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Quem são os carmelitas? A Ordem do Carmo, do Monte Carmelo ao Brasil

Nossa Senhora do Carmo com Santa Teresa d'Ávila e São João da Cruz, a mãe e os reformadores do Carmelo

Nasceram como eremitas numa montanha da Terra Santa, deram à Igreja três doutores e espalharam pelo mundo a devoção a Nossa Senhora do Carmo. Mas, afinal, quem são os carmelitas? São os religiosos da Ordem do Carmo, família dedicada à oração contemplativa sob a proteção de Maria.

Veja de onde vieram, por que existem calçados e descalços, quais são os seus santos e como chegaram ao Brasil.

Resposta rápida

Quem são os carmelitas?

São os frades, monjas e leigos da Ordem do Carmo, nascida entre eremitas do Monte Carmelo no fim do século XII, no espírito do profeta Elias e sob a proteção de Nossa Senhora. Seguem a Regra de Santo Alberto. Hoje formam duas ordens: os carmelitas da Antiga Observância (O.Carm.) e os carmelitas descalços (OCD), nascidos da reforma de Santa Teresa d’Ávila.

Quem fundou a Ordem do Carmo

A Ordem do Carmo não tem um fundador único. No fim do século XII ou início do XIII, um grupo de eremitas latinos vivia no Monte Carmelo, perto da atual Haifa, junto à fonte associada ao profeta Elias. Foi ali que Elias desafiou os profetas de Baal e mostrou que só o Senhor é Deus (1Rs 18).

Os profetas Elias e Eliseu pintados com o hábito carmelita, modelos da vida no Monte Carmelo
Os profetas Elias e Eliseu vestidos de carmelitas, de Martín de Cervera, Museu Carmelitano CARMUS. Imagem: Martín de Cervera; foto de Jl FilpoC, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Por isso os carmelitas veem em Santo Elias, profeta do Antigo Testamento, o seu modelo e pai espiritual. A antiga tradição da ordem fazia remontar a ele a sua origem; os historiadores situam o começo documentado no tempo das Cruzadas.

Por volta de 1210, Santo Alberto, patriarca latino de Jerusalém, escreveu para esses eremitas uma regra breve: vida em celas separadas, oração contínua, silêncio, jejum e obediência a um prior. O Papa Honório III a aprovou em 30 de janeiro de 1226.

Do Carmelo à Europa: os irmãos de Nossa Senhora

Os eremitas ergueram no Carmelo uma capela à Virgem Maria, e dela tiraram o nome. Com as derrotas dos cruzados, tiveram de deixar a Terra Santa e fundar casas em Chipre, na Sicília, na França e na Inglaterra.

O mosteiro Stella Maris no Monte Carmelo, em Haifa, onde nasceu a Ordem do Carmo
Mosteiro Stella Maris, no Monte Carmelo, Haifa, fotografado por Zoltan Kluger (1934). Imagem: Zoltan Kluger, domínio público, via Wikimedia Commons

Na Europa, a vida de deserto precisou mudar. Em 1247, Inocêncio IV adaptou a regra: os carmelitas passaram a viver em comunidade, também nas cidades, e tornaram-se uma ordem mendicante, como franciscanos e dominicanos. No mesmo ano, a bula Paganorum incursus chamou-os “Irmãos da Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo”.

Esse nome mostra o caráter mariano do Carmo. A festa de Nossa Senhora do Carmo, em 16 de julho, nasceu na ordem e depois se estendeu a toda a Igreja. O sinal mais conhecido dessa devoção é o escapulário: veja a origem do escapulário do Carmo, ligada pela tradição a São Simão Stock, e como usar o escapulário.

A reforma de Santa Teresa e os carmelitas descalços

No século XVI, Santa Teresa d’Ávila, virgem e doutora da Igreja, monja do Carmelo da Encarnação, quis voltar ao rigor da regra primitiva. Em 24 de agosto de 1562 fundou em Ávila o pequeno mosteiro de São José, com poucas irmãs, clausura estrita e muita oração.

Santa Teresa d'Ávila de joelhos em oração, com o hábito carmelita, diante da pomba do Espírito Santo
Santa Teresa e a visão da pomba, gravura de Pierre van Schuppen segundo Rubens (c. 1650). Imagem: Pierre van Schuppen, CC0, via Wikimedia Commons

Teresa levou a reforma também aos frades, com a ajuda de São João da Cruz, místico e doutor da Igreja. Os reformados andavam de sandálias ou descalços, e por isso foram chamados descalços.

São João da Cruz, com o hábito carmelita, ajoelhado diante de Cristo com a cruz
Visão de São João da Cruz, de Pieter Thijs (século XVII), Museu Real de Belas Artes de Antuérpia. Imagem: Pieter Thijs, domínio público, via Wikimedia Commons

Em 1580 os descalços receberam uma província própria, ainda sob o mesmo geral. Por uma bula de 20 de dezembro de 1593, tornaram-se uma ordem separada.

AspectoCarmelitas (O.Carm.)Carmelitas Descalços (OCD)
OrigemEremitas do Monte Carmelo, séculos XII e XIIIReforma de Santa Teresa, a partir de 1562
Ordem autônoma desdeO tronco original1593
RegraRegra de Santo Alberto, com a adaptação de 1247A mesma regra, vivida segundo o espírito teresiano
Nome comumAntiga Observância ou “calçados”Descalços ou teresianos
Grandes nomesSão Simão Stock, São Nuno de Santa MariaSanta Teresa, São João da Cruz, Santa Teresinha
LeigosOrdem Terceira do CarmoOrdem Secular dos Carmelitas Descalços (OCDS)
Carmelitas calçados e descalços: o que muda

Cada ordem tem frades, monjas de clausura e leigos. Os frades são religiosos mendicantes, e por isso tratados como frei (veja a diferença entre frei e padre). As monjas vivem em clausura, como se explica em o que é um mosteiro. Os leigos formam a Ordem Terceira.

