COMPÊNDIO DO
CATECISMO DA
IGREJA CATÓLICA
SEGUNDA PARTE
A CELEBRAÇÃO DO MISTÉRIO PASCAL
Liturgia – A Igreja celebra
A palavra hebraica ‘Amen’, que conclui também o último livro da Sagrada Escritura, algumas orações do Novo Testamento e as da liturgia da Igreja, significa o nosso “sim” confiante e total ao que professamos crer, confiando-nos totalmente naquele que é o “Amém” (Ap 3,14) definitivo: Cristo Senhor. 1061-1065
Primeira Seção – A Economia Sacramental
O sacrifício da cruz é a fonte da economia sacramental da Igreja. Na imagem, Maria, símbolo da Igreja, com a mão esquerda recolhe do lado aberto de Cristo sangue e água, símbolos dos sacramentos da Igreja: “Chegando a Jesus viram que já estava morto. Por isso, não lhe quebraram as pernas, mas um soldado golpeou-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água” (Jo 19,33-34). ?
Santo Agostinho comenta: ?
“Cristo Senhor nosso, portanto, que ao partir ofereceu para nós aquilo que ao nascer havia tomado de nós, tornado eternamente o maior dos sacerdotes, dispôs que se oferecesse o sacrifício que vós vedes, o seu corpo e o seu sangue. De fato, o seu corpo, atravessado pela lança, difundiu água e sangue, com os quais remiu nossos pecados. Recordando essa graça, operando a nossa salvação (pois é Deus que a opera em nós), com temor e tremor aproximai-vos para participar desse altar. Reconhecei no pão aquele mesmo [corpo] que pendeu sobre a cruz, e no cálice aquele mesmo [sangue] que jorrou do seu lado. Também os antigos sacrifícios do povo de Deus, na sua múltipla variedade, prefiguravam esse único sacrifício que devia vir. E Cristo é ao mesmo tempo a ovelha, pela inocência da sua alma pura, e o bode, pela sua carne semelhante à do pecado. E qualquer outra coisa, que de muitas e diferentes maneiras seja prefigurada nos sacrifícios do Antigo Testamento, se refere apenas a este [sacrifício] que foi revelado no Novo Testamento. ?
A liturgia é a celebração do Mistério de Cristo e em particular do seu Mistério pascal. Nela, mediante o exercício do ofício sacerdotal de Jesus Cristo, é por sinais significada e realizada a santificação dos homens e se realiza pelo Corpo místico de Cristo, ou seja, pela cabeça e pelos membros, o culto público devido a Deus. 1066-1070
A liturgia, ação sagrada por excelência, constitui o ápice para o qual tende a ação da Igreja e ao mesmo tempo a fonte de que emana a sua força vital. Mediante a liturgia, Cristo continua na sua Igreja, com ela e por meio dela, a obra da nossa redenção. 1071-1075
A economia sacramental consiste em comunicar os frutos da redenção de Cristo mediante a celebração dos sacramentos da Igreja, principalmente da Eucaristia, “até que ele venha” (1Cor 11,26). 1076
CAPÍTULO PRIMEIRO
Mistério Pascal no tempo da Igreja
LITURGIA – OBRA DA SANTÍSSIMA TRINDADE.
Na liturgia, o Pai nos enche com suas bênçãos no Filho encarnado, morto e ressuscitado por nós, e ele derrama nos nossos corações o Espírito Santo. Ao mesmo tempo a igreja bendiz o Pai com a adoração, o louvor e a ação de graças e implora o dom do seu Filho e do Espírito Santo. 1077-1083 1110
Na liturgia da Igreja, Cristo significa e realiza principalmente o próprio Mistério pascal. Ao dar o Espírito Santo aos Apóstolos, concedeu a eles e a seus sucessores o poder de realizar a obra da salvação por meio do Sacrifício eucarístico e dos sacramentos, nos quais Ele próprio age para comunicar a sua graça aos fiéis de todos os tempos e em todo o mundo. 1084-1090
Na liturgia realiza-se a mais íntima cooperação entre o Espírito Santo e a Igreja. O Espírito Santo prepara a Igreja para encontrar o seu Senhor; lembra e manifesta Cristo à fé da assembléia; torna presente e atualiza o Mistério de Cristo; une a Igreja à vida e à missão de Cristo e faz frutificar nela o dom da comunhão. 1091-1109 1112
O MISTÉRIO PASCAL NOS SACRAMENTOS DA IGREJA
Os sacramentos são sinais sensíveis e eficazes da graça, instituídos por Cristo e confiados à Igreja, por meio dos quais nos é concedida a vida divina. São sete: o Batismo, a Confirmação, a Eucaristia, a Penitência, a Unção dos enfermos, a Ordem e o Matrimônio. 1113-1131
Os mistérios da vida de Cristo constituem o fundamento do que agora Cristo, mediante os ministros da Igreja, dispensa nos sacramentos. 1114-1116 “O que era visível no nosso Salvador passou para os seus sacramentos” (São Leão Magno).
