbordam os numerosíssimos ramos que se estendem em todas as direções, com suas flores e seus frutos. A vitalidade dessa planta é dada pela cruz de Jesus, cujo sacrifício constitui a recriação da humanidade e do cosmo. Jesus é o novo Adão que, com o mistério da sua paixão, morte e ressurreição, faz reflorescer a humanidade, reconciliando-a com o Pai. Em torno de Cristo sofredor existem doze pombas brancas, que representam os doze apóstolos. Aos pés da cruz estão Maria e João, o discípulo predileto: “Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe: ‘Mulher, eis o teu filho!’ Depois disse ao discípulo: ‘Eis a tua mãe!’A partir daquela hora, o discípulo a acolheu junto de si” (Jo 19,26-27). No alto se destaca a mão do Pai, que oferece uma coroa de glória ao seu Filho vitorioso da morte com seu mistério pascal. Na base da planta há um pequeno cervo que combate a serpente do mal. Dessa planta, que representa a árvore da redenção, brota uma fonte de água borbulhante, que dá vida a quatro rios, que simbolizam os quatro Evangelhos, no qual os fiéis matam a sede, como fazem os cervos nas fontes de água viva. A Igreja aqui é representada como um jardim celeste vivificado por Jesus, verdadeira árvore da vida.
Creio em Deus Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra. E em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, que foi concebido pelo poder do Espírito Santo; nasceu da Virgem Maria; padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia; subiu aos céus, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, donde há de vir julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo, na santa Igreja católica, na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne, na vida eterna. Amém.
Credo in Deum Patrem omnipotentem, Creatorem caeli et terrae, et in Iesum Christum, Filium Eius unicum, Dominum nostrum, qui conceptus est de Spiritu Sancto, natus ex Maria Virgine, passus sub Pontio Pilato, crucifixus, mortuus, et sepultus, descendit ad inferos, tertia die resurrexit a mortuis, ascendit ad caelos, sedet ad dexteram Dei Patris omnipotentis, inde venturus est iudicare vivos et mortuos. Et in Spiritum Sanctum, sanctam Eccleesiam catholicam, sanctorum communionem, remissionem peccatorum, carnis resurrectionem, vitam aeternam. Amen.
Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis. Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstanciai ao Pai. Por ele todas as coisas foram feitas. E por nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus e se encarnou, pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem. Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado. Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras, e subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai. E de novo há de vir, em sua glória, para julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fím. Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado, ele que falou pelos profetas. Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica. Professo um só batismo para remissão dos pecados. E espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir. Amém.
Credo in unum Deum, Patrem omnipotentem, Factorem caeli et terrae, visibilium omnium et invisibilium. Et in unum Dominum Iesum Christum, Filium Dei unigenitum et ex Patre natum ante omnia saecula: Deum de Deo, Lumen de Lumine, Deum verum de Deo vero, genitum, non factum, consubstantialem Patri: per quem omnia facta sunt; qui propter nos homines et propter nostram salutem, descendit de caelis, et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine et homo factus est, crucifíxus etiam pro nobis sub Pontio Pilato, passus et sepultus est, et resurrexit tertia die secundum Scripturas, et ascendit in caelum, sedet ad desteram Patris, et iterum venturus est cum gloria, iudicare vivos et mortuos, cuius regni non erit finis. Credo in Spiritum Sanctum, Dominum et vivificantem, qui ex Patre Filioque procedit, qui cum Patre et Filio simui adoratur et conglorificatur, qui locutus est per Prophetas. Et unam saneiam catholicam et apostolicam Ecclesiam. Confiteor unum Baptisma in remissionem peccatorum. Et exspecto resurrectionem mortuorum, et vitam venturi saeculi. Amen.
