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Diferença entre católico e evangélico: o que realmente nos separa

Sessão do Concílio de Trento, que respondeu à Reforma sobre Bíblia, graça e sacramentos

Quase toda família brasileira tem um parente católico e outro evangélico. Qual é, afinal, a diferença entre católico e evangélico? O que realmente nos separa?

Este guia responde com caridade e exatidão: onde estão as divergências de doutrina e o que temos em comum.

Resposta rápida

Qual a diferença entre católico e evangélico?

Ambos creem na Santíssima Trindade e em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. A diferença está na autoridade (Escritura, Tradição e Magistério contra “só a Bíblia”), no cânon (73 livros contra 66), na salvação (fé que age pela caridade contra “só a fé”), nos sete sacramentos, na presença real na Eucaristia, no papel de Maria e dos santos e no Papa.

Católico, protestante e evangélico: quem é quem

Católico é quem pertence à Igreja fundada por Cristo sobre Pedro. O nome “Igreja Católica” já aparece por volta do ano 107, na carta de Santo Inácio de Antioquia aos esmirniotas.

Protestantes são as comunidades nascidas da Reforma do século XVI, com Lutero, Zwínglio e Calvino. No Brasil, “evangélico” cobre as igrejas históricas (luteranos, presbiterianos, batistas, metodistas), as pentecostais e as neopentecostais. Por isso as diferenças variam muito de uma denominação para outra.

Lutero diante da Dieta de Worms em 1521, momento decisivo da origem do protestantismo
Lutero diante da Dieta de Worms, estudo de Anton von Werner (1870). Imagem: Anton von Werner, domínio público, via Wikimedia Commons

O Concílio Vaticano II chama os evangélicos validamente batizados de irmãos separados, que estão numa comunhão real, embora imperfeita, com a Igreja Católica (decreto Unitatis Redintegratio, n. 3).

Autoridade: só a Bíblia ou Escritura, Tradição e Magistério

Esta é a raiz das outras diferenças. Para a fé católica, a Palavra de Deus chega até nós pela Sagrada Escritura e pela Sagrada Tradição transmitida pelos apóstolos, interpretadas com autoridade pelo Magistério da Igreja (CIC §80-95).

A Reforma adotou o princípio da sola Scriptura: só a Bíblia é regra de fé. Mas a própria Bíblia não traz a lista dos seus livros, e São Paulo manda guardar as tradições recebidas “por palavra ou por carta” (2Ts 2,15). Veja a resposta completa à objeção de que só a Bíblia basta.

Por que a Bíblia católica tem mais livros

A Bíblia católica tem 73 livros: 46 no Antigo Testamento e 27 no Novo (CIC §120). As edições protestantes têm 66, porque retiram sete livros: Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc, além de trechos de Ester e Daniel.

Bíblia de Gutenberg, a Vulgata latina com os 73 livros do cânon católico
Bíblia de Gutenberg (Mainz, c. 1455), exemplar Lenox da New York Public Library. Imagem: NYC Wanderer (Kevin Eng), CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons

Esses livros estavam na Septuaginta, a Bíblia grega usada pelos apóstolos e pelos primeiros cristãos, e nas listas dos concílios de Hipona (393) e Cartago (397). Trento apenas confirmou o cânon em 1546. Entenda o que são os livros deuterocanônicos e quem escolheu os livros da Bíblia.

Salvação: só a fé ou a fé que age pela caridade

Católicos e evangélicos concordam num ponto essencial: ninguém compra a salvação. A justificação é dom gratuito de Deus: nem a fé nem as obras que a precedem merecem essa graça (Trento, sessão VI, cap. 8; CIC §1996).

São Paulo escrevendo suas cartas, fonte do debate sobre a fé que age pela caridade
São Paulo escrevendo as suas epístolas, de Valentin de Boulogne (c. 1618-1620). Imagem: Valentin de Boulogne, domínio público, via Wikimedia Commons

A divergência é sobre o que essa graça produz. Lutero ensinou a sola fide, a justificação só pela fé. O Concílio de Trento, no decreto sobre a justificação (sessão VI, 1547), ensinou que a graça nos transforma por dentro e que a fé salvadora é a “fé que opera pela caridade” (Gl 5,6). São Tiago é claro: o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé (Tg 2,24).

O tema está desenvolvido em salvação pela fé ou pelas obras e na análise dos três “sola” do protestantismo.

Sacramentos e Eucaristia

A Igreja Católica celebra sete sacramentos instituídos por Cristo: Batismo, Confirmação, Eucaristia, Penitência, Unção dos Enfermos, Ordem e Matrimônio (CIC §1113). A maioria dos evangélicos reconhece só o batismo e a ceia, muitas vezes chamados “ordenanças”, sinais simbólicos.

Cristo dá a comunhão aos apóstolos, imagem da fé católica na presença real na Eucaristia
Comunhão dos Apóstolos, afresco de Fra Angelico no convento de San Marco, Florença (c. 1440). Imagem: Fra Angelico, domínio público, via Wikimedia Commons

Na Eucaristia, a fé católica professa que Cristo está presente verdadeira, real e substancialmente, com corpo, sangue, alma e divindade (CIC §1374). Pela consagração, toda a substância do pão e do vinho se converte no Corpo e no Sangue do Senhor: é a transubstanciação (CIC §1376). Para a maioria dos evangélicos, a ceia é só memorial; os luteranos, porém, afirmam a presença real. Veja se a Eucaristia é ou representa Jesus.