Os santos do Carmelo

O Carmelo deu à Igreja três dos seus doutores, além de mártires e místicos. Alguns nomes:

SantoÉpocaO que deixou
Santa Teresa d’ÁvilaSéculo XVIA reforma do Carmo e obras como Castelo Interior; doutora da Igreja
São João da CruzSéculo XVIPoemas e tratados místicos como Noite Escura; doutor da Igreja
Santa Teresinha do Menino JesusSéculo XIXA “pequena via” da confiança; doutora da Igreja desde 1997
Mártires de Compiègne1794Dezesseis carmelitas guilhotinadas em Paris, fiéis até o fim
Santa Edith SteinSéculo XXFilósofa judia convertida, carmelita, morta em Auschwitz em 1942
Santos do Carmelo e o que deixaram à Igreja
As carmelitas de Compiègne diante do cadafalso em Paris, em 1794, fiéis até o martírio
Martírio das carmelitas de Compiègne, pintura na igreja do convento de Santa Teresa, Palma de Maiorca. Imagem: CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

As mártires de Compiègne subiram ao cadafalso em 17 de julho de 1794, cantando. Beatificadas por São Pio X em 1906, foram inscritas no catálogo dos santos pelo Papa Francisco em 18 de dezembro de 2024, por canonização equipolente. Também são carmelitas Santa Elisabete da Trindade, monja de Dijon, e São Nuno de Santa Maria, o condestável de Portugal, que terminou a vida como irmão carmelita.

Os carmelitas no Brasil

A Igreja de Nossa Senhora do Carmo em Olinda, onde os carmelitas fundaram o primeiro convento do Brasil
Igreja de Nossa Senhora do Carmo, Olinda, Pernambuco. Imagem: Karlavidal, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Os primeiros frades carmelitas chegaram de Portugal a Pernambuco em 1580. Em 1584 fundaram em Olinda o primeiro convento carmelita do país, onde se celebrou a primeira festa brasileira de Nossa Senhora do Carmo.

Daí os carmelitas se espalharam pelo litoral e pela Amazônia, e as suas igrejas e as da Ordem Terceira do Carmo marcam o centro histórico de muitas cidades brasileiras. Hoje há no país frades, mosteiros de monjas e grupos de leigos das duas ordens.

O que fazem as carmelitas: oração e silêncio

O coração do Carmelo é a oração contemplativa: tratar a sós com Aquele que sabemos que nos ama, como ensinava Santa Teresa. O Catecismo descreve essa oração como um olhar de fé fixo em Jesus (CIC §2709-2719, na parte sobre a tradição da oração).

As monjas rezam a Liturgia das Horas, fazem horas de oração mental, trabalham e guardam silêncio, oferecendo a vida pela Igreja e pelos sacerdotes. Os frades unem essa oração à pregação, às paróquias e à direção espiritual.

São João da Cruz descreveu as purificações por que passa a alma nesse caminho, a noite escura da alma. Quem quiser provar algo desse silêncio pode começar por um retiro espiritual.

Um esclarecimento: os chamados “Carmelitas Mensageiros do Espírito Santo” são uma associação diferente e recente. Este artigo trata da histórica Ordem do Carmo, descrita também na Catholic Encyclopedia, no verbete sobre a Ordem Carmelita.

Quem são os carmelitas descalços?

São os frades e monjas da Ordem dos Carmelitas Descalços (OCD), nascida da reforma de Santa Teresa d’Ávila, iniciada em 1562, e de São João da Cruz. Buscaram viver a regra primitiva com mais austeridade e oração. Tornaram-se uma ordem separada em 1593. Santa Teresinha e Santa Edith Stein eram descalças.

O que fazem as carmelitas?

As monjas carmelitas vivem em clausura, dedicadas à oração contemplativa, à Liturgia das Horas, ao trabalho e ao silêncio. Oferecem a vida pela Igreja, pelos sacerdotes e pela salvação do mundo.

Qual a diferença entre carmelitas e carmelitas descalços?

Os carmelitas da Antiga Observância (O.Carm.) são o tronco original da ordem. Os descalços (OCD) nasceram da reforma teresiana do século XVI e formam ordem própria desde 1593. Ambos seguem a Regra de Santo Alberto e veneram Nossa Senhora do Carmo, mas têm constituições e superiores gerais distintos.

Quem fundou a Ordem do Carmo?

A ordem não tem um fundador único. Nasceu de eremitas que viviam no Monte Carmelo no fim do século XII ou início do XIII, inspirados no profeta Elias. Santo Alberto, patriarca de Jerusalém, deu-lhes uma regra por volta de 1210, aprovada por Honório III em 1226.

Quem são os santos carmelitas?

Entre os mais conhecidos estão Santa Teresa d’Ávila, São João da Cruz e Santa Teresinha do Menino Jesus, os três doutores da Igreja, além de Santa Edith Stein, Santa Elisabete da Trindade, São Nuno de Santa Maria e as dezesseis mártires de Compiègne, canonizadas em 2024.

Do silêncio do Monte Carmelo aos mosteiros de clausura do Brasil, os carmelitas lembram a toda a Igreja que a oração vem antes de tudo. Para conhecer outra grande família religiosa nascida na mesma época, veja quem são os franciscanos.