São fórmulas articuladas, chamadas também de “profissões de fé” ou “Credo”, com que a igreja, desde suas origens, expressou de modo sintético e transmitiu a própria fé com uma linguagem normativa e comum a todos os fiéis. 185-188 192, 197
São os Símbolos batismais. Uma vez que o Batismo é dado “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19), as verdades de fé neles professadas são articuladas em referência às três Pessoas da Santíssima Trindade. 189-191
São o Símbolo dos Apóstolos, que é o antigo Símbolo batismal da Igreja de Roma, e o Símbolo niceno-constantinopolitano, fruto dos primeiros dois Concílios Ecumênicos de Nicéia (325) e de Constantinopla (381) e ainda hoje comum a todas as grandes Igrejas do Oriente e do Ocidente. 193-195
“CREIO EM DEUS PAI TODO-PODEROSO, CRIADOR DO CÉU E DA TERRA”
Porque a afirmação “Creio em Deus” é a mais importante, a fonte de todas as outras verda-des sobre o homem e sobre o mundo, e de toda a vida de cada um que nele crê. 198-199
Porque ele se revelou ao povo de Israel como o Único, quando disse: “Ouve, Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Dt 6,4), “eu é que sou Deus e outro não há” (Is 45,22). O próprio Jesus o confirmou: Deus é “um só” (Mc 12,29). Professar que Jesus e o Espírito Santo são também Deus e Senhor não introduz nenhuma divisão no Deus único. 200-202 228
A Moisés Deus se revela como o Deus vivo, “o Deus de Abraão,o Deus de Isaac, o Deus de Jacó” (Ex 3,6). Ao mesmo Moisés, Deus revela o seu Nome misterioso: “Eu Sou Aquele que Sou (YHWH)”. O nome inefável de Deus, já nos tempos do Antigo Testamento, foi substituído pela palavra Senhor. Assim, no Novo Testamento, Jesus, chamado de Senhor, mostra-se como verdadeiro Deus. 203-205 230-231
Somente Deus é em si mesmo a plenitude do ser e de toda perfeição, ao passo que as criaturas receberam dele tudo o que são e têm. Ele é “aquele que é”, sem origem e sem fim. Jesus revela que também ele leva o Nome divino: “Eu sou” (Jo 8,28). 212-213
Ao revelar o seu Nome, Deus dá a conhecer as riquezas contidas no seu mistério inefável: somente ele é, desde sempre e para sempre, aquele que transcende o mundo e a história. É ele que fez o céu e a terra. É o Deus fiel, sempre próximo a seu povo para o salvar. É o santo por excelência, “rico em misericórdia” (Ef 2,4), sempre pronto a perdoar. É o Ser espiritual, transcendente, onipotente, eterno, pessoal, perfeito. É verdade e amor. 206-213 “Deus é o ser infinitamente perfeito que é a Santíssima Trindade” (São Turíbio de Mongrovejo).
Deus é a própria Verdade e como tal não se engana e não pode enganar. Ele “é luz e nele não há trevas” (1Jo 1,5). O Filho eterno de Deus, Sabedoria encarnada, foi enviado ao mundo “para dar testemunho da verdade” (Jo 18,37). 214-217 231
Deus se revela a Israel como aquele que tem um amor mais forte do que o de um pai ou de uma mãe pelos seus filhos, ou de um esposo por sua esposa. Ele, em si mesmo, “é amor” (1Jo 4,8.16), que se doa completa e gratuitamente, “que amou tanto o mundo que deu o seu Filho único para que todo o que nele crer seja salvo por ele” (Jo 3,16-17). Enviando seu Filho e o Espírito Santo, Deus revela que ele próprio é eterna troca de amor. 218-221
Crer em Deus, o único, comporta: conhecer sua grandeza e majestade; viver em ação de graças; confiar nele sempre, mesmo nas adversidades; reconhecer a unidade e a verdadeira dignidade de todos os homens, criados à imagem de Deus; usar corretamente as coisas criadas por ele. 222-227 229