Maria, os santos e as imagens

Católicos não adoram Maria nem os santos. A adoração é só de Deus; aos santos damos veneração, e a devoção a Maria “difere essencialmente” do culto de adoração (CIC §971). Pedimos a sua intercessão como a um irmão que reza por nós (CIC §956).

Mosaico da Déesis: Maria e João Batista intercedem diante de Cristo
Mosaico da Déesis, Santa Sofia de Constantinopla (século XIII). Imagem: domínio público, via Wikimedia Commons

As imagens seguem a mesma lógica: a honra prestada a uma imagem passa para quem ela representa (CIC §2132). Leia sobre a intercessão dos santos na Bíblia, a resposta à acusação de que católicos adoram imagens e os quatro dogmas marianos.

O Papa, a confissão, o purgatório e o batismo de crianças

Jesus disse a Pedro: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18). Os bispos são sucessores dos apóstolos e o Papa é sucessor de Pedro (CIC §881-882). As igrejas evangélicas não têm sucessão apostólica nem Papa.

Cristo entrega as chaves a Pedro, fundamento bíblico do primado do Papa
Cristo entrega as chaves a São Pedro, estudo de Jean-Auguste-Dominique Ingres (c. 1817-1818). Imagem: Jean-Auguste-Dominique Ingres, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

Veja as provas do primado de Pedro e o que é a sucessão apostólica.

TemaIgreja CatólicaIgrejas evangélicas (em geral)
Regra de féEscritura, Tradição e MagistérioSó a Bíblia
Bíblia73 livros66 livros
SacramentosSete, que comunicam a graçaBatismo e ceia, muitas vezes simbólicos
ConfissãoAo sacerdote, que absolve em nome de Cristo (Jo 20,23)Diretamente a Deus
PurgatórioPurificação após a morte (CIC §1030-1032)Não aceitam
Batismo de criançasSim, desde os primeiros séculosBatistas e pentecostais não; luteranos e presbiterianos sim
Diferenças de doutrina entre a Igreja Católica e as igrejas evangélicas

Para cada linha há uma resposta no site: a confissão ao sacerdote na Bíblia, o purgatório na Bíblia e o batismo de crianças na Bíblia.

O que católicos e evangélicos têm em comum

A divisão é real, mas não apaga o que nos une. Conhecê-lo ajuda a dialogar sem caricaturas.

O que temos em comumFundamento
Um só Deus em três PessoasMt 28,19; a fé na Santíssima Trindade
Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homemJo 1,1.14; concílios de Niceia e Calcedônia
A Bíblia inspirada por Deus2Tm 3,16
O Credo apostólicoRezado por católicos e igrejas históricas
O batismo trinitário válidoA Igreja não rebatiza quem foi batizado com água em nome da Trindade
A lei moral dos Dez MandamentosEx 20; Mt 22,37-40
Verdades de fé partilhadas por católicos e evangélicos

Até um gesto simples pode servir de ponte: o próprio Lutero recomendava benzer-se, como mostra o artigo sobre o significado do sinal da cruz. Os grandes concílios que definiram a fé em Cristo estão na lista dos concílios ecumênicos.

Qual a diferença entre católico, evangélico e protestante?

Protestante é o cristão das comunidades nascidas da Reforma do século XVI. No Brasil, evangélico é o nome popular de todas essas igrejas, inclusive as pentecostais. Católico é quem está em comunhão com o Papa e os bispos, sucessores de Pedro e dos apóstolos.

Católico é cristão?

Sim. Cristão é quem foi batizado e segue Jesus Cristo; o nome nasceu em Antioquia (At 11,26). O nome Igreja Católica já aparece em Santo Inácio de Antioquia, por volta do ano 107. Dizer que católico não é cristão é um erro histórico.

Qual a diferença entre o batismo católico e evangélico?

Se o batismo evangélico foi feito com água e em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, a Igreja Católica o reconhece como válido e não rebatiza. A diferença está em quem é batizado: a Igreja batiza crianças, enquanto batistas e pentecostais só batizam adultos que professam a fé.

Evangélico pode comungar na missa?

Em regra, não. A comunhão supõe a mesma fé na presença real e a unidade com a Igreja. O cân. 844 só prevê exceções raras, como perigo de morte, para quem manifesta a fé católica neste sacramento. Veja quem pode receber a comunhão.

Por que a Bíblia católica tem mais livros?

Porque conserva sete livros do Antigo Testamento que estavam na Bíblia grega dos apóstolos: Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc. Os reformadores os excluíram, mas a Igreja os reconhece desde os concílios de Hipona e Cartago (século IV).

Em resumo, a diferença entre católico e evangélico não é de nome, mas de fé sobre a Igreja, a Bíblia, a graça e os sacramentos. Conheça bem a sua fé, trate o irmão separado com caridade e reze pela unidade que Cristo pediu: “que todos sejam um” (Jo 17,21).