Cristo confiou os sacramentos à sua Igreja. Eles são “da Igreja” num duplo sentido: são “dela” porquanto são ação da Igreja, a qual é sacramento da ação de Cristo, e são “para ela”, no sentido de que edificam a Igreja. 1117-1119
É o selo espiritual conferido pelos sacramentos do Batismo, da Confirmação e da Ordem. Ele é promessa e garantia da proteção divina. Por força desse selo o cristão é configurado a Cristo, participa de vários modos do seu sacerdócio e faz parte da Igreja segundo estados e funções diversas. É, portanto, consagrado ao culto divino e ao serviço da Igreja. Uma vez que o caráter é indelével, os sacramentos que o imprimem são recebidos uma só vez na vida. 1121
Os sacramentos não apenas supõem a fé, mas com as palavras e os elementos rituais a nutrem, a fortalecem e a exprimem. Celebrando os sacramentos, a Igreja confessa a fé apostólica. Daí o antigo ditado: “lex orandi, lex credendi”, ou seja, a Igreja crê como ora. 1122-1126 1133
Os sacramentos são eficazes ex opere operato (“pelo fato mesmo de a ação sacramental se realizar”), porque é Cristo que age neles e que comunica a graça que significam, independentemente da santidade pessoal do ministro; todavia, os frutos dos sacramentos dependem também das disposições de quem os recebe. 1127-1128 1131
Para os que crêem em Cristo os sacramentos são necessários para a salvação, embora não sejam conferidos todos a cada fiel individualmente, porque conferem as graças sacramentais, o perdão dos pecados, a adoção como filhos de Deus, a conformação a Cristo Senhor e a pertença à Igreja. O Espírito Santo cura e transforma aqueles que os recebem. 1129
A graça sacramental é a graça do Espírito Santo, dada por Cristo e própria de cada sacramento. Essa graça ajuda o fiel no seu caminho de santidade, bem como a Igreja no seu crescimento de caridade e de testemunho. 1129;1131 1134;2003
Nos sacramentos, a Igreja recebe já uma antecipação da vida eterna, enquanto fica “aguardando a ditosa esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo” (Tt 2,13). 1130
CAPÍTULO SEGUNDO
A celebração sacramental do Mistério pascal
CELEBRAR A LITURGIA DA IGREJA
Quem celebra?
Na liturgia age “Cristo todo” (“Christus Totus”), Cabeça e Corpo. Como sumo Sacerdote, ele celebra com o seu Corpo, que é a Igreja celeste e terrena. 1135-1137 1187
A liturgia celeste é celebrada pelos anjos, pelos santos da Antiga e da Nova Aliança, em particular pela Mãe de Deus, pelos Apóstolos, pelos mártires e por uma “multidão imensa, que ninguém pode contar, gente de todas as nações, tribos, povos e línguas” (Ap 7,9). Quando celebramos nos sacramentos o mistério da salvação, participamos dessa liturgia eterna. 1138-1139
A Igreja nesta terra celebra a liturgia como povo sacerdotal, no qual cada um age segundo a própria função, na unidade do Espírito Santo: os batizados se oferecem em sacrifício espiritual; os ministros ordenados celebram segundo a Ordem recebida para o serviço de todos os membros da Igreja; os bispos e os presbíteros agem na pessoa de Cristo Cabeça. 1140-1144 1188
Como celebrar?