O mistério central da fé e da vida cristã é o mistério da Santíssima Trindade. Os cristãos são batizados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. 232-237
Deus deixou alguns vestígios do seu ser trinitário na criação e no Antigo Testamento, mas a intimidade do seu Ser como Trindade Santa constitui um mistério inacessível à pura razão humana e até mesmo à fé de Israel antes da Encarnação do Filho de Deus e da missão do Espírito Santo. Esse mistério foi revelado por Jesus Cristo e é a fonte de todos os outros mistérios. 237
Jesus Cristo nos revela que Deus é “Pai”, não somente porque é Criador do universo e do homem, mas sobretudo porque gera eternamente em seu seio o Filho, que é o seu Verbo, “resplendor da glória do Pai, expressão de seu ser” (Hb 1,3). 240-242
É a terceira Pessoa da Santíssima Trindade. É Deus, uno e igual ao Pai e ao Filho. Ele “procede do Pai” (Jo 15,26), o qual, princípio sem princípio, é a origem de toda a vida trinitária. E procede também do Filho (Filioque), pelo dom eterno que o Pai faz ao Filho. Enviado pelo Pai e pelo Filho encarnado, o Espírito Santo conduz a Igreja ao conhecimento “da verdade plena” (Jo 16,13). 243-248
A Igreja exprime a sua fé trinitária ao confessar um só Deus em três Pessoas: Pai e Filho e Espírito Santo. As três Pessoas divinas são um só Deus porque cada uma delas é idêntica à plenitude da única e indivisível natureza divina. Elas são realmente distintas entre si pelas relações que as põem em referência umas com as outras: o Pai gera o Filho, o Filho é gerado pelo Pai, o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. 249-256 266
Inseparáveis na sua única substância, as Pessoas divinas são inseparáveis também em suas operações: a Trindade tem uma só e mesma operação. Mas no único agir divino cada Pessoa está presente segundo o modo que lhe é próprio na Trindade. 257-260 267 “Ó meu Deus, Trindade que adoro… pacifica a minha alma; faz dela o teu céu, a tua morada amada e o lugar do teu repouso. Que eu não te deixe jamais só, mas que eu esteja ali, toda inteira, completamente vigilante na minha fé, toda adoradora, toda entregue à tua ação criadora” (Bem-aventurada Elisabete da Trindade).
Deus se revelou como “Forte e Poderoso” (Sl 24,8), aquele ao qual “nada é impossível” (Lc 1,37). A sua onipotência é universal, misteriosa, e se manifesta ao criar o mundo do nada e o homem por amor, mas sobretudo na Encarnação e na Ressurreição do Seu Filho, no dom da adoção filial e no perdão dos pecados. Por isso a Igreja dirige a sua oração ao “Deus todo-poderoso e eterno” (“Omnipotens sempiterne Deus…”). 268-278
Porque a criação é o fundamento de todos os divinos desígnios salvíficos; manifesta o amor onipotente e sapiente de Deus; é o primeiro passo para a Aliança do único Deus com o seu povo; e o início da história da salvação que culmina em Cristo; é uma primeira resposta às interrogações fundamentais do homem acerca da própria origem e do próprio fim. 279-289 315.
O Pai, o Filho e o Espírito Santo são o princípio único e indivisível do mundo, ainda que a obra da criação do mundo seja particularmente atribuída a Deus Pai. 290-292 316
O mundo foi criado para a glória de Deus, que quis manifestar e comunicar a sua bondade, verdade e beleza. O fim último da criação é que Deus, em Cristo, possa ser “tudo em todos” (1Cor 15,28), para a sua glória e para a nossa felicidade. 293-294 319 “A glória de Deus é o homem vivo e a vida do homem é a visão de Deus” (Santo Ireneu).
