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Sucessão apostólica: o que é e onde está na Bíblia

Cristo entrega as chaves a São Pedro diante dos Apóstolos, origem da sucessão apostólica

Quando um católico diz que sua Igreja é “apostólica”, não fala só de fidelidade à doutrina dos Apóstolos. Fala de uma cadeia concreta de pessoas: bispos ordenados por bispos, que remontam aos próprios Apóstolos. É a sucessão apostólica.

Muitos evangélicos dizem que a ideia não está na Bíblia e foi criada depois. Vejamos o que dizem a Escritura, os primeiros cristãos e o Catecismo.

Resposta rápida

O que é a sucessão apostólica?

Sucessão apostólica é a transmissão ininterrupta da missão e da autoridade dos Apóstolos aos bispos, pela imposição das mãos (CIC §861-862). Ela aparece na Bíblia (At 1,20-26; 2Tm 2,2; Tt 1,5) e nos Padres do século I e II. Garante sacramentos válidos e o ensino autêntico, não a santidade pessoal do bispo.

O que é a sucessão apostólica

Cristo confiou sua Igreja aos Doze, com Pedro à frente. Os Apóstolos, sabendo que morreriam, deixaram bispos como sucessores e lhes transmitiram o seu próprio encargo de ensinar (CIC §77, que retoma a Dei Verbum 7).

O Concílio Vaticano II ensina que os bispos sucedem aos Apóstolos por instituição divina, como pastores da Igreja (Lumen Gentium, constituição sobre a Igreja, nº 20). O Catecismo resume: a missão dos Apóstolos é permanente, e por isso eles cuidaram de estabelecer sucessores (CIC §861-862).

A transmissão se dá pelo sacramento da Ordem. A ordenação episcopal confere a plenitude desse sacramento (CIC §1555-1557), e só bispos validamente ordenados podem ordenar outros (CIC §1576).

Bispo impõe as mãos sobre o eleito na ordenação episcopal, rito da sucessão apostólica
Ordenação episcopal com imposição das mãos. Imagem: Rei Momo, domínio público, via Wikimedia Commons

Onde está a sucessão apostólica na Bíblia

A objeção mais comum é que Pedro morreu e a Bíblia não fala de sucessor. O Novo Testamento, porém, mostra a sucessão acontecendo:

  • At 1,20-26: após a morte de Judas, os Apóstolos escolhem Matias para assumir o cargo (episkopé) que Judas deixou vago. O ofício continua mesmo quando a pessoa sai.
  • At 6,6 e At 14,23: os Apóstolos impõem as mãos sobre os Sete; Paulo e Barnabé estabelecem presbíteros em cada igreja.
  • 1Tm 4,14 e 2Tm 1,6: Timóteo recebeu um dom pela imposição das mãos.
  • 2Tm 2,2: Paulo manda Timóteo confiar o que ouviu a homens fiéis, capazes de ensinar outros. São quatro gerações num só versículo.
  • Tt 1,5: Tito foi deixado em Creta para estabelecer presbíteros em cada cidade.

O site responde a essa objeção em detalhe em “se Pedro recebeu autoridade, ele já morreu”. E quem nega que existam sacerdotes no Novo Testamento encontra resposta em “na Bíblia não existem padres”.

Cristo entrega as chaves do Reino a Pedro, fundamento do primado e da sucessão
Cristo entrega as chaves a São Pedro, de Peter Paul Rubens (c. 1614). Imagem: Peter Paul Rubens, domínio público, via Wikimedia Commons

O testemunho dos primeiros cristãos

A sucessão não é uma tese medieval. Ela aparece nos escritos mais antigos fora da Bíblia, alguns da época em que o Apóstolo João ainda vivia.

TestemunhoData aproximadaO que diz
São Clemente de Roma, Carta aos Coríntios 42-44c. 96Os Apóstolos nomearam bispos e diáconos e determinaram que, após a morte deles, outros homens aprovados lhes sucedessem no ministério
Santo Inácio de Antioquia, cartasc. 107Onde está o bispo, ali deve estar a comunidade; sem bispo, presbíteros e diáconos não se pode falar de Igreja
Santo Irineu, Contra as Heresias III,3c. 180A tradição dos Apóstolos se conhece pela sucessão dos bispos; lista os bispos de Roma de Lino a Eleutério
Tertuliano, De praescriptione 32c. 200Desafia os hereges a mostrar a lista de seus bispos desde os Apóstolos; cita Policarpo, posto por João em Esmirna, e Clemente, ordenado por Pedro em Roma
Testemunhos da sucessão apostólica nos séculos I a III
Ícone de Santo Inácio de Antioquia, bispo e testemunha da sucessão apostólica
Santo Inácio de Antioquia, ícone ortodoxo. Imagem: ? (Transferred by terraflorin/Originally uploaded by Carlaude), domínio público, via Wikimedia Commons

Santo Irineu é especialmente claro. Contra os gnósticos, que diziam ter uma doutrina secreta, ele responde: se os Apóstolos tivessem algo a ensinar em segredo, o teriam confiado àqueles a quem entregavam as igrejas. Por isso basta conhecer a sucessão de uma Igreja apostólica, e ele escolhe a de Roma.