A celebração litúrgica é tecida de sinais e de símbolos, cujo significado, com raízes na criação e nas culturas humanas, adquire precisão nos eventos da Antiga Aliança e se revela plenamente na Pessoa e na obra de Cristo. 1145
Alguns provêm da criação (luz, água, fogo, pão, vinho, óleo); outros, da vida social (lavar, ungir, partir o pão); outros, da história da salvação na Antiga Aliança (os ritos da Páscoa, os sacrifícios, a imposição das mãos, as consagrações). Esses sinais, alguns dos quais são normativos e imutáveis, assumidos por Cristo, tornam-se portadores da ação de salvação e de santificação. 1146-1152 1189
Na celebração sacramental, ações e palavras estão estreitamente ligadas. Com efeito, ainda que as ações simbólicas já sejam em si mesmas uma linguagem, é necessário que as palavras do rito acompanhem e vivifiquem essas ações. Inseparáveis como sinais e ensinamento, as palavras e as ações litúrgicas o são também porquanto realizam o que significam. 1153-1155 1190
Uma vez que o canto e a música estão estreitamente ligados à ação litúrgica, devem respeitar os seguintes critérios: a conformidade com a doutrina católica dos textos, tirados de preferência da Escritura e das fontes litúrgicas; a beleza expressiva da oração; a qualidade da música; a participação da assembléia, a riqueza cultural do Povo de Deus; e o caráter sagrado e solene da celebração. “Quem canta reza duas vezes” (Santo Agostinho). 1156-1158 1191
A imagem de Cristo é o ícone litúrgico por excelência. As outras, que representam Nossa Senhora e os santos, significam Cristo, que nelas é glorificado. Proclamam a mesma mensagem evangélica que a Sagrada Escritura transmite mediante a palavra e ajudam a despertar e a nutrir a fé dos crentes. 1159-1161 1192
Quando celebrar?
O centro do tempo litúrgico é o domingo, fundamento e núcleo de todo o ano litúrgico, que tem o seu ápice na Páscoa anual, a festa das festas. 1163-1167 1193
No ano litúrgico, a Igreja celebra todo o Mistério de Cristo, da Encarnação a seu retorno glorioso. Em dias estabelecidos, a Igreja venera com especial amor a bem-aventurada Maria, Mãe de Deus, e também faz memória dos Santos, que por Cristo viveram, com ele sofreram e com ele foram glorificados. 1168-1173 1194-1195
A liturgia das Horas, oração pública e comum da Igreja, é a oração de Cristo com o seu corpo, a Igreja. Por seu meio, o Mistério de Cristo, que celebramos na Eucaristia, santifica e transfigura o tempo de cada dia.Ela se compõe principalmente de Salmos e de outros textos bíblicos, e também de leituras dos Padres e dos mestres espirituais. 1174-1178 1196
Onde celebrar?
O culto “em espírito e verdade” (Jo 4,24) da Nova Aliança não está ligado a nenhum lugar exclusivo, porque Cristo é o verdadeiro templo de Deus, por meio do qual também os cristãos e a Igreja inteira se tornam, sob a ação do Espírito Santo, templos de Deus vivo. Todavia, o Povo de Deus, na sua condição terrena, tem necessidade de lugares em que a comunidade possa se reunir para celebrar a liturgia. 1179-1181 1197-1198
São as casas de Deus, símbolo da Igreja que vive naquele lugar, bem como da morada celeste. São lugares de oração, nos quais a Igreja celebra, sobretudo, a Eucaristia e adora Cristo realmente presente no tabernáculo. 1181 1198-1199
São: o altar, o tabernáculo, a custódia do sagrado crisma e dos outros óleos sagrados, a sede do bispo (cátedra) ou do presbítero, o ambão, a fonte batismal, o confessionário. 1182-1186
DIVERSIDADE LITÚRGICA E UNIDADE DO MISTÉRIO
Porque a insondável riqueza do Mistério de Cristo não pode ser exaurida por uma única tradição litúrgica. Desde as origens, portanto, essa riqueza encontrou nos vários povos e culturas expressões caracterizadas por uma admirável variedade e complementaridade. 1200-1204 1207-1209
É a fidelidade à Tradição Apostólica, ou seja, a comunhão na fé e nos sacramentos recebidos pelos Apóstolos, comunhão que é significada e garantida pela sucessão apostólica. A Igreja é católica: pode, pois, integrar na sua unidade todas as verdadeiras riquezas das culturas. 1209
Na liturgia, especificamente na dos sacramentos, há elementos imutáveis, porque de instituição divina, de que a Igreja é fiel guardiã. Há também elementos suscetíveis de mudança, que ela tem o poder e às vezes também o dever de adaptar às culturas dos diversos povos. 1205-1206