Deus criou o universo livremente com sabedoria e amor. O mundo não é o produto de uma necessidade, de um destino cego ou do acaso. Deus criou “do nada” (ex nihilo: 2Mc 7,28) um mundo ordenado e bom, que ele transcende de modo infinito. Deus conserva no ser a sua criação e a sustenta, dando-lhe a capacidade de agir e levando-a à sua realização, por meio do seu Filho e do Espírito Santo. 295-301 317-320
Consiste nas disposições com que Deus conduz as suas criaturas para a perfeição última, para a qual ele as chamou. Deus é o autor soberano do seu desígnio. Mas para a sua realização se serve também da cooperação das suas criaturas. Ao mesmo tempo, dá às criaturas a dignidade de agirem elas mesmas, de serem causa umas das outras. 302-306 321
Ao homem Deus concede e pede, respeitando a sua liberdade, a colaboração de suas ações, de suas orações, mas também de seus sofrimentos, suscitando nele “tanto o querer como o fazer, conforme o seu agrado” (Fl 2,13). 307-308 323
A essa interrogação, tão dolorosa quanto misteriosa, pode dar resposta somente o conjunto da fé cristã. Deus não é de modo algum, nem direta nem indiretamente, a causa do mal. Ele ilumina o mistério do mal em seu Filho, Jesus Cristo, que morreu e ressuscitou para vencer aquele grande mal moral que é o pecado dos homens e que é a raiz dos outros males. 309-310 324, 400
A fé nos dá a certeza de que Deus não permitiria o mal se do mesmo mal não tirasse o bem. Deus já realizou isso de modo admirável por ocasião da morte e ressurreição de Cristo: com efeito, do maior mal moral, a morte do seu Filho, ele auferiu os maiores bens, a glorificação de Cristo e a nossa redenção. 311-314 324
O céu e a terra
A Sagrada Escritura diz: “Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1). A Igreja, na sua profissão de fé, proclama que Deus é o criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, de todos os seres espirituais e materiais, ou seja, dos anjos e do mundo visível e, de modo particular, do homem. 325-327
Os anjos são criaturas puramente espirituais, não-corpóreas, invisíveis e imortais, seres pessoais dotados de inteligência e de vontade. Eles, contemplando Deus face a face incessantemente, glorificam-no, servem-no e são seus mensageiros no cumprimento da missão de salvação para todos os homens. 328-333 350-351
A Igreja se une aos anjos para adorar a Deus, invoca a assistência deles e celebra liturgicamente a memória de alguns. 334-336 352 “Cada fiel tem ao próprio lado um anjo como protetor e pastor, para o conduzir à vida” (São Basílio Magno).
Por meio da narração dos “seis dias” da criação, a Sagrada Escritura nos faz conhecer o valor da criação e a sua finalidade de louvor a Deus e de serviço ao homem. Todas as coisas devem a própria existência a Deus, do qual recebe a própria bondade e perfeição, as próprias leis e o próprio lugar no universo. 337-344
O homem é o cume da criação visível, porquanto é criado a imagem e semelhança de Deus. 343-344 353
Existe entre as criaturas uma interdependência e uma hierarquia queridas por Deus. Ao mesmo tempo, existe uma unidade e solidariedade entre as criaturas, pois todas têm o mesmo criador, são por ele amadas e estão ordenadas à sua glória. Respeitar as leis inscritas na criação e as relações que derivam da natureza das coisas é, portanto, princípio de sabedoria e fundamento da moral. 342 354
A obra da criação culmina na obra ainda maior da redenção. Com efeito, esta dá início à nova criação, na qual tudo encontrará seu pleno sentido e seu cumprimento. 345-349
O homem
O homem é criado à imagem de Deus no sentido de que é capaz de conhecer e de amar, na liberdade, o próprio criador. É a única criatura nesta terra que Deus quis em si mesma e que chamou a partilhar, no conhecimento e no amor, a sua vida divina. Criado à imagem de Deus, ele tem a dignidade de pessoa: não é alguma coisa, mas alguém, capaz de se conhecer, de se doar livremente e de entrar em comunhão com Deus e com as outras pessoas. 355-357
