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Os 4 dogmas marianos: o que a Igreja ensina sobre Maria

Anjo Gabriel anuncia a Maria a Encarnação, mistério ligado aos dogmas marianos

A Igreja Católica tem quatro dogmas marianos: Maria é Mãe de Deus, sempre virgem, concebida sem pecado original e assunta ao Céu em corpo e alma. Cada um deles foi definido num momento preciso, quase sempre para responder a um erro sobre Cristo.

Este artigo explica o que cada dogma afirma, onde e quando foi definido, em que se apoia na Escritura e nos Padres, e como responder às objeções protestantes mais comuns.

Resposta rápida

Quais são os 4 dogmas marianos?

Os quatro dogmas marianos são: a Maternidade Divina (Concílio de Éfeso, 431), a Virgindade Perpétua (Constantinopla II, 553, e Sínodo de Latrão, 649), a Imaculada Conceição (Pio IX, 1854) e a Assunção (Pio XII, 1950). Os dois últimos são definições ex cathedra do Papa. Todos dizem algo sobre Maria para proteger a verdade sobre Cristo.

O que é um dogma

Dogma é uma verdade contida na Revelação divina que a Igreja propõe de modo definitivo, obrigando os fiéis a uma adesão irrevogável de fé (CIC §88). Os dogmas não são acréscimos: são luzes no caminho da fé, que o iluminam e o tornam seguro (CIC §89).

A Igreja não “cria” um dogma em determinado ano. Ela declara solenemente o que sempre foi crido, quase sempre quando essa fé é contestada. É a resposta à objeção de que os dogmas católicos não resistem ao exame bíblico.

DogmaO que afirmaDefinido onde e quandoPor quemBase bíblica e patrística
Maternidade DivinaMaria é verdadeiramente Mãe de Deus (Theotokos)Concílio de Éfeso, 431Concílio, sob o Papa Celestino ILc 1,43; Gl 4,4; São Cirilo de Alexandria
Virgindade PerpétuaMaria foi virgem antes, durante e depois do partoConstantinopla II, 553; Sínodo de Latrão, 649Concílio; Papa São Martinho IIs 7,14; Lc 1,34; Mt 1,18-25; Santo Atanásio, São Jerônimo
Imaculada ConceiçãoMaria foi preservada do pecado original desde a concepçãoBula Ineffabilis Deus, 8/12/1854Pio IXGn 3,15; Lc 1,28; Santo Efrém
AssunçãoAo fim da vida terrena, Maria foi levada ao Céu em corpo e almaConstituição apostólica Munificentissimus Deus, 1/11/1950Pio XIIAp 12; Sl 132,8; São João Damasceno
Os quatro dogmas marianos: conteúdo, data, autoridade e fundamentos
Ícone Hodegetria da Virgem que aponta para o Menino, Maria Mãe de Deus
Ícone da Mãe de Deus Hodegetria de Sluck (século XVI). Imagem: Autor desconhecido (Belarusian master), domínio público, via Wikimedia Commons

1. Maria, Mãe de Deus

No século V, Nestório aceitava chamar Maria de “mãe de Cristo”, mas não de “Mãe de Deus”. O Concílio de Éfeso respondeu em 431: Jesus é uma só Pessoa, a do Verbo eterno, e quem gera essa Pessoa segundo a carne é Mãe de Deus (CIC §495).

A objeção “como Deus, que é eterno, pode ter mãe?” confunde a natureza divina com a Pessoa. Maria não deu origem à divindade, mas é mãe de quem é Deus. Isabel já a chama de “mãe do meu Senhor” (Lc 1,43). A resposta completa está em como Maria pode ser Mãe de Deus, se Deus é eterno.

Virgem com o Menino Jesus e São João Batista criança, a maternidade divina
Madona de Alba, de Rafael (c. 1510). Imagem: Raphael, domínio público, via Wikimedia Commons

2. A virgindade perpétua de Maria

A Igreja confessa que Jesus foi concebido sem concurso de homem e que Maria permaneceu virgem durante toda a vida (CIC §496-501). Constantinopla II a chama de “sempre virgem”, e o Sínodo de Latrão de 649 afirmou a virgindade antes, durante e depois do parto.

A objeção clássica são os “irmãos de Jesus” (Mc 6,3). Mas Tiago e José, citados ali, são filhos de outra Maria (Mt 27,56), e em hebraico e aramaico “irmão” designa também primos e parentes. Se Maria tivesse outros filhos, Jesus não a teria confiado a João na cruz (Jo 19,26-27).

O tema é aprofundado em a virgindade perpétua de Maria, e as objeções específicas em “Jesus é primogênito, logo Maria teve outros filhos” e o “até que” de Mt 1,25.

Virgem Imaculada sobre a lua cercada de anjos, dogma da Imaculada Conceição
Imaculada Conceição, de Bartolomé Esteban Murillo (século XVII). Imagem: Bartolomé Esteban Murillo, domínio público, via Wikimedia Commons

3. A Imaculada Conceição

Em 8 de dezembro de 1854, o Papa Pio IX definiu na bula Ineffabilis Deus que Maria, desde o primeiro instante da sua concepção, foi preservada de toda mancha do pecado original, por graça singular de Deus e em vista dos méritos de Cristo (CIC §490-492).

