Ir para o conteúdo

Igreja Católica e Ortodoxa: o que as separa e o que as une

Interior de Santa Sofia, onde em 1054 foi depositada a excomunhão que marcou o cisma

Católicos e ortodoxos rezam o mesmo Credo, celebram os mesmos sete sacramentos e veneram os mesmos Padres da Igreja. Por que, então, estão separados há quase mil anos? Entender a diferença entre Igreja Católica e Ortodoxa exige olhar para a história e para alguns pontos de doutrina bem concretos.

Este artigo apresenta essas diferenças com exatidão e respeito, a partir do ensino católico, e mostra também o que as duas tradições têm em comum.

Resposta rápida

Qual a diferença entre a Igreja Católica e a Ortodoxa?

A diferença central é o primado do Papa: os católicos reconhecem no bispo de Roma, sucessor de Pedro, autoridade sobre toda a Igreja; os ortodoxos lhe atribuem, no máximo, uma primazia de honra. Somam-se o Filioque, o purgatório, a Imaculada Conceição e questões de disciplina. Ambos têm sacramentos válidos e sucessão apostólica.

Como aconteceu o Cisma do Oriente

A separação foi lenta. Oriente e Ocidente falavam línguas diferentes, tinham costumes litúrgicos próprios e se afastaram politicamente depois da queda de Roma. As tensões cresceram com Fócio, no século IX, e explodiram em 1054.

Mapa da divisão entre cristãos do Ocidente e do Oriente após o cisma de 1054
Mapa da divisão religiosa da Europa após o Cisma do Oriente (1054). Imagem: Tobi85, domínio público, via Wikimedia Commons

Em julho de 1054, os legados do Papa Leão IX, chefiados pelo cardeal Humberto, depositaram uma sentença de excomunhão no altar de Santa Sofia contra o patriarca Miguel Cerulário. O patriarca respondeu excomungando os legados. A ruptura se tornou definitiva em 1204, quando cruzados saquearam Constantinopla.

Houve tentativas sérias de reunião: no II Concílio de Lyon (1274) e no Concílio de Florença (1439), contados entre os 21 concílios ecumênicos da Igreja. Os bispos gregos assinaram a união, mas ela foi rejeitada no Oriente.

O patriarca Atenágoras e o Papa Paulo VI, que retiraram as excomunhões de 1054
O patriarca Atenágoras de Constantinopla com o Papa Paulo VI. Imagem: Fotógrafo desconhecido, domínio público, via Wikimedia Commons

Em 7 de dezembro de 1965, Paulo VI e o patriarca Atenágoras retiraram da memória da Igreja as excomunhões de 1054, como se lê na declaração comum de Paulo VI e Atenágoras. O gesto não restabeleceu a comunhão, mas abriu o diálogo.

As principais diferenças numa tabela

TemaIgreja CatólicaIgrejas Ortodoxas
PapaPrimado de jurisdição sobre toda a IgrejaPrimazia de honra, sem jurisdição universal
OrganizaçãoComunhão de Igrejas unidas ao bispo de RomaIgrejas autocéfalas; Constantinopla é “primeiro entre iguais”
FilioqueO Espírito procede do Pai e do FilhoRejeitam a inclusão no Credo
PurgatórioDogma de féRezam pelos mortos, mas rejeitam a formulação latina
Imaculada ConceiçãoDogma definido em 1854Veneram a Toda Santa, mas não aceitam o dogma
Novo casamentoMatrimônio válido é indissolúvelAdmitem segunda união em certos casos, com rito penitencial
CleroCelibato no rito latinoPadres podem ser casados; bispos são monges
Pão da EucaristiaÁzimo no rito latinoFermentado
CalendárioGregorianoMuitas usam o juliano para a Páscoa e festas
Diferença entre Igreja Católica e Ortodoxa em doutrina, governo e disciplina

O primado do Papa: a diferença decisiva

Fachada da Basílica de São Pedro, sinal do primado do bispo de Roma
Fachada da Basílica de São Pedro, Vaticano. Imagem: Jebulon, CC0, via Wikimedia Commons

Para a Igreja Católica, o Papa tem poder pleno, supremo e universal sobre a Igreja inteira (CIC §882), como definiu a constituição Pastor Aeternus sobre o primado. Esse ministério vem das palavras de Cristo a Pedro (Mt 16,18-19; Jo 21,15-17).

Os Padres orientais reconheciam Roma como a sé de Pedro, e é isso que reúnem as 50 provas do primado de Pedro. A objeção de que o poder de Pedro morreu com ele é tratada na resposta sobre quem herda a autoridade de Pedro.

Filioque, purgatório e Imaculada Conceição

Ícone do Cristo Pantocrator do Sinai, fé comum a católicos e ortodoxos
Cristo Pantocrator, ícone do Mosteiro de Santa Catarina do Sinai (século VI). Imagem: Autor desconhecido, domínio público, via Wikimedia Commons

O Ocidente acrescentou ao Credo que o Espírito Santo procede “do Pai e do Filho” (Filioque). A Igreja ensina que a fórmula exprime a mesma fé da tradição oriental, segundo a qual o Espírito procede do Pai “pelo Filho” (CIC §246-248). O tema é desenvolvido na seção do Catecismo Creio no Espírito Santo.