Deus criou tudo para o homem, mas o homem foi criado para conhecer, servir e amar a Deus, para oferecer-lhe, neste mundo, toda a criação em ação de graças e ser elevado à vida com Deus no céu. Somente no mistério do Verbo encarnado encontra a verdadeira luz o mistério do homem predestinado a reproduzir a imagem do Filho de Deus feito homem, que é a perfeita “imagem do Deus invisível” (Cl 1,15). 358-359 381
Todos os homens formam a unidade do gênero humano pela comum origem que têm em Deus. Além disso, Deus “de um só homem fez toda a espécie humana” (At 17,26). Todos, pois, têm um único Salvador e todos são chamados a partilhar da eterna felicidade de Deus. 360-361
A pessoa humana é um ser ao mesmo tempo corporal e espiritual. O espírito e a matéria, no homem, formam uma única natureza. Essa unidade é tão profunda que, graças ao princípio espiritual que é a alma, o corpo, que é material, torna-se um corpo humano e vivo, e participa da dignidade de imagem de Deus. 362-365 382
A alma espiritual não vem dos pais, mas é criada diretamente por Deus e é imortal. Ao separar-se do corpo por ocasião da morte, ela não perece; unir-se-á novamente ao corpo no momento da ressurreição final. 366-368 382
O homem e a mulher foram criados por Deus numa igual dignidade como pessoas humanas e, ao mesmo tempo, numa recíproca complementaridade como homem e mulher. Deus os quis um para o outro, para uma comunhão de pessoas. Juntos, são também chamados a transmitir a vida humana, formando no matrimônio “uma só carne” (Gn 2,24), e a dominar a terra como “intendentes” de Deus. 369-373 383
Deus, ao criar o homem e a mulher, tinha lhes dado uma especial participação na própria vida divina, em santidade e justiça. No desígnio de Deus, o homem não deveria nem sofrer nem morrer. Além disso, reinava uma harmonia perfeita no homem em si mesmo, entre criatura e Criador, entre homem e mulher, bem como entre o primeiro casal humano e toda a criação. 374-379 384
A queda
Na história do homem está presente o pecado. Essa realidade se esclarece plenamente apenas à luz da Revelação divina e sobretudo à luz de Cristo Salvador de todos, que fez superabundar a graça onde abundou o pecado. 385-389
Com esta expressão indica-se que Satanás e os outros demônios de que falam a Sagrada Escritura e a Tradição da Igreja, de anjos criados bons por Deus transformaram-se em maus, porque com livre e irrevogável escolha rejeitaram a Deus e o seu Reino, dando assim origem ao inferno. Eles tentam associar o homem à sua rebelião contra Deus; mas Deus afirma em Cristo a sua vitória segura sobre o Maligno. 391-395 414
O homem, tentado pelo diabo, deixou que se apagasse em seu coração a confiança em relação a seu Criador e, desobedecendo-o, quis se tornar “como Deus” sem Deus, e não segundo Deus (Gn 3,5). Assim, Adão e Eva perderam imediatamente para si e para todos os seus descendentes a graça da santidade e da justiça originais. 396-403 415-417
O pecado original, no qual todos os homens nascem, é o estado de privação da santidade e da justiça originais. É um pecado por nós “contraído”, não “cometido”; é uma condição de nascimento e não um ato pessoal. Em virtude da unidade de origem de todos os homens, ele se transmite com a natureza humana aos descendentes de Adão, “não por imitação, mas por propagação”. Essa transmissão permanece um mistério que não podemos compreender plenamente. 404 419
Em conseqüência do pecado original, a natureza humana, sem ser totalmente corrompida, está ferida em suas forças naturais, submetida à ignorância, ao sofrimento, ao poder da morte e inclinada ao pecado. Essa inclinação é chamada concupiscência. 405-409 418
Depois do primeiro pecado, o mundo foi inundado pelos pecados, porém Deus não abandonou o homem ao poder da morte, mas, ao contrário, prognosticou-lhe de modo misterioso – no “Proto-evangelho” (Gn 3,15) – que o mal seria vencido e o homem elevado da queda. É o primeiro anúncio do Messias redentor. Por isso, a queda será chamada de feliz culpa, porque “mereceu tal e tão grande Redentor” (Liturgia da Vigília pascal) 410-412 420.