O protestante objeta que “todos pecaram” (Rm 3,23) e que Maria chama Deus de “meu Salvador” (Lc 1,47). A Igreja concorda: Maria foi salva, mas de modo mais sublime, sendo preservada em vez de purificada. O anjo a saúda como “cheia de graça” (Lc 1,28) antes mesmo da Encarnação.

Leia também a resposta a “em 1854, dogma da Imaculada Conceição”. A solenidade de 8 de dezembro é um dos dias santos de guarda no Brasil, e o Ofício da Imaculada Conceição é uma ótima preparação.

Retrato do Papa Pio IX, que definiu o dogma da Imaculada Conceição em 1854
Retrato do Papa Pio IX. Imagem: François Désiré Gosselin, domínio público, via Wikimedia Commons

4. A Assunção de Maria

Em 1º de novembro de 1950, Pio XII definiu que Maria, terminado o curso da vida terrena, foi assunta em corpo e alma à glória celeste (CIC §966). O documento é a constituição apostólica Munificentissimus Deus, e não uma encíclica, como muitas vezes se diz.

Maria elevada ao Céu entre anjos diante dos Apóstolos, dogma da Assunção
Assunção da Virgem, de Ticiano (1516-1518). Imagem: Titian, domínio público, via Wikimedia Commons

O Papa não definiu se Maria morreu antes de ser assunta. No Oriente, a festa da Dormição já era celebrada séculos antes. O texto integral está no site da Santa Sé (Munificentissimus Deus).

Sobre a objeção de que o fato não está na Bíblia, veja “a Bíblia não diz que Maria subiu ao Céu” e “em 1950, o dogma da ascensão de Maria”. Note-se a diferença: Cristo subiu ao Céu por seu poder (Ascensão); Maria foi elevada por Deus (Assunção).

Papa Pio XII, que definiu o dogma da Assunção de Maria em 1950
Papa Pio XII (1958). Imagem: Navy Medicine, domínio público, via Wikimedia Commons

Os dogmas definidos ex cathedra

A Imaculada Conceição e a Assunção são as duas definições ex cathedra feitas pelo Papa fora de um concílio. A infalibilidade nesses casos foi explicada pelo Vaticano I na constituição Pastor Aeternus (1870). Os dois primeiros dogmas vieram de concílios, como mostra o artigo sobre os 21 concílios ecumênicos.

Sobre o alcance da infalibilidade papal, veja “em 1870 foi declarada a infalibilidade papal”.

Dogmas e títulos marianos não definidos

Nem tudo o que se diz de Maria é dogma. Muitos títulos são legítimos e antigos, mas não foram definidos solenemente.

Afirmação sobre MariaÉ dogma?Situação
Mãe de Deus, sempre virgem, Imaculada, AssuntaSimDefinidos; exigem adesão de fé
Rainha do CéuNãoDoutrina ensinada por Pio XII (1954), sem definição dogmática
Mãe da IgrejaNãoTítulo proclamado por Paulo VI (1964)
Medianeira de todas as graçasNãoEnsinamento comum, nunca definido
CorredentoraNãoTítulo discutido, nunca definido
Diferença entre os quatro dogmas marianos e outros títulos de Nossa Senhora

Venerar Maria não é adorá-la, como explica a resposta a “católicos adoram Maria”. Para uma visão de conjunto, veja o verbete Maria e a exortação Marialis Cultus, sobre o culto à Virgem.

Quais são os 4 dogmas marianos?

A Maternidade Divina (Maria é Mãe de Deus, Éfeso, 431), a Virgindade Perpétua (Maria sempre virgem, Constantinopla II, 553, e Latrão, 649), a Imaculada Conceição (preservada do pecado original, Pio IX, 1854) e a Assunção (levada ao Céu em corpo e alma, Pio XII, 1950).

O que é dogma?

Dogma é uma verdade revelada por Deus que a Igreja propõe de modo definitivo, por um concílio ou por definição solene do Papa, exigindo de todos os fiéis a adesão de fé (CIC §88). O dogma não inventa nada: declara com autoridade o que já estava contido na Escritura e na Tradição.

A assunção de Maria está na Bíblia?

Não há um versículo que narre a Assunção, assim como não há um que liste os livros da Bíblia. A Igreja a vê prefigurada em textos como Gn 3,15 e Ap 12, e a recebe pela Tradição, já celebrada no Oriente como Dormição. Pio XII a definiu em 1950, na constituição Munificentissimus Deus.

Maria teve outros filhos?

Não. Os chamados irmãos de Jesus são parentes: Tiago e José, citados em Mc 6,3, são filhos de outra Maria (Mt 27,56). Em hebraico e aramaico a palavra irmão inclui primos. Na cruz, Jesus confiou sua mãe a João (Jo 19,26-27), o que não faria se ela tivesse outros filhos.

Existe um quinto dogma mariano?

Não. Há grupos que pedem a definição de Maria como Corredentora ou Medianeira de todas as graças, mas a Igreja nunca definiu esses títulos como dogma. Os dogmas marianos continuam sendo quatro: Mãe de Deus, Virgindade Perpétua, Imaculada Conceição e Assunção.

Os quatro dogmas formam um conjunto: falam de Maria, mas apontam para Cristo. Quem os entende percebe que honrar a Mãe é um modo de confessar com mais clareza quem é o Filho, como ensina São Luís de Montfort no Tratado da Verdadeira Devoção à Virgem Maria.