Os ortodoxos rezam pelos defuntos, o que pressupõe uma purificação depois da morte, mas não aceitam a doutrina latina do purgatório definida pela Igreja. Também chamam Maria de Panaghia, a Toda Santa, sem aceitar a definição de 1854, discutida no artigo sobre o dogma da Imaculada Conceição em 1854 e nos quatro dogmas marianos.

Clero casado, divórcio, pão e calendário

Iconóstase de uma igreja ortodoxa em Varsóvia, típica da liturgia oriental
Iconóstase de igreja ortodoxa em Varsóvia, Polônia. Imagem: Radosław Botev, CC BY 3.0 pl, via Wikimedia Commons

Nas Igrejas ortodoxas, um homem casado pode ser ordenado padre, mas quem já é padre não pode se casar. Os bispos vêm dos monges. As Igrejas orientais católicas seguem a mesma disciplina, o que mostra que se trata de costume legítimo, não de doutrina.

Mais grave é o novo casamento: os ortodoxos o toleram “por economia”, enquanto a Igreja Católica ensina que o vínculo do matrimônio sacramental e indissolúvel só termina com a morte (CIC §1640, §2382). O pão fermentado e o ázimo são ambos válidos, como reconheceu o Concílio de Florença.

Catedral de São Basílio em Moscou, símbolo da tradição ortodoxa russa
Catedral de São Basílio, Praça Vermelha, Moscou (século XVI). Imagem: Diego Delso, domínio público, via Wikimedia Commons

Quanto ao calendário, Igrejas como a russa e a sérvia seguem o juliano e celebram o Natal em 7 de janeiro. Outras, como a de Constantinopla, comemoram em 25 de dezembro, mas quase todas calculam a Páscoa pelo juliano.

O que católicos e ortodoxos têm em comum

O Vaticano II afirma que essas Igrejas possuem verdadeiros sacramentos, sobretudo o sacerdócio e a Eucaristia, graças à sucessão apostólica dos bispos (Unitatis Redintegratio 15). A declaração Dominus Iesus sobre a unicidade da Igreja as chama de verdadeiras Igrejas particulares, embora lhes falte a plena comunhão com Pedro (n. 17).

ElementoSituação comum
CredoNiceno-constantinopolitano, salvo o Filioque
ConcíliosOs sete primeiros concílios ecumênicos
SacramentosOs sete, todos válidos
BisposSucessão apostólica ininterrupta
Virgem MariaMãe de Deus e sempre virgem
Santos e íconesVeneração e intercessão
O que a Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas têm em comum

Por isso João Paulo II falava das “dois pulmões” da Igreja, Oriente e Ocidente, e dedicou ao tema a encíclica Ut Unum Sint sobre o ecumenismo. A unidade plena, porém, passa pela comunhão com o sucessor de Pedro, como explica o texto sobre a verdadeira Igreja de Cristo.

Qual a diferença entre Igreja Católica e Ortodoxa?

A principal é o papel do Papa: os católicos reconhecem sua autoridade sobre toda a Igreja, e os ortodoxos não. Há ainda divergências sobre o Filioque, o purgatório, a Imaculada Conceição e o novo casamento. Mas ambos conservam os sete sacramentos, a sucessão apostólica e a fé dos primeiros concílios.

Por que houve o cisma de 1054?

Por um acúmulo de causas: diferenças de língua e cultura, rivalidade política, a questão do Filioque e, sobretudo, a recusa do primado do Papa. Em 1054, os legados de Leão IX e o patriarca Miguel Cerulário trocaram excomunhões, e a separação se consolidou depois de 1204.

Ortodoxo pode comungar na Igreja Católica?

Sim, segundo o Código de Direito Canônico (cân. 844 §3): o ministro católico pode dar a Eucaristia, a confissão e a unção a fiéis orientais que a peçam espontaneamente e estejam bem dispostos. Mas as Igrejas ortodoxas, em geral, não permitem que seus fiéis comunguem fora delas.

Os ortodoxos acreditam no purgatório?

Não aceitam o termo nem a doutrina latina, com a ideia de pena temporal e satisfação. Mas rezam pelos mortos e oferecem a Divina Liturgia por eles, o que supõe que as almas podem ser ajudadas depois da morte. Na prática, a distância é menor do que parece.

Padre ortodoxo pode casar?

Um homem casado pode ser ordenado padre ou diácono, mas quem já recebeu a ordenação não pode se casar depois. Os bispos são escolhidos entre os monges celibatários. A mesma regra vale para muitas Igrejas orientais católicas, unidas ao Papa.

Quando é o Natal ortodoxo?

Depende da Igreja. As que seguem o calendário juliano, como a russa, a sérvia e a de Jerusalém, celebram o Natal em 7 de janeiro do nosso calendário. Outras, como a grega e a de Constantinopla, celebram em 25 de dezembro.

A diferença entre Igreja Católica e Ortodoxa é real, mas não apaga o muito que as une. O católico deve conhecer bem os dois lados: com firmeza sobre o primado de Pedro e com caridade por irmãos que guardam a fé apostólica.