Folha de rosto da obra Contra as Heresias de Santo Irineu, edição de 1526
Folha de rosto de Adversus haereses, de Santo Irineu, edição de Erasmo (1526). Imagem: Erasme; Johannes Froben, domínio público, via Wikimedia Commons

Outros trechos dos Padres estão reunidos nas citações da Patrística sobre a Igreja. A lista de Irineu continua até hoje na lista completa dos 268 papas.

Santo Irineu de Lião, bispo que listou os sucessores de Pedro em Roma
Santo Irineu de Lião, gravura. Imagem: Exanx777, domínio público, via Wikimedia Commons

O que a sucessão garante e o que não garante

A sucessão apostólica garante duas coisas. Primeiro, sacramentos válidos: onde há bispo validamente ordenado, há sacerdócio, Eucaristia e perdão dos pecados. Segundo, a transmissão autêntica da fé, exercida pelo Magistério da Igreja em comunhão com o sucessor de Pedro.

Martírio de São Policarpo, bispo de Esmirna e discípulo do Apóstolo João
São Policarpo de Esmirna, Menológio de Basílio II (c. 1000). Imagem: domínio público, via Wikimedia Commons

Ela não garante a santidade pessoal. Judas foi Apóstolo e traiu; houve bispos e papas indignos. O sacramento não depende da virtude do ministro, e o pecado de alguns não interrompe a linha.

Também não basta, sozinha, para a plena comunhão. Entre os bispos há um centro visível: o bispo de Roma, sucessor de Pedro. As provas estão em 50 provas do primado de Pedro e em a origem da Igreja e do papado.

Quem tem sucessão apostólica hoje

ComunidadeSucessão apostólicaSituação segundo a Igreja Católica
Igreja CatólicaVálidaEm plena comunhão com o sucessor de Pedro
Igrejas OrtodoxasVálidaVerdadeiros sacramentos, mas sem plena comunhão com Roma (Unitatis Redintegratio 15)
Comunhão AnglicanaOrdens declaradas inválidasLeão XIII, Apostolicae Curae (1896), por defeito de forma e de intenção no rito de ordenação
Igrejas protestantesEm geral não a reivindicamComunidades eclesiais, sem episcopado válido (Dominus Iesus 17)
Igrejas com e sem sucessão apostólica válida, segundo o ensino católico

A declaração Dominus Iesus (2000) explica a distinção: as Igrejas que conservam a sucessão e a Eucaristia válida são verdadeiras Igrejas particulares, ainda que separadas. As diferenças com os ortodoxos estão em Igreja Católica e Ortodoxa: o que separa e o que une.

É também por isso que os 21 concílios ecumênicos reúnem bispos, e não delegados eleitos: quem decide em nome da Igreja são os sucessores dos Apóstolos unidos ao Papa. A colaboração entre eles hoje é regulada, por exemplo, pelo motu proprio Apostolos Suos, sobre as conferências episcopais.

Por que a sucessão importa

Sem sucessão, cada comunidade dependeria apenas da sua própria leitura da Bíblia, e não haveria como decidir quem interpreta com autoridade. Com ela, a fé chega até nós pelas mesmas mãos que a receberam de Cristo.

Para estudo mais técnico, a Comissão Teológica Internacional publicou em 1973 um documento sobre a sucessão apostólica e seu valor ecumênico. Os verbetes Igreja e Papa do dicionário completam o quadro.

O que é a sucessão apostólica?

É a transmissão ininterrupta, pela imposição das mãos, da missão e da autoridade que Cristo confiou aos Apóstolos. Os bispos validamente ordenados são seus sucessores (CIC §861-862). Por meio deles a Igreja conserva os sacramentos válidos e o ensino autêntico, em comunhão com o bispo de Roma, sucessor de Pedro.

Onde está a sucessão apostólica na Bíblia?

Nos Atos e nas cartas pastorais. Matias assume o cargo de Judas (At 1,20-26); os Apóstolos impõem as mãos e estabelecem presbíteros (At 6,6; 14,23); Timóteo recebe o dom pela imposição das mãos (2Tm 1,6) e deve transmitir o ensino a homens fiéis que ensinarão outros (2Tm 2,2); Tito estabelece presbíteros em Creta (Tt 1,5).

Os evangélicos têm sucessão apostólica?

Em geral, não, e a maioria nem a reivindica, pois as comunidades nascidas da Reforma abandonaram o episcopado sacramental. Por isso a Igreja as chama de comunidades eclesiais (Dominus Iesus 17). Isso não nega a fé sincera nem o batismo válido de muitos evangélicos, mas indica que não têm sacerdócio nem Eucaristia válidos.

Os ortodoxos têm sucessão apostólica?

Sim. A Igreja Católica reconhece que as Igrejas Ortodoxas conservam a sucessão apostólica e verdadeiros sacramentos, sobretudo o sacerdócio e a Eucaristia (Unitatis Redintegratio 15). O que lhes falta é a plena comunhão com o sucessor de Pedro, rompida no cisma de 1054.

Quem foi o sucessor de Pedro?

Segundo Santo Irineu (Contra as Heresias III,3), o primeiro sucessor de Pedro como bispo de Roma foi Lino, seguido de Anacleto e de Clemente, o autor da Carta aos Coríntios. A linha continua sem interrupção até o Papa atual, como mostra a lista dos papas.

A pergunta, no fim, é simples: de quem a sua comunidade recebeu a autoridade para ensinar e celebrar? A Igreja Católica pode responder com nomes, datas e uma linha que chega aos Apóstolos.